As vitrines do E2G — que no Brasil são três, GranBio, Raízen e Abengoa — são peça-chave para o futuro
Os principais envolvidos com o etanol celulósico no Brasil estão concentrando seus esforços na tentativa de superar o que talvez seja a fase mais delicada da vida deste biocombustível.
Na semana passada o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) reuniu uma nata de profissionais que possuem interesse direto na segunda geração do etanol. O seminário “Avaliação do potencial competitivo do etanol de segunda geração (2G) no Brasil” reuniu empresários, usineiros, pesquisadores, entidades representativas dos setores sucroenergético e biotecnológico e emissários do governo.
O encontro revelou que a participação direta do governo é imperiosa para a viabilidade futura desse biocombustível.
Se antes o grande desafio era atrair investidores e obter recursos para aplicar na produção comercial de biocombustível a partir da biomassa — entendido como “coisa de laboratório” há pouco anos atrás — a questão agora é como criar um ambiente propício à manutenção dessas iniciativas e atração de novos apostadores.
Ou seja, as vitrines do E2G — que no Brasil são três, GranBio, Raízen e Abengoa — são peça-chave para o futuro.
Veja a seguir um resumo do encontro, os principais pontos apresentados, como estes profissionais veem o futuro do etanol celulósico e imagens do evento.
Veja também reportagem complementar:
Ministério propõe políticas para deixar etanol celulósico competitivo no curto prazo
Os principais envolvidos com o etanol celulósico no Brasil estão concentrando seus esforços na tentativa de superar o que talvez seja a fase mais delicada da vida deste biocombustível.
Na semana passada o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) reuniu uma nata de profissionais que possuem interesse direto na segunda geração do etanol. O seminário “Avaliação do potencial competitivo do etanol de segunda geração (2G) no Brasil” reuniu empresários, usineiros, pesquisadores, entidades representativas dos setores sucroenergético e biotecnológico e emissários do governo.
Com foco na apresentação dos principais resultados do estudo - que dá título ao seminário e será disponibilizado nos próximos dias – o encontro revelou que a participação direta do governo é imperiosa para a viabilidade futura desse biocombustível.
Se antes o grande desafio era atrair investidores e obter recursos para aplicar na produção comercial de biocombustível a partir da biomassa – entendido como “coisa de laboratório” há pouco mais de três anos – a questão agora é como criar um ambiente propício à manutenção dessas iniciativas e atração de novos apostadores.
Ou seja, as vitrines do E2G — que no Brasil são três, GranBio, Raízen e Abengoa — são peça-chave para o futuro.
Veja a seguir um resumo do encontro, os principais pontos apresentados e como estes profissionais veem o futuro do etanol celulósico.
Fase inicial
Para fomentar um setor em crise a apostar em um combustível que ainda aparecia apenas como realidade teórica, o BNDES lançou junto com a Finep, em 2011, o Plano de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS). A linha viabilizou três plantas comerciais, duas já em operação – GranBio e Raízen – e uma em construção, da Abengoa, além de outros investimentos para desenvolvimento de novas tecnologias.
Depois, em 2013, o banco lançou o PAISS Agrícola, voltado para o desenvolvimento de soluções e tecnologias para os canaviais. Agora, o BNDES sugere que é hora de abrir outras vias para o crescimento dessa indústria e o estudo oferece as bases para isso.
“Esses dois instrumentos [Paiss 1 e 2] apoiam diretamente o P&D, mas a gente acredita que é insuficiente. Atingimos um estágio de evolução da tecnologia, com plantas pioneiras entrando em operação que tornam necessárias uma série de novas medidas complementares, que possam fomentar, pavimentar o terreno para que o etanol celulósico caminhe com as próprias pernas, em direção da sua sustentabilidade financeira e tecnológica”, afirmou o economista do Departamento de Biocombustíveis do banco, Diego Nyko.
O estudo liderado pelo BNDES – que conta com uma complexa análise do CTBE - Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol e a participação de mais 30 empresas – é um trabalho inédito no Brasil e deve servir para referenciar a tomada de decisão tanto na iniciativa privada como dentro do próprio governo. Até então, praticamente toda a informação disponível sobre a produção do E2G vinha do exterior, baseada em realidades de produção bastante diferentes da brasileira e com o uso de outras matérias-primas que não a biomassa da cana-de-açúcar.
