Calculadora do Renovabio é a ferramenta que será a responsável pelo processo de avaliação ambiental e certificação das usinas de etanol e de outros combustíveis renováveis contemplados pelo programa
As informações sobre como vai funcionar o RenovaBio chegam em doses homeopáticas para o setor. A cada nova notícia ou declaração, peça a peça, as usinas de etanol e também de outros biocombustíveis tentam montar o cenário que espera o segmento quando todo o quebra-cabeça do programa estiver completo.
Inclusive, já virou lugar-comum dizer que, até agora, pouco se sabe sobre o funcionamento da iniciativa na prática, o que aumenta ainda mais as expectativas sobre o que o programa representará.
As mais recentes novidades são a respeito da calculadora do Renovabio, ferramenta que será a responsável pelo processo de avaliação ambiental e certificação das usinas de etanol e de outros combustíveis renováveis contemplados pelo programa.
A calculadora está sendo desenvolvida nesse momento por uma força-tarefa envolvendo profissionais de várias instituições. Para o etanol, ela já estaria “praticamente pronta, passando apenas por alguns ajustes”, de acordo com a equipe de trabalho, enquanto as ferramentas para os demais combustíveis ainda estão em processo de desenvolvimento.
Confira a seguir o que já se sabe sobre a avaliação que as usinas passarão para a certificação no RenovaBio.
As informações sobre como vai funcionar o RenovaBio chegam em doses homeopáticas para o setor. A cada nova notícia ou declaração, peça a peça, as usinas de etanol e também de outros biocombustíveis tentam montar o cenário que espera o segmento quando todo o quebra-cabeça do programa estiver completo.
Inclusive, já virou lugar-comum dizer que, até agora, pouco se sabe sobre o funcionamento da iniciativa na prática, o que aumenta ainda mais as expectativas sobre o que o programa representará.
As mais recentes novidades são a respeito da calculadora do Renovabio, ferramenta que será a responsável pelo processo de avaliação ambiental e certificação das usinas de etanol e de outros combustíveis renováveis contemplados pelo programa. A nota definida por essa calculadora gerará uma espécie de ‘ranking de sustentabilidade’ para os biocombustíveis, servindo para calcular os créditos de descarbonização (CDBios), anteriormente chamados de Certificados de Redução de Emissões (CREs).
Avaliação de sustentabilidade a caminho
Para compreender a calculadora de emissões do Renovabio é preciso recordar que as diretrizes do programa – criado para auxiliar nas metas brasileiras de redução de emissões de gases de efeito estufa – enraízam-se no estímulo ao aumento da participação dos biocombustíveis na matriz energética do país. O empurrão na produção virá por meio de mandatos de redução de carbono ao combustível comercializado pelas distribuidoras.
Para cumprir esses mandatos, as distribuidoras terão que adquirir CDBios emitidos por usinas de etanol, biodiesel e biogás. A quantidade de CDBios virá da multiplicação do volume de combustível produzido pela usina com a nota obtida pelo processo de certificação.
É essa nota que é dada usando a calculadora. A partir do resultado obtido, as usinas receberão uma nota proporcional a sua capacidade de menor emissão de carbono durante todo o ciclo de vida do combustível: quanto maior sua eficiência, mais alta será a nota. A avaliação final das unidades também determina a emissão dos créditos relativos aos CDBios.
Dessa forma, as unidades melhor classificadas poderão receber prêmio por seu desempenho. Aquelas que ingressarem no programa e apresentarem um biocombustível de perfil mais sustentável terão mais CDBios e uma consequente vantagem mercadológica, pois representarão um caminho mais direto para que as distribuidoras consigam cumprir os mandatos de redução de carbono no combustível vendido por elas.
Critérios já conhecidos
Dessa forma, o processo de obtenção da classificação envolve um protocolo de avaliação de desempenho juntamente com a documentação que comprove os indicadores fornecidos. A avaliação será dada por uma empresa certificadora e será diferente para cada unidade.
“Tudo isso vai se traduzir em um protocolo para as organizações que fazem as certificações e verificações. Provavelmente, aquelas certificadoras que já atuam com o setor farão uma pequena adaptação, mas não terão grande dificuldade de atuar nesse novo processo”, assinala a pesquisadora da Embrapa, Marília Folegatti Matsuura.
“[A calculadora] está sendo feita em um formato que corresponde ao contexto do Renovabio, com a simplicidade que o Ministério [de Minas e Energia] nos demandou para estimular uma grande adesão desde o início”, Marília Folegatti Matsuura (Embrapa)
Segundo Marília, vários outros protocolos que tratam da questão de emissões de gases do efeito estufa já controlam os parâmetros que serão avaliados nas usinas no âmbito do RenovaBio. Assim, é possível concluir que, no contexto do Renovabio, saem na frente as unidades de produção que já passam por algum processo de certificação.
“Além de estarem organizados para oferecer a informação, muito provavelmente elas já devem estar assumindo algumas práticas conservacionistas que vão resultar em números melhores”, relata Marília.
Ela também destaca que é importante que as usinas se estimulem a compilar essas informações. “Aquelas que já trabalham com mecanismos similares têm esse conhecimento. Para aqueles que não [possuem certificações internacionais], vai existir esse esforço inicial, que é recompensador”.
O pesquisador do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), Otavio Cavallet, segue a mesma linha ao acrescentar que a calculadora não deve gerar nenhuma apreensão no setor, pois ela não representaria surpresas ou novidades em relação ao que já é discutido nos protocolos internacionais de carbono. “Apesar de [a calculadora] estar sendo construída do zero e ser pensada para a realidade brasileira”, pontua.
