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Canaviais do futuro estarão nas mãos de produtores grandes, independentes e especializados

Tempestade no canavialA chegada das multinacionais e o processo de mecanização deve dar início à uma transformação no modelo de produção de cana-de-açúcar
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Muitos estão apostando numa mudança gradativa do plantio de cana, cada vez mais concentrado nas mãos de produtores independentes que tem nos canaviais sua única preocupação.

Confira a seguir o que pensam algumas das empresas e entidades envolvidas com o mercado de cana-de-açúcar.

Especialização. Para quem trabalha na área, esta é uma das palavras que definem o futuro da produção de cana. Por isso muitos estão apostando numa mudança gradativa do plantio de cana, cada vez mais concentrado nas mãos de produtores independentes que tem nos canaviais sua única preocupação.

"Não conhecemos nenhuma indústria que tem o mesmo modelo que o setor sucroenergético, no qual a empresa atuante controla todas as fases da fabricação, da matéria-prima, transformação, comercialização e entrega", diz Fábio Rezende Barboza, diretor superintendente da NovAmerica, empresa que trabalha com operações de fornecimento de cana.

Barboza acredita que este modelo já está em transformação e que isso pode fazer com que a participação dos produtores independentes no cultivo de cana cresça para 50% até 70%. "Uma transição completa para toda a cana estar em mãos do fornecedor não é possível e nem viável, por enquanto. Uma transição lenta é possível, mas é preciso que exista disposição, confiança e crédito para tanto", explica.

A partir desta transição, cada parte se especializaria num processo específico da indústria sucroenergética, podendo investir em infraestrutura e pesquisas voltadas exclusivamente para o cultivo da cana ou para a moagem e a fabricação de açúcar e etanol.

"Para a usina, a vantagem é, sobretudo, de capacidade de investimentos e retorno ao acionista", afirma o diretor de operações agrícolas da Agroterenas, João Guilherme Iglezias. O presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canaoeste) e da Organização dos Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana), Manoel Ortolan, detalha: "A produção de cana, para a usina, é cara, por toda a estrutura que ela tem que ter, de oficinas, escritórios, pessoal, abastecimento".

Para os fornecedores, a oportunidade é de crescimento, o que permite mais investimento tanto na própria plantação de cana, quanto nas culturas de rotação, as quais, segundo Ortolan, também dão um bom retorno. Além disso, produtores mais especializados e melhor equipados podem prestar serviços a outros produtores e a usinas. "Se o produtor tem recursos, ele pode investir numa unidade de corte [para fazer a colheita dele e a de vizinhos]", exemplifica o presidente da Orplana.

Para ele, quem também se beneficia com isso é a comunidade: "Se é a usina que faz tudo, o dinheiro fica todo na mão dela. Se são os produtores, a região é remunerada também".

Contudo, de acordo com representante da Agroterenas, para funcionar devidamente, com compartilhamento de riscos e oportunidades, o modelo depende que os produtores tenham acesso a crédito diferenciado e tecnologia. Além disso, o preço da cana não pode ficar estagnado. "É crucial que o sistema de precificação da cana esteja em constante evolução para que não haja distorções neste relacionamento [entre usinas e fornecedores]", alerta Iglezias.

Grandes produtores

Este modelo de produção de cana "do futuro" acabará sendo marcado pela presença de grandes produtores. "É uma implicação natural", diz Manoel Ortolan, "Com a soja foi assim, com o milho foi assim, com o algodão foi assim. A mecanização exige escala".

O ex-presidente da Unica, Marcos Jank, também é um dos que apostam na transição para este modelo, seguindo o mesmo caminho do setor brasileiro de soja e milho. "[Daqui a algum tempo] nós vamos ter grandes produtores de cana que vão trabalhar, em terras próprias ou arrendadas, em parceria com as usinas" informou.

Além disso, a chegada das multinacionais provocou uma concentração de propriedades, já que elas adquiriram várias unidades e, quando dependem de fornecedores, optam pelos maiores, os quais já estão mais bem estruturados.

Nas regiões em que a atuação do setor é mais recente, a indústria já tem essa característica de produção em propriedades maiores, porém, onde o cultivo de cana é antigo, esta transição tem causado dificuldade para os pequenos produtores. "Pequeno produtor querer viver de 30, 40 hectares de cana, vai ser difícil", lamenta Ortolan. "Vai ficar na cana a área que pode ser mecanizada e as pequenas propriedades serão juntadas para viabilizar a mecanização", continua.

Modelo de transição

Uma solução seria organizar os produtores em pequenas empresas, mas o presidente da Orplana considera isso difícil pela quantidade de pessoas envolvidas. Segundo ele, porém, a movimentação que já se tem visto é de produtores vendendo terras para comprar outras maiores em lugares diferentes; produtores arrendando terras; e usinas arrendando terras para produtores que querem crescem.

"Quando a dificuldade chega, a gente começa a buscar alternativas. Então, está na hora dos produtores, associações e cooperativas buscarem alternativas", alerta.

Mesmo com a transição já em curso – e com o alerta–, o crescimento das propriedades de cana não deve ser desenfreado, porque esbarra em algumas questões de produtividade. "Não acreditamos que operações agrícolas acima de 20 milhões de toneladas de cana possam ter uma excelência agrícola em produtividade", afirma Fábio Barboza, da NovAmerica. Para ele, a cana é uma operação complexa que exige cuidados 24 horas por dia, já que tanto solo, quanto clima e características da região influenciam na produtividade. Uma enorme plantação de cana pode não receber o cuidado necessário por ser tão grande.

Além disso, a cana deve ficar próxima às usinas, o que limita, de certa forma, sua área de cultivo, mesmo que o crescimento das usinas tenham possibilitado um incremento nesta área.

"Como as usinas ampliaram a capacidade de moagem e os veículos de transporte têm mais capacidade, o raio [a que o cultivo de cana deve se restringir] vai ampliando. Hoje, a cana estar a 40km ou 50 km da usina já é quase que tão normal quanto era estar a 20 km há alguns anos", explica Ortolan.

Vivian Faria – NovaCana
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