Novas políticas
Um dos painelistas do evento, o analista de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Luciano Cunha de Sousa não se furtou a apontar qual deve ser o papel do governo: “Quando falamos em inovação no mercado de energia, estamos falando do envolvimento do governo. Ou de uma agência reguladora, ou legislação, ou um conjunto de coisas. Dificilmente há inovação sem ter o governo interagindo”.
O analista do Mdic apresentou diversas sugestões de políticas públicas para a promoção do E2G, no entanto, ressalvou que não necessariamente as ideias encontram respaldo dentro do governo, principalmente do que tange à concessão de subsídios. “Quando falo isso [sobre subsídios] lá no ministério, o pessoal já quer me bater antes de eu dizer a segunda palavra", exagerou. E prossegiu: "Mas, na nossa análise, isso é uma coisa fácil [de realizar]”.
Alan Hiltner, vice-presidente da GranBio, a pioneira do E2G no Brasil, foi enfático sobre a visão de quem está tentando produzir em escala. “O problema não está no médio prazo, nem no longo prazo. Mas o médio e o longo prazo só chegam se a gente atravessar o curto prazo”, comentou a plateia do evento. Por isso pediu “políticas públicas para atravessar o curto prazo" e, fez questão de pontuar, "sem onerar o contribuinte”.
Nas últimas semanas a Gran Investimentos, holding da família Gradin que controla a GranBio, recorreu ao mercado para captar R$ 200 milhões em sua primeira emissão de debêntures. Esta captação veio na sequência de outra, de R$ 80 milhões, da Bioflex, usina da GranBio.
Recentemente, a empresa revelou que tem enfrentado problemas com a operação inicial de sua unidade em Alagoas, inaugurada em setembro. A Raízen também contou ter passado por dificuldades em sua planta de etanol celulósico, anexa à Usina Costa Pinto, em Piracicaba (SP).
Os envolvidos entendem que as barreiras são naturais para os pioneiros. As plantas de etanol 2G que existem no país e no mundo, dão ainda seus primeiros passos. De acordo com essa perspectiva, o ineditismo das iniciativas demanda um período de aprendizado um pouco mais longo que o de setores tradicionais. O analista do Mdic, inclusive saiu em defesa da fábrica da GranBio, que visitou há pouco tempo.
“Aquilo é uma planta nova, que está usando uma matéria-prima nova e aquele alimentador do pré-tratamento não foi feito para aquilo ou foi desenvolvido teoricamente e não havia sido testado em larga escala. Tem problema? Não. Isso é normal no desenvolvimento da tecnologia. Preciso ter escala para reduzir o custo porque quem fez aquele equipamento, deve ter feito uma super especificação para não dar problema, mas se fizer mais meia dúzia, vai ver que pode diminuir um monte de coisa, pode usar material diferente e isso vai diminuir custo”, disse Souza.
Futuro ameaçado?
O mais recente projeto de nova unidade para a produção de etanol foi aprovado pelo BNDES no final de 2014, para a construção de uma usina 2G da Abengoa no interior de São Paulo e, por enquanto, o banco não tem perspectiva de novas instalações para 2015 e 2016.
Ao mesmo tempo, no Brasil e no mundo, diversas iniciativas relacionadas ao biocombustível avançado estão revendo seus planos de futuro, reduzindo expectativas ou prorrogando metas.
Isso significa que o futuro do etanol celulósico no país pode estar ameaçado, caso não sejam criados novos mecanismos de estímulo? O gerente do Departamento de Biocombustíveis do BNDES, Artur Yabe, afirma categoricamente que não.
“O etanol 2G não vai ficar parado se não houver outros incentivos. O etanol 2G conseguiu, com apenas um programa [o Paiss], implantar três plantas. Os Estados Unidos levou uma década para chegar ao mesmo resultado, no mesmo ano”, argumenta.
No entanto, Yabe pondera que a alta competitividade prevista para E2G não vai deslanchar rapidamente sem novas medidas. “Isso não vai ocorrer espontaneamente, vai ocorrer na velocidade em que houver estímulos para isso”.
Frente ao que considera "o esgotamento da rota tecnológica de primeira geração", o BNDES vê o etanol celulósico como principal possibilidade para o suprimento do gap existente entre oferta e demanda de combustíveis de ciclo Otto. A instituição considera que a lacuna prevista para chegar a 11 bilhões de litros de gasolina equivalente em 2024, poderia ser atendida com 29 bilhões de litros a mais do renovável.
