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Para BNDES, setor sucroenergético passa por transição e novo paradigma deve se formar

bndes-rio-251016O BNDES apresenta sua visão sobre o desenvolvimento do mercado sucroenergético e sugere como o dinheiro do banco pode chegar na mão das usinas: não será fazendo o mesmo de sempre

NovaCana 9 min de leitura

Os problemas políticos e econômicos que marcaram os últimos dois anos tiveram seu impacto nos números apresentados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre o setor sucroenergético. Segundo o gerente do departamento de biocombustíveis do BNDES, Artur Yabe, a perspectiva é que, neste ano, os financiamentos aprovados cheguem a R$ 1,5 bilhão – um número 26% inferior aos R$ 2,04 bilhões do ano passado.

Ainda assim, o valor projetado implica em um adicional de R$ 900 milhões em aprovações até o final do ano. Ou seja, apesar das quedas nos números anuais, o sentimento do banco é de otimismo.

Ainda é cedo para se falar em patamares de investimento similares aos de 2010, mas o momento mais crítico já faria parte do passado. O raciocínio é derivado de uma análise do índice de alavancagem, que mede o risco financeiro das companhias.

Na reportagem a seguir:
- Perspectivas para o último trimestre de 2016
- Mudanças no ProRenova
- Gargalos do etanol celulósico e como as soluções estão aparecendo
- Tecnologias para o campo e como o BNDES visualiza o futuro do setor
- Investimentos na indústria

Os problemas políticos e econômicos que marcaram os últimos dois anos tiveram seu impacto nos números apresentados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre o setor sucroenergético. Segundo o gerente do departamento de biocombustíveis do BNDES, Artur Yabe, a perspectiva é que, neste ano, os financiamentos aprovados cheguem a R$ 1,5 bilhão – um número 26% inferior aos R$ 2,04 bilhões do ano passado.

Ainda assim, o valor projetado implica em um adicional de R$ 900 milhões até dezembro. “Essa perspectiva de aumento para o final do ano é um indicador de que o setor está pouco a pouco retomando o interesse por investimentos”, avalia o gerente, que ainda não tem uma estimativa para 2017.

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O montante, contudo, difere dos desembolsos realizados pelo banco, uma vez que um financiamento, após aprovado, pode demorar até três anos para se concretizar. Ainda de acordo com Yabe, o desembolso em 2015 foi de R$ 2,74 bilhões e, até o final de setembro, chegou a R$ 1,5 bilhão. Para todo o ano de 2016, a expectativa é que sejam desembolsados R$ 2 bilhões.

“Eu gosto de pensar que o setor já passou pelo momento mais crítico”, Artur Yabe (BNDES)

Apesar das quedas nos números anuais, o sentimento ainda é de otimismo. “O setor vai passar por uma fase de crescimento mais tímidos, principalmente por meio de expansão de capacidade, aumento de produção de açúcar e de anidro. Somente após essa fase menos intensa é que voltaremos a ver investimentos em novas usinas e em greenfield”, projeta Yabe.

Segundo ele, ainda é cedo para se falar em patamares de investimento similares aos de 2010, mas o momento mais crítico já faria parte do passado. O raciocínio é derivado de uma análise do índice de alavancagem, que mede o risco financeiro das companhias. Conforme Yabe, embora muitas usinas ainda estejam bastante alavancadas, isso vem se reduzindo e, pouco a pouco, abre espaço para novos investimentos.

“A indústria está passando por um momento de transição, porém, com um viés positivo de recuperações. O banco quer apoiar projetos que mudem o paradigma dentro da indústria e viabilizem uma maior produtividade”, Artur Yabe (BNDES)

ProRenova: renovação com atualização tecnológica

No 1º semestre de 2016, foram aprovados R$ 126,12 milhões em financiamentos por meio do ProRenova, dedicado à renovação dos canaviais. Esse foi o menor valor para o período desde a criação do programa.

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Ainda assim, o número não abala Yabe, que relembra que a edição de 2016 do programa foi lançada apenas em maio. Dessa forma, a maior parte dos números atribuídos ao período seriam de operações do ProRenova 2015.

“A edição de 2016 ainda está em vigor e vai até o final do ano”, afirma e completa: “Normalmente, as usinas submetem os pleitos no último trimestre do ano”.

Apesar do desempenho baixo até aqui e das críticas que o BNDES tem recebido sobre as condições dos financiamentos, sobre o ProRenova, Yabe acredita que é cedo para avaliar a atual edição. Ainda assim, ele acredita que as condições são boas, tanto de prazo quanto de taxa de juros, e que a demanda será atendida.

Yabe também comenta uma mudança importante no programa, que passou a ter um enfoque não apenas relacionado com a renovação do canavial, mas com o plantio de variedades protegidas de cana-de-açúcar. O gerente explica que, uma vez desenvolvida e lançada no mercado, uma nova variedade recebe um registro do Ministério da Agricultura, que protege seus direitos de uso – de forma similar a uma patente – durante o período de 15 anos.

Atualmente, segundo dados do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), quase 70% da área de cana-de-açúcar cultivada no Brasil se utiliza de variedades de domínio público, ou seja, que já existem a mais de 15 anos. “É por isso que o banco vai usar o ProRenova como um instrumento para fomentar a substituição de variedades de domínio público por variedades protegidas”, alega Yabe.

Segundo ele, as novas variedades apresentam melhor potencial agronômico e trazem uma maior capacidade de aumento de produtividade. Isso acontece porque elas estariam mais adaptadas às regiões de fronteira da cana e à mecanização.

