Postos de combustíveis

Postos de combustíveis

Canadense Couche-Tard negocia compra de fatia da Ipiranga com grupo Ultra

Empresa é uma das maiores redes de postos de gasolina e lojas de conveniência do mundo


Agência Estado - Publicado: 06 Jul 2026 - 11:32

A Ultrapar negocia uma fatia da Ipiranga com o grupo canadense Alimentation Couche-Tard, uma das maiores redes globais de postos de gasolina e lojas de conveniência, com mais de 27 mil pontos no mundo, de acordo com fontes.

O grupo canadense opera em 27 países, alguns da América Latina como México, Honduras e Guatemala, mas ainda não tem presença na América do Sul. Por isso, a Ipiranga seria a porta para uma eventual entrada no Brasil e na região. No ano fiscal de 2026, a companhia teve receitas totais de US$ 76 bilhões e lucro bruto de US$ 14,5 bilhões.

A Couche-Tard tem um histórico de crescer por meio de aquisições. A Circle K, uma de suas principais marcas de postos de combustíveis e lojas, foi comprada no início dos anos 2000. No ano passado, o grupo tentou comprar a gigante de lojas conveniência 7-Eleven, com uma oferta de mais de US$ 40 bilhões, mas acabou retirando a proposta.

A América Latina vem sendo mencionada pela companhia como uma região de forte interesse. “A América Latina e o Sudeste Asiático continuam sendo mercados altamente atraentes para expansão”, afirma o grupo canadense no balanço de 2026.

Marca tem peso grande no resultado

A venda de fatia da Ipiranga está dentro de uma decisão do grupo Ultra de alocar seu capital de forma vantajosa, sem abrir mão do controle de uma empresa relevante para sua geração de caixa.

A Ipiranga representa mais da metade do grupo, com R$ 1,6 bilhão de Ebitda ajustado (lucro antes dos juros, impostos e amortizações) no primeiro trimestre de 2026, frente a R$ 2,3 bilhões do grupo Ultra como um todo. Na B3, a Ultrapar vale hoje cerca de R$ 30 bilhões.

O grupo canadense é assessorado nas conversas pelo Deutsche Bank e está mais avançado nas conversas para uma eventual aquisição. A negociação vem acontecendo há alguns meses e atraiu outros interessados. As conversas, no entanto, ainda não chegaram a uma fase decisiva e podem não evoluir, como já aconteceu com outras interessadas.

A americana Chevron chegou a olhar a Ipiranga mais de perto, para comprar uma fatia minoritária, mas não avançou nas conversas. A companhia tinha a vantagem de já ser sócia da Ultra na Iconic, que opera com lubrificantes, mas as conversas acabaram não chegando a um acordo, de acordo com as fontes.

A brasileira Vibra também olhou o ativo, com o interesse de comprar 100% do negócio, mas não chegou a se engajar nas negociações, em meio a preocupações de encontrar restrições no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Fontes afirmam ainda que uma venda de 100% não seria a intenção do grupo Ultra.

Outra companhia que considerou a compra foi Saudi Aramco, uma das maiores empresas de petróleo do mundo, mas as conversas também não evoluíram.

Setor tem desafios

O setor de distribuição de combustíveis no Brasil é atrativo e tem evoluído, segundo as empresas do setor, no combate à ilegalidade, o que melhora condições competitivas de companhias como a Ipiranga: listadas em bolsa e que cumprem a legislação.

Operações como a Carbono Oculto são citadas por executivos do setor para exemplificar esse processo de melhor fiscalização. No entanto, ainda há desafios, o que torna uma negociação de compra no setor mais complexa, de acordo com interlocutores.

A área distribuição cresce pouco, além de ter um nível de informalidade alto no Brasil, o que abre espaço para atuação do crime organizado. É ainda um setor pouco atrativo para novos entrantes, por lidar com combustíveis fósseis. Existem, por exemplo, limitações para a participação de alguns fundos especializados em comprar empresas (private equities).

Por isso, no mundo, seriam menos de 10 grandes companhias com apetite para o negócio de distribuição de combustível no Brasil, observa uma fonte.

Procurado, o grupo Ultra não comentou e afirmou que “sempre que há informações relevantes, comunica o mercado, conforme regulamentação aplicável”. A Couche-Tard afirmou que não comenta rumores de mercado. O Deutsche Bank não comentou.

Altamiro Silva Junior, Cynthia Decloedt, Talita Nascimento e Gabriel Baldocchi