Para atender à necessidade futura, seria preciso o equivalente a 97 novas usinas de primeira geração, com 4,8 milhões de hectares de cana-de-açúcar cultivados. No entanto, a aproveitamento da parcela celulósica da cana poderia reduzir o número de unidades greenfields para 58 e a área plantada agregada para 2,9 milhões de hectares.
No melhor dos cenários, com o uso da tecnologia celulósica e o cultivo de cana-energia - variedade com alta produção de biomassa - o número de unidades necessárias cairia para 35 e apenas 1,8 milhão de hectares novos.
É esta última possibilidade a encampada pelo banco. “O queremos deixar claro com o artigo, é que, em vista desse potencial tão promissor, seria oportuna a adoção de políticas públicas propícias a esta indústria”, defende Artur Yabe.
Quando questionado sobre o aparente descompasso entre a visão do banco – o maior investidor do E2G no Brasil – e a do governo, o executivo do BNDES afirma que tal distanciamento inexiste. “Não dá pra criar essa separação, o banco não é independente do governo federal, somos parte integrante”.
Porém, no passado, outras instâncias do poder federal já demonstraram ceticismo quando ao desenvolvimento do etanol celulósico. No final de 2013, a despeito de investimentos em larga escala já terem sido anunciados, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão subordinado ao Ministério de Minas e Energia, projetou que o país só teria uma produção de "volumes modestos" de E2G após 2022.
Na semana passada o MME deu indícios de uma mudança de perspectiva. Pela primeira vez o governo admitiu o problema de abastecimento futuro dos motores de ciclo Otto em uma apresentação do ministro Eduardo Braga. Na nova visão do MME o desenvolvimento comercial do etanol 2G aparece, junto com a construção de novas usinas, como uma das áreas que prometem mais atenção dentro do governo.
Embora o servidor do BNDES, Artur Yabe, rejeite a leitura de que o momento atual esteja mais propício às discussões oficiais sobre o E2G que no passado, ele traz notícias sobre um diálogo que até então era desconhecido, se não inexistente.
As pastas relacionadas ao biocombustível já conhecem o estudo liderado pelo banco e já existe um diálogo preliminar sobre medidas auxiliares. “Conversamos com todos os ministérios envolvidos, todos eles tem conhecimento do trabalho, isso já foi apresentado algumas vezes em Brasília e, no final do ano passado, o Conselho Nacional de Política Energética aprovou uma recomendação do Mdic para que se estudasse medidas de estímulo para o etanol 2G, até que ele se torne competitivo”.
Estímulo à decisão de investimento
Além do contribuição técnica e científica, o trabalho acumula o mérito de sensibilizar simultaneamente atores que geralmente têm perspectivas bastantes distintas, o governo e o setor de etanol.
Para Hiltner, da GranBio, o estudo do BNDES conseguiu trazer uma qualidade de informação que vai possibilitar uma negociação com o governo em bases reais, sem comprometer a estratégia das empresas.
"Pra todos nós que estamos envolvidos com a produção de celulósicos, existe uma necessária confidencialidade de informações, por isso, para qualquer empresa isoladamente, levar uma conta para o governo para [discutir] a formulação de políticas exigiria um 'disclosure' que até contratualmente com os parceiros seria difícil", explica.
O estudo deve subsidiar também decisões de investimento no setor privado. O banco aposta que um novo ciclo de investimento do E2G fomentará a criação de uma indústria de base, o que aceleraria a competitividade do segmento.
“O estudo vai gerar uma referência para indústria, agora as usinas tem um modelo no qual elas podem se basear, podem fazer alterações, simulações. As usinas tem melhor condições de entender o que os fornecedores tem a oferecer para ela. Tudo isso deve acelerar a decisão de investimento”, comentou o gerente do Departamento de Biocombustíveis.
"Havendo um novo ciclo de investimento, acreditamos que cadeia de produção possa se estabelecer. Isso vai reduzir custos de equipamentos, vai criar um mercado maior, com novas possibilidades. Com isso se cria um 'ciclo virtuoso' de investimentos e estabelecimento da cadeia produtiva de etanol 2G", diz Yabe.
Enquanto mantém financiamento disponível para novas plantas, o banco trava discussões com Brasília. “Estamos esperançosos de que algo possa ser feito”, finaliza o executivo do BNDES.
Amanda SchArr – NovaCana
Texto complementar sobre o evento do BNDES:
Ministério propõe políticas para deixar etanol celulósico competitivo no curto prazo

