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Busca por dinheiro: Setor sucroenergético vive tendência de mudanças nas fontes de financiamento

dinheiro 201017As constantes quedas nos valores financiados pelo BNDES ao setor sucroenergético não abrem espaço para dúvidas: as usinas estão mudando suas fontes de financiamento

NovaCana 7 min de leitura

As constantes quedas nos valores financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao setor sucroenergético não abrem espaço para dúvidas: as usinas estão mudando suas fontes de financiamento.

Segundo o gerente sênior de relacionamento do Rabobank, Manoel Pereira de Queiroz, fontes públicas de financiamento devem se tornar cada vez mais escassas devido à realidade econômica do país e à necessidade de redução da dívida pública: “Ou seja, o setor vai ter que aprender a se financiar dependendo muito menos de dinheiro público”.

Como alternativa a isso, ele enumera empréstimos em moeda nacional com instituições privadas, a entrada no mercado de capitais e até mesmo empréstimos em moedas estrangeiras. “A taxa de juros em real ainda está bastante cara, mas existe uma tendência de queda. E, nesse ponto, a gente entende que as operações em reais devem subir”, relata.

A reportagem a seguir desenvolve como a relação do setor sucroenergético com o mercado de crédito.

E mais:

- Consequências da concentração da oferta de crédito no mercado nacional 
- Abertura do mercado a empréstimos em moeda estrangeira
- Mercado de capitais: debêntures, bonds, CRAs e CRIs
- Necessidades de investimentos das empresas sucroenergéticas

As constantes quedas nos valores financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao setor sucroenergético não abrem espaço para dúvidas: as usinas estão mudando suas fontes de financiamento.

Segundo o gerente sênior de relacionamento do Rabobank, Manoel Pereira de Queiroz, fontes públicas de financiamento devem se tornar cada vez mais escassas devido à realidade econômica do país e à necessidade de redução da dívida pública: “Ou seja, o setor vai ter que aprender a se financiar dependendo muito menos de dinheiro público”.

Como alternativa a isso, ele enumera empréstimos em moeda nacional com instituições privadas, a entrada no mercado de capitais e até mesmo empréstimos em moedas estrangeiras. “A taxa de juros em real ainda está bastante cara, mas existe uma tendência de queda. E, nesse ponto, a gente entende que as operações em reais devem subir”, relata.

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Concentração de crédito

De acordo com o sócio da consultoria FG/A, William Orzari Hernandes, o Brasil vive um cenário restritivo de crédito, fazendo com que as companhias com problemas financeiros tenham ainda mais dificuldades para levantarem recursos. Esse cenário fica mais complicado em um mercado concentrado para a concessão de financiamentos.

“Não é necessariamente ruim que [esse mercado] seja concentrado, porque a tese é que os bancos grandes conseguem mais competitividade para oferecer crédito de maneira mais barata e longa”, pondera, e continua: “Mas você acaba tendo que lidar, basicamente, com cinco, seis instituições financeiras, que têm suas teses de crédito e suas próprias condições do ponto de vista de modelos de negócios”.

Segundo ele, no Brasil, apenas 5% dos fundos de investimento são distribuídos por corretoras ou agentes não bancários, enquanto os Estados Unidos vivem uma situação inversa, com os bancos representando 2% desse mercado.

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Hernandes ainda observa que, à medida em que o BNDES passa a oferecer taxas mais próximas ao restante do mercado, outros players mundiais fomentadores de investimentos começam a se interessar pelo Brasil.

“Vemos também um lado positivo com essas outras instituições provendo mais créditos, como o IFC financiando uma empresa do setor”, relata, referindo-se ao International Finance Corporation (IFC), braço de investimentos privados do Banco Mundial, que anunciou contratos com a CerradinhoBio e com a São Martinho. “Com o tempo, aparecerão outras instituições olhando o Brasil como um player que tem muito a crescer em infraestrutura de agronegócio, e acabarão ocupando o espaço que o BNDES teve nos últimos anos”, completa.

