“É natural que exista uma ansiedade e uma crença de que o BNDES possa, por si só, resolver essas questões, mas é uma visão que ignora o fato de que mais endividamento nem sempre é a solução”
Nas últimas semanas o BNDES foi alvo de diversas críticas do setor sucroenergético. As regras de financiamento impostas pelo banco para a renovação dos canaviais provocou insatisfação no setor sucroenergético, ainda mergulhado em um crise financeira.
A entidade que representa as usinas chegou a afirmar que as condições da nova ediçao do ProRenova “prejudicarão fortemente o processo de reestruturação das lavouras no Centro-Sul do País”. E foi além: “Em 2015, o Prorenova não foi a única linha lançada pelo BNDES que decepcionou o setor sucroenergético.”
Em sua quarta edição, o Programa de apoio à renovação e implantação de novos canaviais (ProRenova) reduziu substancialmente a abrangência da linha. A queda do orçamento disponível e o encarecimento da taxa de juros estreitaram a possibilidade de acesso das empresas do setor sucroenergético e também o tamanho da área plantada passível de financiamento.
A seguir:
- BNDES apresenta argumentos para mostrar como enxerga sua atuação no setor
- O equívoco no raciocínio das empresas que procuram o banco
- As declarações da Unica sobre a lógica das usinas
- Artur Yabe Milanez, do BNDES: “É natural que exista uma ansiedade e uma crença de que o BNDES possa, por si só, resolver essas questões, mas é uma visão que ignora o fato de que mais endividamento nem sempre é a solução”.
- “Privilegiada”. É essa a palavra que o BNDES usa para se referir à indústria sucroenergética.
Nas últimas semanas o BNDES foi alvo de diversas críticas do setor sucroenergético. As regras de financiamento impostas pelo banco para a renovação dos canaviais provocou insatisfação no setor sucroenergético, ainda mergulhado em um crise financeira.
A entidade que representa as usinas chegou a afirmar que as condições da nova ediçao do ProRenova “prejudicarão fortemente o processo de reestruturação das lavouras no Centro-Sul do País”. E foi além: “Em 2015, o Prorenova não foi a única linha lançada pelo BNDES que decepcionou o setor sucroenergético.”
Em sua quarta edição, o Programa de apoio à renovação e implantação de novos canaviais (ProRenova) reduziu substancialmente a abrangência da linha. A queda do orçamento disponível e o encarecimento da taxa de juros estreitaram a possibilidade de acesso das empresas do setor sucroenergético e também o tamanho da área plantada passível de financiamento.
Quando foi criado, em 2012, o programa contava com um orçamento de R$ 4 bilhões. Com o passar do tempo, o ProRenova sofreu quedas no orçamento. Atualmente, os recursos disponíveis são de R$ 1,5 bilhão.
O gerente do departamento de bioenergia do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Artur Yabe Milanez, defende a instituição e diz que a indústria sucroenergética é privilegiada. De acordo com ele, não há outra cadeia produtiva que tenha um programa dedicado a custeio que esteja em sua quarta edição, como o ProRenova.
Com relação às críticas recebidas por empresários e entidades do setor, ele argumenta que existe uma leitura equivocada do que é um financiamento.
“Aqueles que já atingiram certo limite [de endividamento] não conseguirão mudar a sua estratégia de plantio por meio de mais endividamento” diz Artur Yabe, mencionando que determinados grupos, por uma série de razões, já não têm espaço para mais empréstimos.
“Se as empresas tomam certo limite para financiar estocagem, naturalmente isso reduz a sua capacidade de financiar com o ProRenova. A capacidade de se endividar não é infinita”, argumenta.
“Muitas vezes há a leitura equivocada de que mais financiamento é uma solução universal. Infelizmente, não é”, Yabe do BNDES
O banco quer garantias e minimizar os riscos de seus empréstimos. O problema é que na situação financeira do setor, as usinas procuram o BNDES para justamente melhorar o perfil da sua dívida, rolando o endividamento.
