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BNDES sugere caminhos para que usinas ampliem remuneração no médio e longo prazo

bndes logo metalizado 221015A fórmula parece simples: para aumentar a rentabilidade as usinas precisam diminuir custos e investir na produtividade. Contudo, na prática a fórmula é bem mais complexa

NovaCana 10 min de leitura

A fórmula parece simples: para aumentar a rentabilidade as usinas precisam diminuir custos e investir na produtividade. Essa é a recomendação do especialista do departamento de biocombustíveis do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Marcelo Soares Valente. Contudo, na prática a fórmula é bem mais complexa.

Ao analisar as possíveis soluções para o dilema de um setor espremido entre a baixa rentabilidade e a necessidade de investimentos, Valente destaca quatro ações que possuem como objetivo principal aumentar a receita das empresas sucroalcooleiras.

Para reforçar seus argumentos, o especialista do BNDES detalha seus cálculos para estimar quantos bilhões de reais as usinas deixaram de embolsar (e podem ganhar). Uma simulação feita pelo especialista indica que o valor extra poderia chegar perto de R$ 18 bilhões, no acumulado entre 2007/08 e 2014/15.

Veja os detalhes nos gráficos e argumentos a seguir.

A fórmula parece simples: para aumentar a rentabilidade as usinas precisam diminuir custos e investir na produtividade. Essa é a recomendação do especialista do departamento de biocombustíveis do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Marcelo Soares Valente. Contudo, na prática a fórmula é bem mais complexa.

Ao analisar as possíveis soluções para o dilema de um setor espremido entre a baixa rentabilidade e a necessidade de investimentos, Valente destaca algumas propostas que vão desde as etapas necessárias para melhor a eficiência do motores até a adoção de novos modelos para a comercialização do biocombustível. As usinas poderiam, inclusive, ter embolsado vários bilhões a mais com o aumento da paridade de 70% que baliza o interesse do consumidor pelo etanol.

Uma simulação feita pelo especialista indica que o valor extra poderia chegar a até R$ 17,94 bilhões, no acumulado entre 2007/08 e 2014/15, se a paridade energética entre etanol e gasolina fosse de 80% nos motores flex. Mas, no momento, as usinas não conseguem nem assegurar que seu produto se mantenha no teto da paridade atual.

O diagnóstico

Mesmo considerando o potencial de 70%, durante as sete temporadas analisadas, o preço do etanol ficou, em média, com uma paridade em torno de 60% em relação ao preço da gasolina, ou um deságio de 10 pontos percentuais ante o limite competitivo. Isso significa que as usinas aproveitaram apenas 86% do potencial máximo de preço do etanol.

Assim, segundo Valente, a paridade de 70% do etanol em relação à gasolina está longe de ser aproveitada integralmente pelos usineiros. Com base no preço de comercialização do combustível fóssil, ele calculou o valor máximo – descontando tributos, margens de distribuição e de revenda – pelo qual o biocombustível pode ser comercializado pelas usinas de São Paulo.

Ao utilizar o potencial máximo de preço do etanol, Valente apresenta uma referência para o mercado da capacidade das usinas de aproveitarem as variações no preço da gasolina.

Nesta safra, por exemplo, este problema de comercialização ficou evidente uma vez que as usinas em dificuldades financeiras não conseguiam manter estoques mesmo com a perspectiva de preços melhores no futuro. O resultado foi um descolamento maior entre o preço de venda e o potencial máximo.

“As usinas não conseguiram receber o equivalente a 70% da paridade porque, nesse período, a oferta de álcool relativa foi maior que a demanda potencial. Como a oferta estava muito maior que a demanda, o preço caiu”, resume o especialista.

A interação entre esses dois dados demonstra a relação entre o que a usina poderia receber e o valor pelo qual ela efetivamente comercializou o etanol. Na média do período, o setor conseguiu arrecadar 86% do potencial. Importante lembrar que o comportamento do consumidor é relativamente imprevisível, por isso em alguns casos é preciso que a paridade se situe em um nível significativamente abaixo dos 70% para estimular o consumo.