Ainda assim, de acordo com ele, um aspecto que tem que receber atenção dos produtores é a ampliação dos canaviais. “A partir de 2018, a expansão de cana não pode ser em áreas de floresta ou alto estoque de carbono. Não é nenhuma novidade, não é uma afirmação polêmica”, aponta Cavallet. Outro ponto, segundo o pesquisador, é começar a ter a documentação do uso de diesel e fertilizantes nitrogenados, que terão forte impacto nos cálculos: “Se a usina tem a oportunidade de monitorar com medições diretas essas questões de estoques de carbono, isso auxilia demais”.
Calculadora “praticamente pronta”
A calculadora está sendo desenvolvida nesse momento por uma força-tarefa envolvendo profissionais da Embrapa, Unicamp, CTBE e UFSCAR – em comunicação com o governo e as entidades representativas do setor. A calculadora para o etanol já estaria “praticamente pronta, passando apenas por alguns ajustes”, de acordo com a equipe de trabalho, enquanto as ferramentas para os demais combustíveis ainda estão em processo de desenvolvimento.
Segundo informações obtidas pelo NovaCana, a calculadora do RenovaBio leva em conta a metodologia de Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) e analisa os impactos ambientais contabilizando material e energia consumidos e emitidos no processo produtivo, durante todo o ciclo de vida: do campo à roda. O objetivo é, justamente, balizar as usinas por seu desempenho ambiental, ou seja, sua eficiência na redução de carbono.
De acordo com Marília, foram listados um conjunto de parâmetros técnicos da fase agrícola e industrial, que serão solicitados para o produtor de biocombustível. “Todo processamento de cálculo embutido na calculadora não é editável. O produtor de biocombustível apenas informa seus próprios indicadores. É possível que a pessoa entenda o cálculo que está sendo feito, mas não é possível que ela altere os parâmetros de cálculo. O único valor alterável é o que se refere ao processo produtivo”, explica.
Entre os parâmetros que farão parte do processamento dos dados estão o consumo de nitrogênio de fertilizantes sintéticos, o consumo de diesel e outros combustíveis, o recolhimento de resíduos agrícolas, a área queimada, o rendimento industrial, a utilização de enzimas, a cogeração de energia elétrica, entre outros (ver infográfico abaixo).

Melhoria contínua
Outro aspecto do programa é que a nota recebida pelas usinas não é definitiva, de modo que as companhias poderão fazer atualizações conforme melhorem seus processos. O objetivo é que isso promova um constante estímulo para que não haja estagnação ou acomodação por parte das unidades que estão no topo do ranking.
Nesse sentido, a equipe de trabalho assinala que a calculadora também sofrerá processos de melhoria contínua. “No início, o nível de detalhe não vai ser tão grande, justamente para facilitar o começo do processo. Conforme o tempo for passando, a ferramenta vai ficar mais sofisticada em termos de dados e todos os produtores serão capazes de informar com melhor qualidade seus próprios dados”, destaca o professor Joaquim Seabra, da Unicamp.
Para ele, ao disponibilizar a calculadora, o RenovaBio irá estimular que as usinas do setor consigam utilizar a ferramenta de forma proativa, determinando seu desempenho em relação à emissão de gases do efeito estufa. “Na ferramenta, a forma como o cálculo será feito estará aberta, o que permite que cada unidade faça suas avaliações de sensibilidade. A própria usina pode identificar quais parâmetros são mais relevantes para seu desempenho global”, afirma.
Ele pondera que, no caso do etanol brasileiro – que tem como base uma cultura semiperene –, certas melhorias, principalmente na parte agrícola, não serão imediatas. “Vai levar um tempo até isso ser efetivamente concretizado e refletir em uma melhor performance em termos de emissões de gases de efeito estufa”, explica.
Seabra ainda aponta que, a princípio, todas as rotas previstas na calculadora do Renovabio refletem a situação nacional, com a devida exceção daquelas que são exclusivamente para o produto importado.
“Esse é um desafio para o grupo de trabalho do Renovabio: criar uma ferramenta que seja capaz de trabalhar de forma eficiente com todas as possibilidades de rotas de biocombustíveis que a gente tem no país”, Joaquim Seabra (Unicamp)
Assim, o maior desafio, segundo o pesquisador, é criar uma ferramenta que funcione de forma “mais ou menos semelhante” para todos os biocombustíveis. “É muito difícil você trabalhar no nível de detalhe e especificidade de cada biocombustível. Será um pouco padronizado e alguns detalhes não farão sentido de serem trabalhados no curto prazo, mas isso deve facilitar a comunicação com todos os setores”.
Mais do que gerar a necessidade de aprender a “lidar com a calculadora”, assegura o pesquisador, a maior exigência para o produtor fazer parte do programa será conhecer o seu sistema de produção. “E, por incrível que pareça, quando estamos falando de uma abordagem de ciclo de vida, apesar do sistema de produção ser obviamente conduzido pelo produtor, nem todos conhecem os detalhes”, salienta.
Debate sobre o RenovaBio em São Paulo
O RenovaBio e os critérios para obtenção dos CDBios fazem parte das discussões do NovaCana Ethanol Conference, evento que acontece em São Paulo (SP) nos dias 25 e 26 de setembro.
Marina Gallucci – NovaCana