A lógica de boa parte das usinas quando procuram o ProRenova está em obter carência maior para dívidas já contraídas. Antonio de Padua Rodrigues, da Unica explica que o plantio é, frequentemente, feito com capital de giro de curto prazo e, assim, os usineiros ‘trocam’ a dívida de curto prazo por uma dívida de longo prazo com o financiamento. “Mesmo que eles [as usinas] já tivessem desembolsado todo esse dinheiro, eles recuperam todo aquele desembolso e, daí, ganham”, conseguindo mais cinco anos para pagar, ressalta Pádua.
E completa: “Infelizmente, este ano, isso não deve ocorrer porque a linha tem um custo financeiro muito alto”.
Yabe reconhece que, por fazer parte do Plano Safra, o programa não teve uma negociação específica. Ainda assim, argumenta, ele é um dos poucos que registrou um aumento no valor disponível a taxas de juros de longo prazo (TJLP), que passou a ser de R$ 500 milhões. Eduardo Cavalcanti, chefe do departamento do banco disse recentente que, apesar de não ser as melhores taxas, “dadas as dificuldades de se obter juros subsidiados no país, conseguimos após muito esforço atrelar uma parte das linhas à TJLP”.
Em uma perspectiva realista, Padua concorda que o BNDES tem a indústria sucroenergética como prioritária e observa que o próprio banco também enfrenta dificuldades causadas pela atual situação econômica do país e por entraves governamentais.
“O BNDES não faz milagres, é um banco que empresta dinheiro como qualquer outro”, Padua da Unica
“O governo, devido a essa crise fiscal, cortou a equalização da taxa de juros. Então, o BNDES teve que buscar o financiamento a juros de mercado. E os juros de mercado nesse momento, com a taxa Selic, a remuneração do banco e o ajuste financeiro, chega a 18% ao ano”, lamenta o representante da cadeia produtiva.
Antagonistas
Sobre o resultado do programa, a visão do banco e da principal entidade do setor se antagonizam. Para a Unica o resultado ficou aquém do esperado.
De acordo com o diretor técnico da Unica, o ProRenova representa apenas uma parcela do investimento necessário para a renovação dos canaviais. Baseando-se no valor estimado pelo BNDES por hectare na edição atual, ele aponta que seriam necessários R$ 10,5 bilhões para a renovação necessária atualmente – estimada pela Unica em 1,5 milhão de hectares. A área total de cana utilizada pela usinas estimada para 2015/16 é 8 milhões de hectares no Centro-Sul e 1 milhão de hectares no Norte/Nordeste.

A evolução do orçamento e do valor por hectare resultaram em uma drástica diminuição na área potencial de expansão e renovação do canavial pelo ProRenova. Em 2012, supondo um orçamento equivalente ao valor total do programa (R$ 4 bilhões) e um valor de R$ 4,35 mil por hectare, seria possível plantar 919,54 mil hectares. Agora, com um orçamento de 1,5 bilhão, essa relação alcançaria apenas 214,29 mil hectares – uma redução de 76%.

Cabe ressaltar que, como se trata de um financiamento que abrange apenas uma parcela da totalidade dos recursos investidos no canavial – o BNDES participa com até 70% do valor dos itens financiáveis no caso de pequenas e médias empresas e com até 50% para grandes –, esse cálculo não corresponde à quantidade real de hectares renovados pelo programa. Ainda assim, ele aponta uma clara mudança em seu alcance total.
Para que um canavial seja considerado totalmente renovado, é necessária uma renovação anual de 20%. No entanto, em 2013/14 esse índice caiu para 17% e, na safra 2014/15, ficou em torno de 14%. É considerado ideal um canavial com idade média de 3,2 anos, o que representa uma renovação anual de 18%.
Como estes índices não tem sido alcançado, o canavial já começa a ficar mais velho. Em 2015 a estimativa do CTC é de um aumento de 1,1% na idade dos canaviais.
A possibilidade do índice de renovação continuar encolhendo preocupa. O gerente da Unica informa que, mesmo com o ProRenova, a renovação nos primeiros oito meses deste ano está 14,5% menor que no mesmo período do ano passado. “Está se plantando menos cana, o que significa que no ano que vem vamos ter um canavial mais envelhecido ainda”.