“O ProRenova já cumpriu o papel de redução da idade média do canavial, que voltou a patamares mais saudáveis. O programa auxilia, hoje, tanto na questão de atualização tecnológica do canavial quanto de renovação”, Artur Yabe (BNDES)

Etanol celulósico: desinteresse ou sob controle?

Além de abrir linhas de financiamento para a indústria e o campo, o BNDES também acrescentou o setor sucroenergético no BNDES Funtec, direcionado para instituições de ensino e pesquisa. Isso aconteceu em fevereiro, pela inclusão do etanol de segunda geração entre as temáticas do programa. Entretanto, nenhum projeto foi aprovado até o momento.

“Existem alguns projetos que estão sendo discutidos. Nós já recebemos consultas informais, mas ainda não recebemos nenhuma proposta concreta. Até o final do ano tem a última janela do programa e estamos no aguardo”, afirma Artur Yabe.

De acordo com o gerente, a ausência de projetos não significa necessariamente um desinteresse. Ele explica que as iniciativas da GranBio, do CTC e da Raízen têm seus próprios canais e instrumentos para buscar soluções para os desafios da tecnologia, especialmente do pré-tratamento de biomassa.

“Há uma disponibilidade de recursos e, caso apareça alguma iniciativa, o banco está disposto a olhar. Porém, não aparecer nenhum projeto indica que as empresas têm conseguido, por outros caminhos, resolver os gargalos tecnológicos”, resume.

Ele ainda complementa que o BNDES continua a tratar o etanol de segunda geração como uma área prioritária. Nesse caso, ele pondera que o banco possui uma visão de longo prazo, entendendo que ainda existem desafios a serem superados – uma posição idêntica à que ele havia expressado em novembro do ano passado.

Segundo Yabe, as plantas pioneiras – tanto da GranBio quanto da Raízen – estão em seu último estágio de desenvolvimento tecnológico. Ele não aponta uma data para o funcionamento pleno dessas unidades, mas afirma que o BNDES entende que investimento em inovação possuem um longo prazo de maturação. “Continuamos acreditando que as iniciativas vão buscar soluções para os gargalos que hoje dificultam a operação contínua dessas plantas”, completa.

“Eu acredito que, uma vez superados os gargalos, o Brasil certamente sairá na frente, pois temos a biomassa mais competitiva”, Artur Yabe (BNDES)

Além disso, o gerente aponta que diversas empresas que detém tecnologia de etanol celulósico estão buscando parceiros no Brasil, seja para entrarem no país ou para fazerem investimentos. Entretanto, ainda não estaria claro quem está na frente na corrida pela produção em larga escala e pelos preços competitivos.

“É difícil fazer essa comparação. Uma avaliação que utilizo é da consultoria Lux Research, que comparou o potencial de competitividade das diversas plantas pelo mundo. Pelos cálculos dessa consultoria, as plantas brasileiras são as mais competitivas”, afirma.

Yabe também não aponta datas. De acordo com ele, é preciso primeiro vencer os problemas encontrados para o escalonamento da produção, alcançando uma operação que funcione “de forma contínua e consistente”, valorizando a estabilidade. Ele ainda alfineta: “Não adianta nada a conseguir trabalhar um ou dois meses em capacidade total e novamente descontinuar a produção. O desafio é ter estabilidade no processo”.

Além do E2G: cadeia produtiva e outras tecnologias

Conforme o gerente, o BNDES está comprometido não apenas em estudar propostas para novas unidades de etanol celulósico, mas também outros investimentos na cadeia produtiva do etanol de segunda geração, como plantas de enzimas ou fábricas de equipamentos. O objetivo seria fomentar não apenas a produção, mas a cadeia produtiva como um todo.

“O banco continua apostando não só no etanol celulósico, mas em tecnologias estruturantes, ou seja, tecnologias que são capazes de alterar o paradigma tecnológico”, Artur Yabe (BNDES)

Outra possibilidade que interessa ao BNDES está na área de inovações agrícolas, especialmente a cana transgênica, a cana-energia e as sementes artificiais. Yabe, inclusive, ressalta a importância dessas tecnologias: “Esses três novos paradigmas tecnológicos, em conjunto, têm um potencial tão grande ou talvez até maior que o do etanol celulósico”.

O principal mérito é, claro, o ganho de produtividade no campo. De acordo com ele, a semente artificial de cana seria capaz de viabilizar o plantio de um hectare de cana com cerca de 50 kg de semente. Atualmente, para o mesmo hectare, seria necessário entre 10 a 12 toneladas de mudas de cana.

Expansão industrial no aguardo de cenário estável

Mas enquanto os pleitos para renovação dos canaviais ocorrem tradicionalmente nos últimos meses do ano, o mesmo não é necessariamente verdade quando se trata de projetos industriais. Ainda assim, Yabe aponta que os primeiros meses de 2016 foram marcados por um período de incerteza econômica e política. “É natural que as empresas aguardem um cenário mais estável para tomar decisões de investimento”, pondera.

“O que nos dá um pouco de esperança para o setor nos próximos meses e anos é essa retomada que estamos vendo agora, no final deste ano”, Artur Yabe (BNDES)

Além disso, ele afirma acreditar que os R$ 900 milhões potenciais para aprovação até dezembro sejam concentrados nos investimentos industriais. De acordo com o gerente, esse seria um comportamento natural para as companhias do setor, que costumam ter um Capex industrial mais intensivo em capital na comparação com o Capex agrícola.

Renata Bossle – NovaCana

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