O vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, diz que os benefícios para a importação de carros da China foram pactuados com o governo para viabilizar os investimentos da montadora chinesa de automóveis híbridos e elétricos na fábrica de Camaçari, na Bahia.
Segundo o executivo, a empresa reiterou, em encontro na semana passada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a importância de o governo cumprir o que foi combinado. Em entrevista à Broadcast, Baldy falou sobre o pedido, contestado pelas montadoras tradicionais, por novas cotas para trazer sem imposto de importação carros que têm a produção finalizada em Camaçari.
“Se o governo cumpre com aquilo que foi pactuado para ter um investimento, acreditamos piamente que vai cumprir”, afirmou Baldy sobre a perspectiva de ter o pedido atendido.
Na reunião com Lula, realizada em 12 de março, a marca anunciou também a contratação de mais de 3 mil trabalhadores para a abertura do segundo turno de produção em Camaçari.
Além disso, a BYD acaba de anunciar investimentos de R$ 300 milhões em um centro de testes e avaliação automotiva que vai funcionar no complexo do aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, somando-se a outros R$ 5,5 bilhões investidos em Camaçari.
Abaixo, os principais trechos da entrevista:
A BYD tem buscado renovar cotas de importação ou outros benefícios com o setor público?
Não é buscar renovar. Na verdade, é cumprir aquilo que foi o plano da empresa apresentado para o governo com toda a transparência. Só buscamos aquilo que foi apresentado e absorvido pelo setor público como possível. Não queremos nada além e nem diferente, somente aquilo que foi entendido como viável para que pudéssemos implementar uma fábrica. Fábrica de carros, em qualquer parte do mundo, é extremamente complexa. Uma fábrica de carros, de novas tecnologias, é ainda mais. No processo de industrialização, existem transições. Então, é só cumprir com aquilo que foi desde sempre apresentado.
Mas o que o governo liberou foi uma cota de importação válida por seis meses, até janeiro...
Quando tratamos especificamente de importação do regime transitório de SKD [esquema de produção em que os carros chegam à fábrica parcialmente montados], pedimos 36 meses e pactuamos 12 meses. O governo liberou seis meses para entender se os nossos investimentos estavam sendo realizados. Nós estivemos com o presidente da República na semana passada reiterando a importância de tudo que foi pactuado.
Então, essa demanda já foi levada ao governo?
Ela é reiteradamente colocada porque é algo que foi pactuado. Não é uma novidade. É um tema que foi pactuado. Para um investidor estrangeiro investir no Brasil quase R$ 6 bilhões, existe a necessidade de você ter políticas públicas transparentes e sólidas.
E qual é a perspectiva de o governo atender?
Se o governo cumpre com aquilo que foi pactuado para ter um investimento, acreditamos piamente que vai cumprir.
Além de incentivos para a fábrica e introdução da tecnologia, o que mais a BYD tem discutido com o setor público?
A complexidade do investimento exige que existam políticas públicas. É a primeira fábrica de carros de novas energias, de novas tecnologias, no Brasil. Não é a mesma coisa que produzir um carro comum. Existem inúmeras localizações [de componentes] que serão necessárias. O Brasil não fabrica bateria, por exemplo. Então, nós estamos falando de uma transição que não é somente para a BYD, é para todos.
A BYD pretende chegar a 50% de nacionalização no próximo ano. Como isso está avançando?
Nós temos mais de 400 fornecedores homologados no Brasil. É importante registrar também que no complexo vamos fabricar parte dos componentes. São 17 fábricas de componentes nossas.
Haverá também linhas de pintura, armação de carrocerias?
Começamos já a partir de abril a transição para a fabricação local. Até julho, vamos começar a fazer a transição a essas unidades: estamparia, solda, pintura. A montagem final está pronta. Vai do fim para o começo.
Quando a BYD finaliza esse esquema de SKD?
Ao longo deste ano.
Com qual capacidade de produção?
