Há duas semanas, o açúcar cristal passou a remunerar 1,9% mais no mercado internacional do que internamente
Apesar das incertezas quanto a retomada dos preços do açúcar no mercado internacional, a alta do dólar deve favorecer as exportações brasileiras do produto — pelo menos até que o mercado comece a se ajustar —, avaliaram especialistas consultados pelo portal NovaCana.
Segundo dados do Cepea, da Esalq/USP, há duas semanas, o açúcar cristal passou a remunerar 1,9% mais no mercado internacional do que internamente. Os dados levam em consideração não apenas a taxa de câmbio, mas também o prêmio pago ao açúcar cristal no mercado doméstico.
O portal NovaCana ouviu a opinião de profissionais do Bradesco BBI, FCStone, Archer Consulting e do Cepea, da Esalq/USP sobre as perspectivas para o mercado.
Embora a retomada dos preços do açúcar no mercado internacional pareça distante, a alta do dólar poderá favorecer as exportações brasileiras do produto no curto prazo, avaliaram especialistas consultados pelo portal NovaCana.
Segundo dados do Cepea, da Esalq/USP, há duas semanas, o açúcar cristal passou a remunerar 1,9% mais no mercado internacional do que internamente. Os dados levam em consideração não apenas a taxa de câmbio, mas também o prêmio pago ao açúcar cristal no mercado doméstico.
“Nos últimos quatro, cinco meses, o açúcar cristal remunerava mais internamente do que no mercado externo. Se esta tendência de valorização do dólar frente ao real permanecer – hoje os analistas estimam a cotação da moeda americana entre R$ 3 e R$3,20 – teremos um escoamento de açúcar expressivo”, disse, por telefone, de Piracicaba (SP), a professora da Esalq/USP e pesquisadora do Cepea, Heloisa Burnquist.
Mas nem todos estão otimistas. Na opinião de um analista do Bradesco BBI, a janela de exportações criada pelo câmbio apreciado é “marginal”, e deve ocorrer apenas no curto prazo.
“A alta do dólar cria uma janela de exportações no curto prazo, mas no médio, a tendência é que esta diferença [entre a remuneração do açúcar no mercado interno e externo] comece a se ajustar”, disse o analista, de São Paulo.
Em janeiro, o açúcar estava sendo negociado na bolsa de Nova York por 15 c/US$/libra, o equivalente a R$ 40. “O preço em reais praticamente não mudou, ficou na faixa de R$38-40”.
Cenários
Se o preço do açúcar na bolsa de Nova York alcançar a marca de 12,78 c/US$/libra, na “mínima do ano”, como previu o diretor da Archer Consulting, Arnaldo Luiz Corrêa, as usinas brasileiras poderão comercializar a saca de 50kg do produto a valores que variam entre R$ 36,80 e R$ 40,89, a depender da cotação do dólar e sem contar os prêmios pagos para a commodity.
Num cenário de melhores cotações em c/US$/libra, o preço pago às usinas brasileiras pode oscilar entre R$ 39,72 e R$ 44,13, com a commodity negociada a 13.79 c/US$/libra, e entre R$ 46,08 e R$ 51,20, caso as vendas externas do adoçante na Ice Futures sejam feitas a partir de 16 c/US$/libra, como estimou, recentemente, o Rabobank, para os contratos futuros de outubro e dezembro.
Apesar dos prognósticos baixistas para o açúcar, o diretor da Archer Consulting aponta uma possível “virada” nos preços do adoçante, que mesmo com as baixas cotações em NY, ainda estão mais atrativos do que em 2013.
“Estamos efetivamente longe dos preços mais baixos, ou seja, os preços estão mais construtivos, ainda que vivamos uma turbulência”, disse Corrêa.
Segundo o executivo, em 2013, a média dos fechamentos em Nova York, convertida em reais, foi de R$ 864 por tonelada. A média de 2014 foi de R$ 880 por tonelada, enquanto que a média de 2015, até agora, é de R$ 920 por tonelada.
“O mercado pode ser explosivo no segundo semestre se algumas etapas forem cumpridas. Discutir sobre essas viradas, a propósito dos sólidos fundamentos do mercado (que sempre falam mais alto), são atividades que deveriam ser constantes na vida dos traders. As oportunidades geralmente surgem de onde menos se espera e no momento exato que todo mundo está olhando para outra direção”, argumentou.
Estoque valorizado
Embora os estoques globais do açúcar continuem elevados, pressionando para baixo as cotações do açúcar na bolsa de Nova York, as usinas brasileiras não contam, no momento, com um grande volume físico do produto disponível para venda imediata.
Por isso, “quem estocou açúcar poderá se beneficiar disso”, segundo o analista de açúcar da FCStone do Brasil, João Paulo Botelho. No entanto, a vantagem pode ser instável.
“A questão hoje é que a exportação é muito benéfica em função dos prêmios positivos pagos no porto de Santos, o que nem sempre acontece. Se muitas empresas entrarem vendendo, estes preços caem rapidamente. As que estão exportando, estão procurando se beneficiar com o câmbio apreciado, apostando que o açúcar vai subir um pouco dos níveis atuais, que estão baixos. É um jogo arriscado. Mas acredito que se possa lucrar com isso”, considerou.
Leonardo Siqueira – NovaCana