Produção de combustível do país estará no limiar da autossuficiência em vários momentos durante a próxima década, mas tendência ainda é de importação
Nos próximos anos, o setor de transportes do Brasil deve depender cada vez mais do etanol, especialmente à medida que a gasolina perde importância na demanda de combustível dos veículos leves.
Segundo um documento liberado pelo governo, o etanol terá um expressivo aumento, com um crescimento anual de 7,2% no consumo de hidratado. Por outro lado, a elevação no consumo de anidro não será tão acelerada – justamente por estar atrelada ao consumo de gasolina.
Com isso, a oferta interna deve ter uma ligeira queda – indo de 76 para 74 milhões de litros diários entre 2016 e 2026. Mesmo assim, os volumes importados do combustível fóssil devem cair ao longo do período, chegando até mesmo a haver possíveis excedentes de 2022 a 2024. “O balanço entre a oferta e a demanda de gasolina A sinaliza períodos em que o País atuará no limiar da autossuficiência ou como importador deste derivado”, estima o documento.
Saiba mais:
- Projeções para oferta e demanda de gasolina entre 2016 e 2026
- Perspectivas para o consumo de etanol anidro e hidratado
- Importação e exportação de gasolina
- Cenários alternativos na demanda de gasolina
- Mudanças no parque de refino nacional
Nos próximos anos, o setor de transportes do Brasil deve depender cada vez mais do etanol, especialmente à medida que a gasolina perde importância na demanda de combustível dos veículos leves. Essa é a previsão divulgada no Plano Decenal de Energia (PDE), publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), e que traz projeções até 2026.
Segundo o documento, o etanol terá um expressivo aumento, com um crescimento anual de 7,2% no consumo de hidratado. O cenário, ainda de conforme a EPE, depende de um aumento nos investimentos no setor, motivados pelos sinais positivos provenientes de políticas públicas e programas como o RenovaBio.
Por outro lado, a elevação no consumo de anidro não será tão acelerada – justamente por estar atrelada ao consumo de gasolina. A expectativa é que, em 2026, sejam produzidos 31 bilhões de litros de hidratado e 12 bilhões de litros de anidro. Considerando que a produção de anidro foi de 11 bilhões de litros em 2016, a perspectiva é quase de estabilidade para o período.

Especificamente com relação à gasolina, a EPE acredita que a oferta interna deve ter uma ligeira queda – indo de 76 para 74 milhões de litros diários entre 2016 e 2026. Mesmo assim, os volumes importados do combustível fóssil devem cair ao longo do período, chegando até mesmo a haver possíveis excedentes de 2022 a 2024. “O balanço entre a oferta e a demanda de gasolina A sinaliza períodos em que o País atuará no limiar da autossuficiência ou como importador deste derivado”, estima o documento.

Dessa forma, o maior volume previsto para a importação de gasolina serão os 10,6 milhões de litros diários previstos para este ano. Esse montante, inclusive, é superior ao máximo histórico de 10,4 milhões de litros por dia, registrado em 2012.
Com essa retração na demanda por gasolina ao longo do período, o volume adicional na produção de etanol anidro passa a ser destinado à exportação. A quantidade de biocombustível a ser levada para fora do país, ainda assim, é pequena, segundo a EPE. A projeção é que ela vá de 2 para 3 bilhões de litros entre 2016 e 2026.
“Estima-se um crescimento marginal das exportações brasileiras, devido à manutenção das tendências protecionistas dos mercados, adiamento das metas de usos de biocombustíveis em diversos países, adoção de tecnologias mais eficientes e preocupação com a independência energética”, complementa.
Espaço para aumento de produção
Ao observar não apenas a gasolina, mas a demanda por outros derivados de petróleo, a EPE acredita que há espaço de mercado para a construção de novas refinarias até 2026 – ainda que existam poucos investimentos projetados para o período.
O estudo espera que, em 2018, entre em operação a Unidade de Abatimento de Emissões (SNOX) na Refinaria Abreu e Lima (RNEST); em 2021, a Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) do Comperj; e, em 2023, o 2º trem da RNEST, em Ipojuca (PE). Contudo, nenhum desses incrementos deve afetar a produção de gasolina.
“Cabe destacar que a refinaria do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí (RJ), não foi considerada no horizonte deste estudo em função da reavaliação estratégica deste projeto e da atual restrição de recursos financeiros da Petrobras”, acrescenta a EPE.
Com isso, considerando todos os derivados de petróleo, a capacidade nominal de refino no país atingirá 400 mil m³/dia em 2026, um aumento modesto em comparação com a capacidade atual de 370 mil m³/dia.
Cenários otimista e pessimista
Ainda que considere o cenário de ligeira queda na demanda de gasolina como sendo o mais provável, a EPE estudou as possibilidades de crescimento no consumo do combustível fóssil e, também, de uma redução mais ampla.
“Caso haja um aumento da demanda de combustíveis do Ciclo Otto ou uma redução da oferta de etanol hidratado, o Brasil poderia voltar a importar maiores volumes de gasolina A, ou, alternativamente, produzir mais desse combustível”, descreve. Dentro desse cenário, além da possibilidade de importar mais gasolina, o país precisaria utilizar a capacidade ociosa de seus parques de refino, redirecionando parte do petróleo destinado à nafta petroquímica para o incremento da produção de gasolina. Entretanto, a EPE não apresenta números para esse cenário.
Em contrapartida, em um cenário de maior redução da demanda de gasolina A, com uma queda no licenciamento de veículos leves, o Brasil poderia se tornar exportador de gasolina a partir de 2020. Dentro dessa perspectiva, a EPE projeta uma redução de 24% na demanda em 2026, que iria de 78 para 59 milhões de litros por dia.

“O Brasil migraria da condição de importador líquido de 4 mil m³/dia para exportador líquido, em um patamar de 14 mil m³/dia”, calcula a EPE, que completa: “Este nível de exportação em 2026 representaria aproximadamente 20% do volume da produção nacional de gasolina A em 2016”.
Renata Bossle – NovaCana