A ‘culpa’ dessa redução, pondera Padua, não pode ser colocada completamente nas atuais condições financeiras das usinas, afinal, o aumento das chuvas em meses estratégicos, como fevereiro, março e julho, também afeta o plantio de cana-de-açúcar. Outra possibilidade citada por ele é a expectativa dos usineiros de um contingente grande de cana bisada no próximo ano.
Frente à queda nos números apresentados de renovação de canaviais, Yabe pondera que podem ser estudadas mudanças no ProRenova para os próximos anos. “Nós acreditamos que o setor tem condições de se recuperar e aumentar a sua condição de capacidade própria de fazer esse investimento. Mas se, no futuro, existir a necessidade do banco de criar novas edições do ProRenova, certamente o BNDES estará aberto para avaliar”, sinaliza.
Mesmo assim, ele aponta que o banco acredita que ProRenova cumpriu seu papel por ter colocado os canaviais abaixo de um patamar de 3,5 anos, o qual ele classifica como ‘idade muito crítica’.
“Nós financiamos mais de 1 milhão de hectares. Isso é um marco para o BNDES, que jamais havia apoiado tamanha área de renovação de canaviais”, ressalta. Para esses investimentos, o banco desembolsou mais de R$ 4,5 bilhões para plantio de cana.
“Ano que vem vamos ter um canavial mais envelhecido ainda”, Padua
Liberações atrasadas
Pádua revela também um problema organizacional: “Conheço empresas que ainda não receberam o dinheiro do ProRenova de 2013. O programa é fundamental, mas desde que chegue na hora e no momento certo e a uma condição financeira adequada com a atividade do setor, que foi o que aconteceu nos financiamentos anteriores”.
Ele, no entanto, não coloca a responsabilidade desse atraso na liberação dos recursos sobre o banco. “O dinheiro não saiu para o plantio de 2013 porque o Tesouro está negando a equalização [dos juros] para o BNDES”.
“A questão é você criar uma política de juros compatível com a atividade, mas essa política pública não é o BNDES que cria”, Padua
Críticas
Sobre as diversas críticas do setor envolvendo o BNDES, a instituição lembra que existem outros setores da economia e uma comparação mudaria a perspectiva das empresas sucroenergéticas.
“Quando se faz essa leitura de que o setor está tendo um tratamento aquém do que se gostaria, essa análise deveria ser feita comparativamente a outros segmentos que, apesar de também ter investimentos pesados em custeio, não dispõem de uma linha específica”, afirma.
O gerente cita que, desde 2001, o BNDES desembolsou, apenas para a indústria sucroenergética, mais de R$ 55 bilhões. Em comunicado divulgado na semana passada, o banco revelou que os desembolsos totais nos primeiros oito meses de 2015 (R$ 85 bilhões) cairam 25% em relação à 2014, já as aprovações de empréstimos (R$ 64 bilhões) tiveram queda de 45%.
Ao mesmo tempo, o gerente não ignora que o setor continua enfrentando dificuldades, no entanto, sugere que a solução passe por outras instâncias. “É natural que exista uma ansiedade e uma crença de que o BNDES possa, por si só, resolver essas questões, mas é uma visão que ignora o fato de que mais endividamento nem sempre é a solução”.
Yabe apresenta ainda mais um argumento em defesa da presença do banco na cadeia de etanol. “O setor sucroenergético dispõe de um programa de capital de giro e um programa de financiamento a custeio. Eu acho que é muito difícil você encontrar uma indústria que tenha dois programas que trabalhem com financiamentos que são excepcionais ao banco”, completa.
Por ‘excepcionais’, o gerente quer dizer que tanto o ProRenova quanto a linha de estocagem não fazem parte da principal prioridade do banco, definida por ele, como “apoio a investimentos em ampliação da capacidade produtiva”.
Renata Bossle – NovaCana
Com colaboração de Jorge Mariano