Açúcar: Mercado

Açúcar: Mercado

Bunge vê luz no fim do túnel para a indústria de açúcar do Brasil


Bloomberg - Publicado: 01 Fev 2016 - 09:40

A indústria brasileira de açúcar está chegando a um ponto de virada, conforme a escassez mundial leva a preços mais estáveis, em um momento em que a depreciação do real reduz os custos de produção. A avaliação é da Bunge, empresa que possui oito usinas no país.

O Brasil, maior produtor do mundo, terá de aumentar a produção na próxima década para atender à crescente demanda, afirmou o diretor-executivo da empresa, Soren Schroder, na Dubai Sugar Conference, um evento privado para 400 líderes dessa indústria. Os déficits de abastecimento global previstos para este ano e o próximo vão resultar na estabilização dos preços, disse ele.

Os contratos futuros de açúcar negociados em Nova York subiram 5% no ano passado, após quatro anos de declínio. Em 2015, o produto teve o terceiro melhor desempenho no índice Standard & Poor de 24 matérias-primas. A queda de mais de 30% do real está impulsionando os ganhos para os usineiros que vendem a mercadoria em dólar, além de reduzir os custos de um pico atingido em 2011, disse Schroder.

"Acreditamos que a moagem de cana-de-açúcar brasileira e também a indústria do etanol estão em um ponto de virada, que chegamos ao fundo", afirmou o CEO da Bunge, que movimenta cerca de 6,5 milhões de toneladas por ano em sua divisão de açúcar e bioenergia. "Há luz no fim do túnel."

Déficit no abastecimento

Os estoques globais de açúcar ficarão abaixo da demanda em 5 milhões de toneladas na temporada iniciada em 1 de outubro, de acordo com a Bunge. Outro déficit de 2 milhões de toneladas é esperado para o ano seguinte. O Brasil terá de processar mais cana para atender a demanda de açúcar que a Bunge acredita que aumentará em 48 milhões de toneladas na próxima década, além do consumo doméstico de etanol ¬ para o qual a empresa prevê um crescimento de 40%.

O contrato futuro do açúcar bruto caiu 14% este ano, para US$ 0,1314 por libra no pregão da ICE na sexta-feira.

O real desvalorizado diminuiu os custos das usinas em US$ 0,08 a US$ 0,10 por libra em relação ao pico de 2011 e fez o Brasil se tornar mais uma vez o produtor mais barato, disse Schroder. Com a crise política e econômica no Brasil, o real teve o segundo pior desempenho do ano passado em uma cesta de 24 moedas de mercados emergentes monitoradas pela Bloomberg.

"A combinação da moeda e maior eficiência coloca o Brasil de volta no mapa de uma forma muito sólida", disse o executivo.

Fardo da dívida

Mesmo assim, o real depreciado significa que a dívida dos usineiros "atravessou o telhado", já que mais de 50% dos empréstimos são tomados em dólares, continuou Schroder. Ele citou um estudo realizado em março de 2015, com 65 grupos no Centro Sul (maior região produtora de açúcar do Brasil), mostrando que o endividamento líquido tinha aumentado 23% na comparação anual.

Vários anos de preços baixos e dificuldades financeiras fizeram 47 usinas fechar nos últimos três a quatro anos, o que reduziu a capacidade de processamento, disse ele. Enquanto o mercado global precisa que o Brasil atenda à demanda, o país provavelmente não será capaz de atrair investimentos para aumentar a capacidade de processamento de cana rápido o suficiente, disse o executivo.

A indústria de açúcar do Brasil vai precisar de preços mais estáveis para atrair investimentos. A cotação tem de estar entre US$ 0,14 e US$ 0,16 por libra para criar um incentivo à expansão das usinas existentes, e acima dessa faixa para estimular novos projetos. Schroder se recusou a comentar se a Bunge ainda planeja vender seus ativos no país.

Embora o real mais baixo tenha dado "uma pequena folga" aos usineiros brasileiros, ainda existe espaço para melhorar a eficiência no país, de acordo com a Bunge.

"A política no Brasil no momento está muito complicada, mas um dia isso vai ser resolvido", disse Schroder. "Como é que vamos competir nesse momento? Isso é o que temos que pensar. Temos que pensar em uma maneira de assegurar a viabilidade a longo prazo”.