Os bonds em dólar da Raízen dispararam com a divulgação de documentos relacionados às negociações de seu plano de reestruturação extrajudicial, enquanto a companhia acelera esforços para fechar um acordo com os credores.
Os documentos compartilhados com grupos de credores incluem projeções futuras e termos de reestruturação que ainda estão sujeitos a negociações e aprovações pendentes, segundo fato relevante divulgado no fim da quarta-feira, 27. As informações não representam guidance oficial da companhia e nenhum acordo formal foi alcançado, diz o documento.
Os bonds em dólar da Raízen avançaram em toda a curva na quinta-feira, superando pares regionais, com os títulos com vencimento em 2032 – alguns dos mais líquidos – subindo mais de US$ 0,04, segundo dados da Trace. As ações da companhia chegaram a cair mais de 21%.
Os detalhes do plano surgem em meio ao agravamento da crise financeira da Raízen e à busca da companhia por apoio dos credores para viabilizar sua reestruturação.
Em março, a empresa entrou com um pedido de reestruturação extrajudicial para renegociar uma dívida de R$ 65 bilhões, acumulada após apostas malsucedidas nos mercados de etanol e combustível de aviação, além do impacto dos juros elevados e de safras mais fracas do que o esperado.
Na semana passada, a Raízen já estava avançando com um plano de reestruturação da dívida apesar das objeções dos bondholders e a empresa calculava ter apoio suficiente de credores bancários e investidores locais para obter maioria, segundo reportagem da Bloomberg News.
Desde então, os detentores de bonds voltaram à mesa de negociações, à medida que as partes tentam concluir um acordo, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Os bonds da Raízen despencaram nos últimos meses, depois que a empresa passou a conduzir o processo de reestruturação e sofreu rebaixamentos de múltiplos níveis por agências de classificação de risco.
“Muitos de nós ficamos chocados nos últimos anos com reestruturações problemáticas no Brasil e, por isso, esperávamos o pior – projeções de fluxo de caixa apocalípticas que mostrariam incapacidade de pagar a dívida”, disse o estrategista sênior de mercados emergentes da Mariva Capital Markets, Roger Horn.
“Em vez disso, o plano parece razoável, e as propostas de reestruturação provavelmente não estão tão distantes do que muitos bondholders buscam”, acrescentou.
A Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, propôs três opções de pagamento para os credores, segundo os documentos. A principal alternativa converteria 45% da dívida em participação acionária e os 55% restantes em nova dívida.
Os termos mais amplos da reestruturação incluem um aporte de capital de R$ 3,5 bilhões da Shell, um possível investimento adicional de R$ 500 milhões de um veículo controlado pela Aguassanta Investimentos, além da emissão de ações ordinárias.
Outros termos preveem a divisão da companhia em duas unidades: Raízen Energia e Raízen Combustíveis.
Ainda, a proposta de governança da Raízen manteria a atual administração durante a reestruturação, ao mesmo tempo em que daria aos credores supervisão significativa por meio de um responsável pela assessoria aos credores na reestruturação, e de um comitê de credores de cinco membros, com direitos de aprovação sobre a documentação prevista no plano final de recuperação extrajudicial.
Quanto ao conselho de administração, composto por sete membros, quatro seriam indicados pelos credores após a reestruturação, incluindo o presidente do conselho, enquanto a Shell e os demais acionistas contribuintes indicariam três membros. Certas decisões relevantes exigiriam aprovação de ao menos um membro do conselho indicado pela Shell.

A companhia afirmou ainda que avança com um processo de desinvestimento. A assinatura de um acordo para venda de ativos de combustíveis na Argentina “é esperada para os próximos meses”, e a empresa informou que mantém conversas com múltiplos interessados sobre a venda de usinas de cana-de-açúcar com capacidade de moagem entre 10 milhões e 15 milhões de toneladas.
A Raízen registrou consumo de caixa total de R$ 3,3 bilhões nos dois primeiros meses de 2026, segundo os documentos. O resultado já exclui as operações na Argentina.
Os termos propostos também incluem a extensão do contrato de licenciamento da marca Shell, com pagamentos trimestrais de royalties durante a vigência das licenças.
Giovanna Belotti Azevedo, Dayanne Sousa, Rachel Gamarski e Cristiane Lucchesi