Analistas consideram alto potencial de expansão do etanol no mundo, com destaque para renovável de milho brasileiro e aumento de mistura na gasolina em outras nações
“A produção mundial de biocombustíveis é bastante grande, mas as previsões de todas as organizações que tratam de questões ambientais mostram que precisamos ampliar ainda mais”. A visão do pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Heitor Cantarella, traz a urgência de aumento da oferta de combustíveis renováveis ao redor do mundo, dentre eles, o etanol.
Logicamente, essa produção acompanharia o potencial produtivo de matérias-primas, estrutura industrial e políticas públicas de cada país.
No mesmo caminho, o diretor executivo do Arranjo Produtivo Local do Álcool (Apla), Flávio Castellari, traçou o potencial mundial do etanol, considerando usinas já instaladas ao redor do globo. Ele levou em conta principalmente unidades usando a cana-de-açúcar, além da possibilidade de aumento de mistura do renovável na gasolina. “Nos deixa bem confortável que o ‘Sul global’ possa contribuir com a descarbonização do mundo”, declara.
As falas foram feitas durante a 23ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol.
O estudo realizado pela Apla considera que, apenas no México e nos Estados Unidos, existem 66 usinas instaladas que podem receber uma planta de etanol, biogás ou de cogeração. “Tem potencial enorme de produção de etanol lá. O México ainda não tem uma produção de etanol para mistura; mesmo com uma política pública para isso, eles nunca atingiram os 10% que estão na lei”, explica.
Já na América Central, de acordo com a Apla, são 121 usinas. “Nos anos de trabalho com os países de lá avançamos em três: em 2024, Costa Rica, Panamá e Guatemala vão começar a mesclar 10% de etanol na gasolina”, relata Castellari, que segue: “A ideia é que toda a América Central vá nessa direção. Existem usinas, espaço para expansão e cana-de-açúcar e agora estamos trabalhando nas políticas públicas”.
Na América do Sul, desconsiderando o Brasil, são mais 122 usinas espalhadas na Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina. O diretor executivo menciona que são países que têm misturas de etanol, sendo que o Paraguai tem a maior delas, com 25%. As outras nações fazem a mescla de entre 10% e 12% do biocombustível no fóssil. “São outros provedores de etanol, biogás e energia. Alguns países já produzem eletricidade e colocam na rede, mas a maioria ainda não”, detalha.
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“A produção mundial de biocombustíveis é bastante grande, mas as previsões de todas as organizações que tratam de questões ambientais mostram que precisamos ampliar ainda mais”. A visão do pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Heitor Cantarella, traz a urgência de aumento da oferta de combustíveis renováveis ao redor do mundo, dentre eles, o etanol.
Logicamente, essa produção acompanharia o potencial produtivo de matérias-primas, estrutura industrial e políticas públicas de cada país.
No mesmo caminho, o diretor executivo do Arranjo Produtivo Local do Álcool (Apla), Flávio Castellari, traçou o potencial mundial do etanol, considerando usinas já instaladas ao redor do globo. Ele levou em conta principalmente unidades usando a cana-de-açúcar, além da possibilidade de aumento de mistura do renovável na gasolina. “Nos deixa bem confortável que o ‘Sul global’ possa contribuir com a descarbonização do mundo”, declara.
As falas foram feitas durante a 23ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol.
O estudo realizado pela Apla considera que, apenas no México e nos Estados Unidos, existem 66 usinas instaladas que podem receber uma planta de etanol, biogás ou de cogeração. “Tem potencial enorme de produção de etanol lá. O México ainda não tem uma produção de etanol para mistura; mesmo com uma política pública para isso, eles nunca atingiram os 10% que estão na lei”, explica.
Já na América Central, de acordo com a Apla, são 121 usinas. “Nos anos de trabalho com os países de lá avançamos em três: em 2024, Costa Rica, Panamá e Guatemala vão começar a mesclar 10% de etanol na gasolina”, relata Castellari, que segue: “A ideia é que toda a América Central vá nessa direção. Existem usinas, espaço para expansão e cana-de-açúcar e agora estamos trabalhando nas políticas públicas”.
Na América do Sul, desconsiderando o Brasil, são mais 122 usinas espalhadas na Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina. O diretor executivo menciona que são países que têm misturas de etanol, sendo que o Paraguai tem a maior delas, com 25%. As outras nações fazem a mescla de entre 10% e 12% do biocombustível no fóssil. “São outros provedores de etanol, biogás e energia. Alguns países já produzem eletricidade e colocam na rede, mas a maioria ainda não”, detalha.