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O caminho para que seja atingido um valor similar ao da paridade, de acordo com Valente, seria promover uma escassez relativa de etanol. Essa medida, contudo, não foi possível em um período em que as usinas ainda estavam comercialmente despreparadas para lidar com uma oferta relativa maior que a demanda.

Com o crescimento da frota flex, ele explica que as empresas apostaram fortemente no etanol, mas não conseguiram fazer as negociações esperadas. O contexto analisado, de 2007/08 a 2014/15, ainda incluía um dólar mais baixo e problemas com a crise internacional, que estimularam um consequente endividamento das usinas na moeda estrangeira.

“A partir de 2011 se produziu mais álcool no Brasil. A demanda de carros flex havia crescido, mas a pressão fazia com que as usinas não conseguissem receber a paridade”

Outro dado observado no mesmo gráfico foi a curva de custos constantemente acima do valor recebido. “Nesse período, em termos de preço relativo, o custo estava maior que a receita. É uma situação complicada para as usinas”, observa. De acordo com ele, as empresas ficaram “espremidas” com essa relação. O cenário só não é pior pela contribuição de produtos como o açúcar e a cogeração.

O fato das usinas “pagarem para produzir” explica porque não está sendo registrada uma expansão nos investimentos do setor sucroenergético. “E como se destrava isso? Você aumenta a receita ou reduz custos”, sentencia.

Para conseguir seguir esse caminho, ele recomenda que as empresas considerem ações de curto, médio e longo prazo. Nesse caso, diagnostica, “investir em produtividade” parece ser um elemento-chave.

Caminhos para o aumento de receita

Para aumentar a receita do setor sucroenergético nos próximos anos, Marcelo Valente apresentou quatro possibilidades, no entanto, somente uma depende diretamente da vontade das usinas: o estabelecimento de contratos de longo prazo. As demais propostas – modelo de precificação da gasolina atrelado ao preço internacional do petróleo; tributação do setor mais favorável a competividade do etanol; e automóveis flex com motores mais eficientes com foco no etanol – não estão nas mãos do banco, nem do setor.

Para o contrato de longo prazo, o especialista explica que a proposta – que está sendo estudada pelo BNDES e dependente de uma mudança na regulação – seria oferecer para as usinas uma porcentagem levemente menor que a paridade de 70%, como 67% ou 68%.

O patamar traria o preço a uma relação bem melhor do que o que tem se verificado nos principais estados produtores durante a safra atual. Com o mercado inundado pelo biocombustível, o preço pago ao produtor acaba bem mais abaixo do limite da paridade. “Quando tem sobre oferta, as usinas começarem a receber 60%, 55%”, diz Valente.

“Estamos produzindo um artigo sobre isso. Conversamos com o setor, com as usinas, com as entidades de classe e com o governo. Essa metodologia de precificação de contratos a longo prazo precisa envolver uma série de questões”, afirma. Mais detalhes sobre esta proposta no texto BNDES apresenta nova forma para comprar e vender etanol hidratado.

Já com relação a mudanças no modelo de precificação para a gasolina, Valente provoca: “Muitas vezes se pede uma precificação acompanhando o preço internacional do petróleo. Quando o preço do barril está US$ 123 é bom acompanhar o preço internacional, mas e quando cai a US$ 40?”.

Ainda assim, o especialista comenta que essa é uma questão que depende de decisões governamentais, assim como os incentivos tributários. “A Cide-ambiental é uma demanda do setor, mas isso envolve mudanças de legislação, algo também fora do escopo do BNDES”, argumenta.

E se os motores flex fossem mais eficientes...

Segundo Valente, um dos caminhos para que o setor sucroenergético tenha um crescimento de renda independe dos produtores, mas interessa à indústria automobilística. O aumento da eficiência energética do etanol está ligado a investimentos no desenvolvimento de motores.

