Estagnação do setor sucroenergético envolve fatores que são mais profundos e específicos que o controle de preço da gasolina e a falta de previsibilidade das políticas públicasDurante um encontro promovido pelo Grupo de Economia da Energia (GEE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o gerente do Departamento de Biocombustíveis do BNDES, Artur Yabe Milanez, revelou como o banco avalia a crise vivida pelo setor e quais são os fatores que desencadearam e agravaram o cenário atual de estagnação.
Durante um encontro promovido pelo Grupo de Economia da Energia (GEE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o gerente do Departamento de Biocombustíveis do BNDES, Artur Yabe Milanez, revelou que a crise vivida pelo setor sucroenergético envolve fatores que vão muito além do controle de preço da gasolina.
A começar pela matéria-prima utilizada pelas usinas. De acordo com o gerente do banco, quando a primeira variedade de cana transgênica for liberada, o milho já deverá estar na 11ª geração geneticamente modificada. "A cana vai ser última cultura mundial importante a entrar na área de transgenia", afirmou.
Esse atraso na aplicação da engenharia genética à cana-de-açúcar é parte da explicação sobre os ganhos decrescentes de produtividade nos canaviais. Depois de um ciclo inédito de investimentos no setor sucroenergético, muito da competitividade e da atratividade econômica se perdeu. Milanez acredita que, apesar de uma série de problemas conjunturais, a estagnação dos ganhos de produtividades teve um grande impacto sobre a economia canavieira.
Há cerca de cinco anos foram quase R$ 100 bilhões de investimentos, sendo que o BNDES tem uma carteira de R$ 40 bilhões, ou seja, financiou quase metade desses investimentos que ocorreram na década passada. "Esse ciclo econômico desapareceu nos últimos três anos. Menos de dez unidades foram inauguradas no Brasil e mais de 70 fecharam, o ciclo econômico mudou completamente", comentou.
"Ainda que boa parte da resposta esteja na política inflacionária – e no consequente controle de alguns preços importantes de combustível no Brasil – existem fatores que vão além disso. Existem fatores estruturais mais importantes do que os conjunturais. Um exemplo da curva de produtividade agrícola é que, no início do Proálcool, o ATR, açúcar presente na cana, crescia mais de 30% em uma década. Há 20 anos talvez crescesse mais de 20% em uma década. Nessa década que passou não será possível crescer nem 10% em produtividade", afirmou.
Já na parte industrial, vulgarmente se considera que o aproveitamento é de apenas um sexto do potencial da planta. Isso porque se aproveita um terço do conteúdo energético da cana, que é o caldo, e a usina funciona seis meses no ano. "Só aí já tem um espaço tremendo de aumento de uso do ativo", defende. Ele sugere o uso de "variedades de cana mais precoces, que possibilitasse estender a safra de seis para nove meses. Ou se conseguisse outras matérias-primas, como a cana-energia, que pudesse complementar".
Em relação aos equipamentos, as demandas também são muito superiores se comparadas às culturas de grãos. Enquanto um hectare de soja é plantado com um saco de 40 quilos de semente, a mesma área de cana precisa de 15 a 18 mil quilos de mudas. Na colheita não é diferente: o hectare de soja resulta em três toneladas, o de cana 80 toneladas.
"Há um encarecimento do investimento em pesquisa para um mercado menor, então a cana não é prioridade para as grandes sementeiras e os grandes fabricantes de equipamentos, esta foi a nossa conclusão", disse Milanez, citando um estudo do banco.
É com base nesse diagnóstico que o banco, juntamente com a Finep, trabalha para a construção de uma nova edição do programa PAISS que, desta vez, seria direcionado às tecnologias agrícolas. Em 2011, já foi editada uma linha com foco na inovação industrial, o PAISS – Programa de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico.
Amanda SchArr – NovaCana
Durante um encontro promovido pelo Grupo de Economia da Energia (GEE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o gerente do Departamento de Biocombustíveis do BNDES, Artur Yabe Milanez, revelou que a crise vivida pelo setor sucroenergético envolve fatores que vão muito além do controle de preço da gasolina.
A começar pela matéria-prima utilizada pelas usinas. De acordo com o gerente do banco, quando a primeira variedade de cana transgênica for liberada, o milho já deverá estar na 11ª geração geneticamente modificada. "A cana vai ser última cultura mundial importante a entrar na área de transgenia", afirmou.
