Fora do Sistema Integrado Nacional (SIN) de energia, Roraima tem, predominantemente, o fornecimento feito por termelétricas. Em meio a esta realidade, energias de biomassa surgem como alternativa para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e garantir maior segurança energética ao estado. Usinas utilizam os chamados cavacos de acácia como biocombustível e já responde por 25% da geração de eletricidade em Roraima.
As quatro usinas que extraem energia das árvores de acácia são da empresa Oxe Energia, presente em Roraima desde 2022. Sete usinas ao todo extraem energia de biocombustível no estado a partir de óleos vegetais e resíduos do óleo de palma, extraído da planta do dendê, e do cavaco.
O g1 visitou duas usinas de biomassa do grupo OXE nesta sexta-feira, 21, para entender como funciona o processo – a usina Bonfim e a Cantá. As duas ficam localizadas em um polo (chamado de cluster) localizado na região da Serra da Lua, no município do Bonfim, norte de Roraima.
Cada usina tem uma capacidade de 10 megawatts. Outro cluster fica em Boa Vista, chamado de Jacitara ele também conta com duas usinas, Santa Luz e Pau Rainha. Ao todo, a OXE envia 40 megawatts por dia aos 15 municípios de Roraima.
“Nosso projeto foi desenvolvido para transformar a matriz energética do estado, que antes dependia do óleo combustível e da energia vinda da Venezuela. Agora, oferecemos uma alternativa segura”, explicou o diretor industrial da Oxe Energia, Marcos Caldas.
A Oxe é proprietária de uma área de 2,8 milhões de metros cúbicos de acácia da espécie mangium – usada para a extração do cavaco. O processo envolve a queima de cavacos de madeira, produção de vapor, e operação de turbinas, com um ciclo fechado de água e reaproveitamento de cinzas.
O gerente de unidade do cluster Serra da Lua, Leonardo Centenaro, explica que cada etapa é feita em seis partes: processamento da matéria-prima, classificação, armazenamento, combustão, geração de vapor e, por fim a geração de energia. Ao todo, são cerca de 400 funcionários que trabalham em cada etapa.
“Nossa matéria-prima é processada no campo e transportada até a usina. Ao chegar, passa por uma peneira classificadora que separa os materiais adequados para a queima. O cavaco é então armazenado em silos, garantindo segurança operacional e controle de umidade para uma queima eficiente nas caldeiras”, explica Centenaro.
Toda a biomassa utilizada vem de áreas de reflorestamento próximas às usinas, localizadas a 15 quilômetros do cluster. A madeira é picada no campo e transportada continuamente para “garantir o suprimento das caldeiras 24 horas por dia”.
“O ciclo de geração é altamente sustentável. Utilizamos água subterrânea de poços semiartesianos e o sistema de vapor opera em um ciclo fechado, reduzindo significativamente o consumo de água. Além disso, as cinzas resultantes do processo são reaproveitadas como adubo nos próprios plantios, garantindo que nada seja desperdiçado”, detalha Centenaro.
A empresa chegou no estado por conta do “ambiente propício para a plantação de acácia”. Essas madeiras foram plantadas entre 1996 e 2006 por outra empresa e foi adquirida pela Oxe em 2022.
“A localização na região amazônica também foi um ponto decisivo para os acionistas, considerando a viabilidade da operação e manutenção de forma sustentável”, destacou Marcos Caldas sobre a escolha de Roraima.
A Oxe Energia gera aproximadamente 400 empregos diretos e indiretos, impulsionando a economia local. A empresa possui um contrato de 15 anos com a distribuidora local, estando no terceiro ano de vigência, com possibilidade de renovação por mais 15 anos.
“Nossa geração de energia é 100% limpa, com emissões significativamente menores do que as fontes anteriores, como o óleo combustível pesado. Isso representa um avanço ambiental importante para Roraima”, afirma Caldas.
Há um acordo firmado entre as usinas de produção de biocombustível e a Roraima Energia. A energia produzida por biomassa é entregue à companhia, que distribui para os consumidores em um contrato firmado com o Governo Federal.
A bioenergia de Roraima é fornecida pelas seguintes usinas termelétricas:
Para seguir com a extração de energia por cavacos, a Oxe iniciou o plantio de eucalipto e a previsão é que as árvores estejam prontas para a extração de energia em 2040.
Roraima é o único estado do país que não é ligado ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e, durante anos, dependeu da energia fornecida pela Venezuela. No entanto, o país parou de enviar energia ao estado em março de 2019 e, desde então, o trabalho é feito por quatro termelétricas da Roraima Energia.
O parque térmico do estado é formado pelas usinas termelétricas de Monte Cristo, na zona Rural de Boa Vista, Jardim Floresta e Distrito, ambas na zona oeste, e Novo Paraíso, em Caracaraí, na região sul do estado.
Atualmente, duas turbinas da Usina Termoelétrica Jaguatirica II já estão em operação e ajudam a reduzir o consumo da usina termelétrica do Monte Cristo, que funciona a óleo diesel.
Os 715 km do Linhão de Tucuruí são apontados como o fim do isolamento elétrico e dos constantes blecautes. O início da obra foi foco de um impasse por 11 anos, já que 122 km de torres vão atravessar a reserva Waimiri Atroari.
Sem a energia importada, o custo para fornecimento elétrico estado é de R$ 8 bilhões por ano – conta que é dividida entre todos os consumidores de energia elétrica do país.
Caíque Rodrigues