Tentando responder à pergunta “Se houvesse um aumento da paridade, qual seria o benefício para o setor em termos de acrescentar receita?”, o especialista fez um exercício olhando para o passado. Ele analisou dados referente ao período das safras 2007/08 a 2014/15 no estado de São Paulo, calculando como as vendas de etanol subiriam com diferentes possibilidades de paridade – 75%, 77% e 80%. Para extrapolar a análise para o território nacional, ele observou que o estado corresponde a 53% do consumo de etanol no país.

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Com uma paridade de 75%, Valente estima que o preço do etanol ao produtor poderia subir 7,14%, o que resultaria em um incremento de receita de R$ 5,94 bilhões para São Paulo ou R$ 11,21 bilhões para o Brasil. Com 77%, os preços poderiam subir 10%, rendendo R$ 8,32 bilhões a mais em nível estadual e R$ 15,7 bilhões nacionalmente. Por fim, uma paridade de 80% proporcionaria um etanol 14,2% mais caro, com uma receita adicional de R$ 9,51 bilhões em São Paulo e R$ 17,94 bilhões no país como um todo.

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Embora os números impressionem, Valente lembra que essa não seria uma resposta definitiva para os problemas do setor. Considerando que a dívida no período analisado soma R$ 50 bilhões, se todo o valor adicional de uma paridade 80% fosse utilizado para amortizar esses débitos, o setor ainda deveria R$ 31,4 bilhões a seus credores.

Além disso, o caminho para uma maior paridade é longo. “Para que isso aconteça, antes, é preciso aperfeiçoar a tecnologia do carro, comunicar o mercado que houve a mudança da paridade e, aos poucos, substituir a frota”, enumera.

“A indústria automobilística está sendo muito cobrada pela questão ambiental e, para eles, é muito importante desenvolver o carro flex”

Enquanto isso não é uma realidade, serão beneficiados os consumidores que permanecerão pagando uma paridade de 70% no etanol mesmo que seus carros tenham um maior rendimento. A expectativa do especialista é que a substituição de frota atual por uma com paridade mais elevada e a conscientização dos consumidores quanto a essa mudança demore de 15 a 20 anos.

“Pelo que eu pesquisei com a indústria e a própria Unica, a paridade de 77% é bem possível. Chegar até 80% seria um excelente resultado. É uma meta difícil, mas possível. Mais do que isso, não”, relata.

Inovação é a via para redução de custos

Para melhorar a produtividade do setor, as principais apostas do banco estão no longo prazo e exigem a adoção de novas tecnologias. Embora aponte que o banco tenha ações para curto e médio prazo, Marcelo Valente destaca os programas Paiss Industrial e o Paiss Agrícola, focados em inovação, que possuem maturação em um período de tempo maior.

“Você consegue desenvolver e finalizar o etanol de 2ª geração, também usando a cana-energia que tem uma produtividade até três vezes maior que a cana-de-açúcar. Com isso, consegue aumentar muito a produção de álcool por unidade de área”, exemplifica o especialista citando os focos do Paiss Industrial.

Ele também aproveita para mencionar os focos do Paiss Agrícola: variedades de cana, melhoria na mecanização, sistemas de manejo, propagação de mudas e novas técnicas de planejamento e produção. “Isso tudo rendeu uma carteira de R$ 1,8 bilhões em projetos de inovação que estão, no momento, sendo executados para ver se maturam”, completa.

Esse aumento de produtividade, para ele, é essencial por diluir os custos fixos e diminuir os custos unitários. “É possível distribuir o custo por uma produção maior e vender mais produto, então, você ganha em receita também”, resume.

A apresentação completa pode ser acessada abaixo:

Programa de inovações no setor de Cana e efeitos econômicos da paridade (507KB.pdf) - Marcelo Soares Valente, Departamento de Biocombustíveis do BNDES

Renata Bossle – NovaCana

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