Até o fim do ano, tenho que estar fabricando 25 mil carros por mês, ritmo anual de 300 mil. Já estou fabricando 10 mil [mês].
A BYD acaba de anunciar encomendas de 100 mil carros da Argentina e do México para a fábrica do Brasil...
Foi confirmado com a Stella [Stella Li, vice-presidente executiva global e CEO da BYD Américas e Europa] um pedido de 50 mil do México e 50 mil carros da Argentina. Para exportá-los, temos que atingir o mínimo de conteúdo local de 35%, exigido nas regras do Mercosul ou dos acordos bilaterais, como o com o México.
Podemos concluir, então, que um terço da produção vai para mercados internacionais?
É muito precipitado colocar um porcentual. A BYD vem crescendo muito nos mercados, de um modo geral e existe um grande potencial para essa fábrica ter uma participação expressiva. A BYD é número um no Uruguai, tem uma escalada bastante expressiva na Argentina, é número quatro na Colômbia. No México, está entre sétima e oitava [colocação], vem crescendo também. Em todos esses países que têm acordos com o Brasil, seja Mercosul ou acordos bilaterais, há uma oportunidade para que a BYD possa fornecer.
Como o senhor reage a manifestações de montadoras tradicionais contra incentivos à importação de carros híbridos e elétricos, sob o argumento de que pode fazer mais sentido trazer carros de fora do que ter uma fábrica aqui no Brasil?
Acredito que isso é mais para confundir a população. A Fiat hoje importa Leapmotor [uma marca chinesa], a General Motors hoje importa [da China] o Spark [um utilitário esportivo] e agora o Captiva. Qual é a diferença de eu importar uma Hilux [picape da Toyota] da Argentina ou fabricar uma S10 [da GM] no Brasil? Estou estimulando emprego na Argentina? Então, esse discurso é extremamente oportunista.
O senhor disse que vai avançar para 50% de conteúdo local, é um compromisso...
Não é só um compromisso, é uma garantia de competitividade.
A BYD vai ser competitiva produzindo no Brasil, em vez de trazer carros da China?
Mas é lógico. Quando toma a decisão de fabricar no Brasil, ela tem que se tornar cada vez mais verticalizada para ser competitiva. Estamos falando do mercado latino-americano todo. Tenho que ser competitivo fabricando aqui e vendendo aqui.
Quanto já foi investido na fábrica de Camaçari?
A fábrica tem uma projeção de investimentos de R$ 5,5 bilhões e, hoje, já deve ter materializado em torno de R$ 2,5 bilhões. Quem vai lá, percebe a grandiosidade do projeto e o tamanho do investimento.
A meta de vocês é de quase 600 mil veículos de capacidade?
Em 2028.
A infraestrutura do Brasil suporta a ambição da BYD de se tornar a marca número um do país?
A rede de eletricidade suporta com toda tranquilidade. Mesmo se você eletrificar toda a frota de carros do Brasil, o que nunca vai acontecer, tem capacidade energética para suprir. O Brasil ainda tem uma grande potencialidade.
Qual é a visão da BYD sobre a velocidade da transição do mercado brasileiro para o carro elétrico?
É um amadurecimento que vai ocorrer com o tempo. Quanto mais outras marcas entrarem, maior será a confiança do consumidor final em adotar a tecnologia. Em paralelo, cresce a infraestrutura de recarga. A infraestrutura de recarga cresce agora a passos muito largos. Como investimos forte para que o carro elétrico pudesse crescer no Brasil, agora a infraestrutura de recarga vai crescer, porque existe demanda.
A BYD terminou o ano passado com quase 6% do mercado de carros de passeio. Qual é a projeção para 2026?
Nosso objetivo é crescer pelo menos 50%.
Com esse crescimento, a BYD vai ocupar qual posição no ranking de marcas?
Nosso objetivo é crescer pelo menos 50%. Aí [posição no ranking] depende muito da variação do mercado.
Como a marca está trabalhando para crescer em novos canais, como vendas a locadoras?
