O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) quer descobrir se o modelo de contratos de longo prazo para o etanol hidratado poderia ser mais vantajoso às usinas do que o sistema atual e, quem sabe, estimular o tão necessário investimento em novas usinas. Um estudo sobre o tema está em fase inicial e a conclusão deve ser publicada ainda este ano, mas um restrito grupo teve acesso às discussões atuais.
Para apresentar análises preliminares, o banco reuniu na quarta-feira passada (10) executivos de usinas, distribuidoras, fabricantes de equipamentos para o setor, tradings e consultorias em seu escritório em São Paulo. A reunião — com participação exclusiva por convite — permitiu que especialistas do setor sucroenergético avaliassem se as premissas utilizadas no estudo, como produtividade e custos de produção, estariam adequadas.
Na simulação exposta ao setor, o preço do contrato, com prazo de 15 a 20 anos, foi fixado conforme a paridade do etanol hidratado em relação à gasolina C. Ou seja, o valor recebido pela usina, pelo prazo contratado, iria variar de modo a se manter proporcional à 70% do preço da gasolina. Este percentual é, via de regra, o teto para que o etanol hidratado tenha competitividade nos postos, considerado seu conteúdo energético 30% inferior ao do combustível fóssil.
A interpretação é que, embora teoricamente o 70% já seja aplicável ao preço do biocombustível, na prática o valor pago às usinas com frequência não alcança este índice. As distribuidoras, com um mercado muito mais concentrado do que o setor produtivo, detêm um poder de barganha maior para determinar quanto vale o etanol.
Entre as hipotéticas vantagens que a contratação de longo prazo traria, está a garantia para tomada de crédito, através dos recebíveis, o que seria uma vantagem sobre a atual situação financeira das usinas, que hoje encontram sérias restrições para conseguir financiamento.
O BNDES informou somente que o “trabalho ainda está em curso e tem como limitação de escopo, apenas, a avaliação comparativa de dois modelos de precifica: contratos de longo prazo em relação ao modelo atual (sem contratos)”. O banco argumenta que se trata de um “estudo teórico e, basicamente, econômico. Não entramos no mérito de avaliação ou proposição de política pública”.
O portal novaCana ouviu consultorias que participaram do encontro para avaliar a iniciativa do BNDES e a percepção sobre quais seriam os impactos caso os contratos de longo prazo se tornem realidade.
“Como vamos desenhar um modelo para trazer novos investimentos para o etanol se não existe uma política definida para a gasolina?”, Bioagência
Um dos convidados do banco, o diretor-executivo da Bioagência, Tarcilo Ricardo Rodrigues, considera que ainda é cedo para avaliar o modelo de contratação que está sendo estudado.
“O trabalho está muito incipiente para se fazer uma análise mais concreta. Eles mesmos colocaram que isso é apenas o começo de um processo. Ainda é uma ideia, não uma proposta, por isso vejo que até seria um pouco injusto com o BNDES fazer uma crítica neste momento”, pondera.
Feita a ressalva, o executivo da Bioagência acredita que uma contratação de longo prazo demandaria também previsibilidade de mercado. “Como vamos desenhar um modelo para trazer novos investimentos para o etanol se não existe uma política definida para a gasolina?”, questiona. “Acho que tem muito mais premissas a serem colocadas – que não dependem nem do setor, nem do BNDES – para fazer com que o modelo [apresentado na reunião] pare em pé”, diz.
“Estamos vendo como uma alternativa muito boa para uma parte do setor, especialmente a que está muito exposta ao açúcar”, FG Agro
É mais otimista a perspectiva do sócio da consultoria FG Agro, Willian Orzari Hernandes, que acredita que o mecanismo poderia ser um indutor de investimentos. Segundo ele, se somente as usinas existentes aumentassem a capacidade para produção do etanol, migrando parte do mix hoje voltado ao açúcar, já seria possível obter vantagens com o modelo que está em discussão.
“Estamos vendo como uma alternativa muito boa para uma parte do setor — especialmente a que está muito exposta ao açúcar — conseguir fazer a migração de maneira mais rápida”, opina Hernandes.
“Estamos exportando açúcar a US$ 0,11 [por libra-peso] e importando gasolina, então se houver uma conscientização de alguns agentes de que se pode se trazer benefícios para fazer a migração do açúcar para o etanol, acredito que o setor vai fazer”. Hernandes acrescenta que, além de beneficiar às usinas, uma precificação diferenciada poderia desencadear outros efeitos “muito bons, em termos de balança comercial e manutenção de empregos”.
Diferente de seus pares, que reclamam do carácter “intocável” da política de preços para a gasolina, a FG Agro vê de forma satisfatória o conjunto de medidas recentes do Governo em prol do setor de açúcar e etanol. A exemplo disso, aponta que as destilarias, de maneira geral, estão equilibradas, embora não superavitárias. O problema, segundo a consultoria, está nas unidades que precisam exportar açúcar.