Esse atraso na aplicação da engenharia genética à cana-de-açúcar é parte da explicação sobre os ganhos decrescentes de produtividade nos canaviais. Depois de um ciclo inédito de investimentos no setor sucroenergético, muito da competitividade e da atratividade econômica se perdeu. Milanez acredita que, apesar de uma série de problemas conjunturais, a estagnação dos ganhos de produtividades teve um grande impacto sobre a economia canavieira.
Há cerca de cinco anos foram quase R$ 100 bilhões de investimentos, sendo que o BNDES tem uma carteira de R$ 40 bilhões, ou seja, financiou quase metade desses investimentos que ocorreram na década passada. "Esse ciclo econômico desapareceu nos últimos três anos. Menos de dez unidades foram inauguradas no Brasil e mais de 70 fecharam, o ciclo econômico mudou completamente", comentou.
"Ainda que boa parte da resposta esteja na política inflacionária – e no consequente controle de alguns preços importantes de combustível no Brasil – existem fatores que vão além disso. Existem fatores estruturais mais importantes do que os conjunturais. Um exemplo da curva de produtividade agrícola é que, no início do Proálcool, o ATR, açúcar presente na cana, crescia mais de 30% em uma década. Há 20 anos talvez crescesse mais de 20% em uma década. Nessa década que passou não será possível crescer nem 10% em produtividade", afirmou.
Já na parte industrial, vulgarmente se considera que o aproveitamento é de apenas um sexto do potencial da planta. Isso porque se aproveita um terço do conteúdo energético da cana, que é o caldo, e a usina funciona seis meses no ano. "Só aí já tem um espaço tremendo de aumento de uso do ativo", defende. Ele sugere o uso de "variedades de cana mais precoces, que possibilitasse estender a safra de seis para nove meses. Ou se conseguisse outras matérias-primas, como a cana-energia, que pudesse complementar".
"O Brasil está caro"
O problema é que, enquanto os acréscimos de produtividade encolheram, os custos mantiveram uma curva acelerada de crescimento. Milanez considera que o "Brasil está caro para produzir". Isso fica evidente no acompanhamento de custos de produção do setor feito pela Esalq/USP. "A conclusão é que só a mão-de-obra equivale a 15% do custo final do açúcar ou etanol. Dado o estresse de mão-de-obra que se tem hoje no Brasil, esse custo cresce 8% ao ano. Então, em uma conta simples, chegamos à conclusão que há um crescimento de custo de 1,2% ao ano, só com um fator de produção. Então, se a produtividade agrícola cresce a menos de 10% em uma década, a produtividade sequer paga os dissídios coletivos. Aí vamos entender porque ninguém mais investe em produção de cana no Brasil". Para o gerente do BNDES, ou o setor consegue saltos de produtividade ou o país terá de encarar um problema ainda mais sério de abastecimento de combustível.Como retomar a produtividade
O BNDES avalia que os investimentos em pesquisa e tecnologia nos últimos anos esteve aquém do necessário. Parte se justifica pela restrita representatividade da cana em termos globais. "Apesar da cana-de-açúcar ser muito importante para o Brasil – já é segunda fonte de energia primária, só atrás do petróleo e já à frente da fonte hídrica – é pouco importante para o mundo. A aérea de cana no mundo não passa de 25 milhões de hectares, uma área que é dez vezes inferior a de milho, ou cinco vezes inferior a de soja", explica. Ao mesmo tempo, a complexidade genética da cana encarece o investimento. A cana tem de dez a doze cópias de cromossomos, enquanto os grãos têm em geral tem duas cópias.Em relação aos equipamentos, as demandas também são muito superiores se comparadas às culturas de grãos. Enquanto um hectare de soja é plantado com um saco de 40 quilos de semente, a mesma área de cana precisa de 15 a 18 mil quilos de mudas. Na colheita não é diferente: o hectare de soja resulta em três toneladas, o de cana 80 toneladas.
"Há um encarecimento do investimento em pesquisa para um mercado menor, então a cana não é prioridade para as grandes sementeiras e os grandes fabricantes de equipamentos, esta foi a nossa conclusão", disse Milanez, citando um estudo do banco.
É com base nesse diagnóstico que o banco, juntamente com a Finep, trabalha para a construção de uma nova edição do programa PAISS que, desta vez, seria direcionado às tecnologias agrícolas. Em 2011, já foi editada uma linha com foco na inovação industrial, o PAISS – Programa de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico.
Amanda SchArr – NovaCana