Fechamos um grande acordo com a Localiza, que, por ser a líder de mercado, puxa o desejo e quebra o receio de outras que queiram comprar e crescer nesse mercado [de carros híbridos e elétricos].
Já começaram a entregar para a Localiza?
Dos 10 mil carros do acordo, eles já cobraram em torno de 3 mil.
Como está evoluindo o desenvolvimento da rede de concessionárias?
Nós escolhemos os melhores [concessionários] em cada uma das regiões. Buscamos trabalhar com a melhor rede empresarial local. Nós somamos uma rede muito expressiva, muito agressiva, que é grande parte do nosso sucesso até o momento.
Hoje, a BYD têm uma cobertura nacional?
Total. Hoje, para você ter uma ideia, em Arapiraca (AL) e Petrolina (PE), no interior do Nordeste, somos líderes de mercado.
Essa rede ainda está em expansão?
Temos hoje 211 concessionárias, o objetivo para o ano é fechar em 300.
A chegada de novos concorrentes, com as montadoras tradicionais também lançando carros híbridos, vai tornar mais disputado esse mercado de eletrificados? Fica mais difícil crescer com essa concorrência?
Pelo contrário, eu acredito que o mercado de eletrificados vai crescer, e ele crescendo, qual marca tem maior confiança? Como é que um Dolphin Mini vende mais que um Polo no varejo brasileiro? Confiança do consumidor. Nós estamos aumentando este mercado, tirando ele da combustão e trazendo para o mundo eletrificado. E aí nós temos 75% de chance de conquistar esse consumidor que decidiu caminhar para um elétrico.
Qual vai ser o nível de eletrificação do Brasil na próxima década?
Eu não me arrisco a fazer essa previsão. O brasileiro pode acelerar a transição quando descobrir que o custo de manutenção e de propriedade [do carro eletrificado] é menor.
Muitas vezes, empresários reclamam das incertezas, do custo financeiro, do custo trabalhista e da carga tributária no Brasil. Qual é a percepção da BYD em relação ao ambiente de negócios no país?
O meu desafio é fazer com que essa percepção seja melhor, porque, de fato, o custo Brasil é extremamente doloroso. Eu tenho o papel de estimular sempre. O board [conselho de administração] da empresa está sempre animado, sempre investindo, acreditando que temos uma oportunidade. Porque não temos concorrente com a mesma tecnologia para competir conosco. Nós temos uma janela de oportunidade global que é extremamente interessante. E temos que aproveitá-la com a maior velocidade possível para avançar e estar no top 3 o quanto antes. Quando as demais marcas conseguirem atingir a capacidade tecnológica para competir conosco, nós já vamos estar lá em cima, com viabilidade, com fábrica.
A BYD pretende se juntar a outras marcas chinesas com interesses em comum para levar demandas ao governo dentro de uma entidade?
Não. Nós não temos interesse nesse momento porque não sei qual é a capacidade de nacionalização dessas outras marcas. Então, nós trabalhamos individualmente. Nós decidimos investir no Brasil antes, apostamos e investimos no Brasil antes e vamos nos tornar um fabricante brasileiro antes. Não sei qual é o real interesse dos demais fabricantes, de qualquer nacionalidade, não só chinesa, de investir para ter a fabricação local. Por essa razão, nós trabalhamos de modo individual.
Também não há interesse em se filiar à Anfavea?
Neste momento, não passa pela cabeça.
Mas não é uma tendência quando vocês tiverem um maior índice de nacionalização?
Cada dia uma agonia. Temos que focar no nosso trabalho.
A BYD anunciou que vai contratar mais de 3 mil trabalhadores em Camaçari. Será aberto um novo turno de produção?
Exatamente. Estamos abrindo o segundo turno. Temos 3,2 mil funcionários hoje em um turno. E já estamos contratando 3 mil para o segundo turno, que deve começar em no máximo em 60 dias.
Eduardo Laguna e Ivo Ribeiro