“Se você olhar o contexto geral, tivemos aumento da mistura [de anidro na gasolina para 27%], retorna da cobrança da Cide, manutenção do ProRenova e do programa de estocagem [linhas de financiamento do BNDES], é um conjunto de medidas que suportam os movimentos do setor. Também não dá para querer ter tudo. Já é bem melhor do que o biênio 2013/14, sem contar os reajustes de gasolina”, argumenta Willian Hernandes.
Com um olhar mais amplo sobre a situação atual, o sócio da FG Agro ressalta que “é o estoque de anos ruins” que fragiliza o setor. Um período “tão massacrante que agora se precisa de alguns anos para absorver este retorno à normalidade”.
“É muito improvável que hoje as empresas aceitassem, seria preciso ter uma regra mais clara de reajuste da gasolina”, FC Stone
Para o analista de açúcar e etanol da FC Stone, João Botelho, o mecanismo em estudo seria insuficiente para a ampliação da capacidade produtiva. “A proposta pode ser positiva para os produtores, mas, como a ideia é usar esses contratos de longo prazo como estímulo para investimento, acreditamos que não seria suficiente.”
Embora avalie que o BNDES está “muito bem intencionado”, Botelho, assim como Tarcilo Rodrigues, defende que há necessidade de medidas que fogem do escopo da autarquia. Sobre a simulação apresentada ao setor, ele percebe problemas no prazo, superior a uma década, e acredita que uma precificação atrelada ao preço da gasolina, que sofre controle governamental, seria outra barreira à adesão dos agentes.
“A ideia é boa em termos de limitar risco, mas, mesmo limitando risco, o problema é que os preços ainda estão muito restritos [ao preço da gasolina] e seria um contrato de muito longo prazo, a maioria não está disposto. É muito improvável que hoje as empresas aceitassem, seria preciso ter uma regra mais clara de reajuste da gasolina”, pondera o analista da FC Stone.
Já Tarcilo Rodrigues, da Bioagência, acredita que os preços de contrato deveriam ser atrelados ao custo de implantação de novos projetos, seja para greenfield ou ampliação de brownfield, e à variáveis de custos e produtividade.
Hernandes, da FG Agro, foi o único que demonstrou confiança sobre o resultado que um novo mecanismo de contratação pode trazer. “Para instalação de destilarias acredito que pode haver atração de capital, tanto local como do exterior”,
O estudo do banco foi revelado pelo diretor da Archer Consulting, Arnaldo Corrêa, em sua coluna semanal, com severas críticas.
“A proposta é criar um modelo que atraia investidores para a construção ou ampliação de unidades novas de produção de etanol hidratado, que teriam acesso a contratos de longo prazo (15 anos) a preço fixo baseado no modelo do tal estudo. As ressalvas que o pessoal técnico do banco impôs são que o estudo não poderia impactar inflação, não poderia trazer desequilíbrio fiscal, não poderia trazer nenhum tipo desgaste político (via aumento de combustíveis, ou da CIDE, por exemplo) e que o contrato só serviria para unidades novas”.
O executivo da Archer foi procurado pela mas preferiu não comentar porque, embora convidado, não participou da reunião.
A reportagem apurou que o estudo do BNDES está simulando também outras alternativas de precificação, além da apresentada na semana passada. O trabalho está sendo feito em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos, que auxiliam nas simulações de retorno do investimento.
Fontes consultadas pelo novaCana informaram que o recorte da análise é bastante restrito mas deve dar suporte para fomentar futuras discussões dentro do governo e do setor produtivo. É aventada inclusive a possibilidade de empresas formarem contratos de longo prazo de forma bilateral, como algumas já fazem. O trabalho não estabelece quem seriam os agentes envolvidos na contratação, empresas elegíveis, ou mecanismos necessários à uma eventual implementação.
O banco frisa o caráter exclusivamente teórico da pesquisa, mas o olhar sobre o etanol hidratado coloca em evidencia o problema da oferta de combustíveis no Brasil e a necessidade de quase dobrar a produção de etanol na próxima década para evitar a importação de gasolina.
O Ministério de Minas e Energia deu o primeiro passo nesse sentido ao reconhecer publicamente, em abril deste ano, que o Brasil não será capaz de produzir combustível suficiente para atender os veículos do ciclo Otto. Nas contas apresentadas pelo ministro Eduardo Braga, o déficit da oferta interna crescerá ano a ano, até alcançar um buraco de 26 bilhões de litros em 2023.
Desde que o MME destacou o problema, que ficou conhecido como ‘Desafio do ciclo Otto’, nenhuma iniciativa para preencher a lacuna foi revelada.
Amanda SchArr – novaCana.com