Os resultados do estudo global conduzido pela Fondazione Maire – ETS, em parceria com a Ipsos, oferecem uma lente relevante para analisar a posição do Brasil na transição energética. A pesquisa, que ouviu mais de 2,3 mil pessoas em 14 países, mostrou que a percepção pública sobre o tema varia significativamente entre as nações.
A Índia lidera em consciência declarada sobre transição energética (63%) e em percepção de comprometimento com estratégias de descarbonização (71%), enquanto países como Argentina e Cazaquistão registram índices mais baixos.
Embora o Brasil não apareça no estudo, os dados dialogam com a realidade nacional. O país combina uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo com desafios importantes em engajamento social, previsibilidade regulatória e qualificação profissional, elementos centrais apontados pelo próprio estudo como determinantes para o sucesso da agenda climática.
De acordo com o Balanço Energético Nacional 2025, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cerca de 88,2% da matriz elétrica brasileira em 2024 foi composta por fontes renováveis. No consumo total de energia, que inclui transporte e indústria, as renováveis representam aproximadamente metade da oferta interna. No setor residencial, o índice de renovabilidade chega a 71,8%, enquanto a indústria opera com mais de 64% de energia proveniente de fontes limpas.
Os números colocam o Brasil em posição diferenciada no cenário internacional. “O Brasil já parte de uma base muito sólida. Temos uma matriz elétrica predominantemente renovável, o que nos dá vantagem competitiva relevante na corrida global pela descarbonização”, afirma o CEO da NewSun Energy Group, Fernando Berteli. “Mas liderança estrutural não garante liderança futura. É preciso avançar em tecnologia, integração do sistema e desenvolvimento de pessoas”.
A dimensão humana é justamente um dos pontos enfatizados pelo estudo da Ipsos. A pesquisa indica que a transição energética não depende apenas de infraestrutura ou metas climáticas, mas também da formação de competências técnicas e comportamentais capazes de sustentar a transformação. No Brasil, esse aspecto ganha contornos econômicos concretos.
Projeções da Schneider Electric em parceria com a consultoria Systemiq apontam que o país pode gerar até 760 mil novos empregos na cadeia da bioenergia até 2030. O potencial de expansão é significativo, mas exige qualificação acelerada de profissionais para atuar em geração renovável, digitalização da rede, armazenamento e novas tecnologias de baixo carbono.
“A transição energética é, ao mesmo tempo, uma agenda ambiental e motor de aceleração para o desenvolvimento econômico”, afirma o diretor de novos negócios da NewSun, Gian Albertin. “Se o Brasil conseguir formar profissionais qualificados na velocidade da expansão do setor, poderá capturar investimentos, ampliar sua competitividade e gerar empregos de alto valor agregado”.
Outro ponto de convergência entre o estudo global e a realidade brasileira é o descompasso entre consciência e adoção prática.
O levantamento “ESG Trends 2025” indica que cerca de 76% dos brasileiros consideram importante o uso de energia renovável, mas apenas aproximadamente 26% declaram utilizá-la efetivamente. O dado revela que o apoio conceitual à agenda climática ainda não se traduz integralmente em comportamento econômico ou decisão de consumo.
Para Berteli, essa diferença entre percepção e prática é decisiva. “O desafio agora não é convencer sobre a importância da transição energética. A maioria já reconhece isso. O desafio é criar condições econômicas, regulatórias e tecnológicas para que essa consciência se transforme em ação concreta”, afirma.
A expansão de fontes intermitentes, como solar e eólica, também impõe novos desafios ao sistema elétrico brasileiro, exigindo modernização da infraestrutura, soluções de armazenamento e maior digitalização. Nesse contexto, previsibilidade regulatória e coordenação entre setor público e privado se tornam fatores críticos para atrair capital de longo prazo.
O estudo da Ipsos sugere que países que alinham percepção pública, compromisso institucional e desenvolvimento de competências tendem a acelerar suas estratégias de descarbonização. No caso brasileiro, a vantagem comparativa já estaria estabelecida na composição da matriz elétrica.
A consolidação do protagonismo, porém, deve depender da capacidade de transformar a estrutura em estratégia, convertendo consciência ambiental em decisões econômicas, ampliando a formação de capital humano e garantindo estabilidade para investimentos.
Em 2024, o Brasil registrou uma produção recorde de 36,83 bilhões de litros de etanol, marcando um crescimento de cerca de 4,4% sobre o ano anterior. O volume inclui um aumento substancial na produção a partir do milho, que cresceu quase 33% em relação a 2023, apesar da dominância da cana-de-açúcar como principal matéria-prima.
Esse dinamismo produtivo também se traduz em impacto econômico e no mercado de trabalho. Uma pesquisa da Agência Internacional para as Energias Renováveis (Irena) para a COP30 mostrou que, em 2024, o setor de bioenergia ligado à cana-de-açúcar empregou mais de 750 mil pessoas no Brasil, das quais aproximadamente 378 mil estão diretamente ligadas à produção de etanol, englobando colheita e processamento da matéria-prima.
Além disso, as projeções apontam para um aumento de mais de 100% dos postos de trabalho na área até 2030. Dessa forma, a busca por profissionais qualificados se torna ainda mais latente no setor.
“O Brasil será referência global em energia limpa”, conclui Gian Albertin. “Mas isso exige visão de longo prazo e execução disciplinada. No fim do dia, transição energética é menos sobre discurso e mais sobre capacidade de realização”.