Mercado de capitais

Além disso, um dos caminhos mais procurados pelas empresas sucroenergéticas em busca de recursos é a entrada no mercado de capitais. De acordo com o sócio da FG/A, esse mercado é atualmente focado em debêntures, que correspondem a valores entre 80% e 90% do total negociado.

Mas a emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) tem ganhado espaço. “Pela primeira vez, as emissões primárias de CRA foram superiores às de CRI [imobiliários] nos primeiros nove meses do ano. Isso, naturalmente, dá um espaço para que o investidor passe a entender melhor o crédito e acabe tendo mais apetite para observar empresas do setor de agronegócio”, comenta.

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O diretor associado da Fitch Ratings, Cláudio Miori, no entanto, lembra que as condições para emissão de CRAs ainda são bastante restritivas e que muitas companhias do setor sucroenergético não teriam condições de entrar nesse mercado. Hernandes concorda: “O mercado está aberto para todo mundo? Não. O mercado está aberto para quem conseguir chegar em um determinado patamar e ter resultados ao menos melhores que a média setorial”.

Além disso, Pereira de Queiroz faz duas ressalvas a essa opção. “A primeira delas é se as empresas estão preparadas ou vão se preparar suficientemente em termos de governança para poderem acessar esse mercado. A segunda é se o próprio mercado de capitais do Brasil vai evoluir a ponto de as pessoas físicas começarem a comprar títulos de dívida de empresas de agronegócio”, enumera.

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Ambas as questões estão relacionadas com a capacidade de absorção desse mercado. Para exemplificar esse quadro, o gerente relembra as emissões de bonds do setor sucroenergético. “Algumas usinas emitiram bonds aqui no Brasil e, depois, entraram em uma situação financeira complicada. Isso praticamente ‘queimou’ o setor de açúcar e álcool lá fora”, relata e confirma: “Sempre tem esse risco pairando sobre esse tipo de operação”.

Inclusive, especificamente sobre o mercado de bonds, Cláudio Miori acredita que ele está ‘fechado’ para o setor sucroenergético brasileiro. A exceção seria para as empresas com rating internacional na categoria BB ou acima. Ou seja, das quatro empresas sucroenergéticas com rating internacional público, apenas a Raízen teria condições de emitir bonds com sucesso.

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Necessidade de investimento

Conforme Queiroz, do Rabobank, a demanda por crédito do setor sucroenergético envolve três elementos principais: renovação do canavial, tratos culturais e manutenção industrial durante a entressafra. “Só com esses três pontos, sem levar em consideração nenhum investimento adicional ou de expansão, a demanda anual do setor por investimentos recorrentes é de cerca de R$ 21 bilhões por ano”, aponta.

Já de acordo com o gerente sênior de Agronegócios do Itaú BBA, Guilherme Pessini Carvalho, as 57 usinas que fazem parte dos acompanhamentos periódicos do banco necessitariam investir R$ 11 bilhões nos canaviais todos os anos apenas para manterem suas atividades – um valor que implica em nenhuma perspectiva de crescimento.

Contudo, Pessini aponta que foram investidos apenas R$ 8,5 bilhões na safra 2015/16 – um montante 22,7% abaixo do delineado. Além disso, a maior parte desse valor (R$ 6,5 bilhões) ficou concentrada nas empresas com melhores condições econômicas. Ou seja, enquanto um grupo de empresas investe o suficiente para crescer, outras estão longe de atingir sequer o índice mínimo recomendado.

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“Teve uma redução no nível de renovação dos canaviais e dos investimentos? Teve. Mas a questão é: para quem?”, provoca, e continua: “Tem segmentos do setor que seguem investindo normalmente, aumentando produtividade e gerando um gap cada vez maior entre as companhias que estão bem estruturadas e tem uma estrutura de capital adequada e os que entraram em dificuldades no caminho”.

Já com relação às companhias que estão fazendo investimentos com o objetivo de crescer, Manoel Pereira de Queiroz aponta que as alternativas mais comuns têm sido os investimentos em cogeração de eletricidade, aumento da capacidade de moagem, irrigação, melhoria da flexibilidade produtiva, ampliação da capacidade de produção de açúcar e na fabricação de etanol.

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