Especialista em agronegócio diz que etanol de milho e biodiesel tornam a produção de carnes mais competitiva
O avanço da produção de etanol de cereais e de biodiesel está levando a produção de carnes para novas regiões do Brasil e tornando o país ainda mais competitivo no mercado mundial. A avaliação é do professor Marcos Fava Neves, especialista em planejamento estratégico do agronegócio, em entrevista à Agrimídia durante a AveSui 2026, em Cascavel (PR).
Fava Neves participou da Conjuntural de Mercado que abriu o evento, com a palestra “O Empoderamento Bioenergético Impulsionando as Carnes”.
Segundo ele, o país vive um forte impulso na produção de etanol a partir de milho, trigo, sorgo e outros cereais, além de óleos a partir da soja, com uso crescente nos motores. Esse movimento aumenta a oferta de ração no mercado interno, como o DDG, coproduto do etanol de milho, e torna a produção de carne mais competitiva.
“O Brasil tem atacado os mercados mundiais com suas carnes e crescido sua participação. Esse é um caminho sem volta”, afirma. “O que eu tenho falado é que a bioenergia está impulsionando um processo de ‘carnificação’ do Brasil”.
Interiorização e diversificação
Para o especialista, não se trata de uma transferência da produção, mas de uma expansão para novas áreas. Quando uma usina de etanol de milho ou de biodiesel se instala, ela torna atrativa a criação de animais ao redor. Esse movimento já seria visível em cidades do Centro-Oeste, do Nordeste e do Norte.
A diversificação geográfica traz vantagens também do ponto de vista sanitário. “Você passa a ter alternativas para cobrir eventuais riscos sanitários que possam preocupar o mundo e levar ao fechamento de mercados”, explica.
Fava Neves acredita que outras regiões podem repetir o que aconteceu no Paraná e em Santa Catarina com a verticalização das carnes, incluindo a circularidade da produção, com a cama de frango, os fertilizantes organominerais e o biogás e o biometano para geração própria de energia.
Grãos competitivos e atenção à sanidade
O professor projeta um suprimento de grãos a preços razoavelmente competitivos e rejeita a ideia de que a bioenergia encareça a ração.
“Não atribuo nenhuma culpa no preço da ração ao crescimento do etanol de milho e do biodiesel de soja. Se tem algum problema, normalmente ele é climático, porque a oferta vem acompanhando a demanda”, disse. Ele pondera, porém, que a recente desvalorização do real é um fator a acompanhar.
O maior risco, na avaliação dele, é o sanitário. “É aquele que a gente não tem tanto controle. Por mais que façamos todos os trabalhos preventivos, agora apareceu um problema que temos que enfrentar. Essa é uma questão que me preocupa bastante”, completa.
Meta ambiciosa para o mercado mundial
Com base no desempenho dos últimos dez anos, Fava Neves acredita que o Brasil pode, em poucos anos, alcançar 40% de participação no mercado mundial de carne de frango, 30% no de carne bovina e 20% no de carne suína.
“Seria muito bom pensar que um único país entrega toda essa quantidade de carne para o mundo, agregando valor sobre a produção de grãos. Essa deveria ser a nossa meta”, disse.
O professor ainda deixa um recado para quem está desanimado com o momento do setor: “Para quem está decepcionado ou descontente, tem que lembrar que, nos últimos 15, 20 anos, vocês venceram com todas essas dificuldades presentes”.