Por sua vez, no continente africano, a Apla tem trabalhado no “lado inglês” do continente, por considerar que a região tem mais potencial neste sentido, com democracias mais sólidas. Castellari diz que são mais 82 usinas no oeste africano que podem anexar uma destilaria e produzir biogás e biometano.
“Na Ásia, os nossos países alvos são Vietnã, Tailândia, Filipinas e Indonésia, que unem mais 182 usinas com potencial de anexar uma destilaria e, com isso, produzir etanol, biogás e energia de biomassa, podendo ofertar matéria-prima para mistura de gasolina ou SAF”, considera o diretor executivo.
Biocombustíveis convencionais têm espaço
Analisando as metas para 2030 – apesar do potencial visto com combustível sustentável de aviação (SAF) e etanol de segunda geração (E2G) –, Cantarella observa que a produção de etanol de cana ou milho deve continuar bastante elevada, da mesma forma que os biocombustíveis a base de óleos.
Ele conta que o IAC fez um levantamento com a IEA Bioenergy, uma iniciativa da Agência Internacional de Energia (IEA) para bioenergia, gerando um relatório sobre os biocombustíveis produzidos no mundo. “Avaliamos a sustentabilidade de todos os biocombustíveis, incluindo os convencionais (etanol de cana, milho e HVO), e eles têm um impacto ambiental importante ao reduzir a emissão de gases no comparativo com fósseis”, diz.
Cantarella explica que os biocombustíveis que estão sendo oferecidos ao mercado em grandes quantidades são justamente os convencionais. Além deles estarem sendo fabricados há bastante tempo, são as maiores fontes de substituição de fósseis.
“Já analisando o avanço de tecnologias para veículos, os motores à combustão interna devem reduzir bastante em alguns mercados. A Europa, a partir de 2030, não produzirá mais estes carros e eles serão substituídos por elétricos a bateria e outros”, considera o pesquisador.
Ele ainda completa: “Em outras partes do mundo, mesmo após 2030, haverá muitos veículos à combustão com biocombustíveis. O etanol e o biodiesel dominam o mercado real, ainda que tenha muitos outros [biocombustíveis] alternativos e modernos, mas que ainda não atingiram o mercado”.
Ainda assim, Cantarella considera uma “pedra no caminho”, por exemplo, o fato de que, na comunidade europeia, o percentual máximo de mistura de uma opção derivada de planta seja de 7%.
“Sabemos que o mercado europeu de biocombustíveis está declinante, até pela evolução do mercado de veículos, mas ele traz questões regulatórias que afetam a todos, além de o continente ser o maior importador de biocombustíveis”, opina e segue: “Quem abre um jornal no Brasil hoje, acha que carro moderno é só carro elétrico. Essas concepções erradas e questões regulatórias limitam as matérias-primas que podem ser usadas para biocombustíveis e acabam ‘poluindo’ todo o mercado”.
Milho com potencial de descarbonização
Ao examinar o panorama da emissão de gases do efeito estufa no Brasil, o professor titular da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri-Unicamp), Luis Augusto Barbosa Cortez, afirma que a matriz energética do país, tanto elétrica como de combustíveis, é bastante limpa. “Devemos mais manter o cenário; pouco há a se fazer em termos de redução”, detalha.
Ele ainda considera: “Quando olhamos para reduções de emissões, precisamos analisar a questão de desmatamento e do uso da terra, que têm sido objetos de muitas críticas internacionais. O Brasil precisa estar mais atento a isso, pois o etanol está muito relacionado”.
“Eu defendo que juntemos as duas agendas: o fim do desmatamento e a promoção de etanol de milho e mais carnes sustentáveis. Isso pode ajudar o Brasil na sua estratégia de expansão da entrada no etanol no mundo e de atingir as metas do RenovaBio”, Luis Augusto Barbosa Cortez (Feagri-Unicamp)
Neste âmbito, Cortez vê que o etanol de milho tem um papel fundamental, uma vez que 80% do cereal produzido no Brasil é de segunda safra, dividindo a terra com a soja e com pouco impacto de ocupação do solo. “O etanol de milho também gera o efeito de distribuição do renovável em regiões que não estão usando hidratado”, complementa.
Cortez ainda considera que o renovável do grão, diferentemente do de cana – que tem outras vantagens – produz coprodutos que tem efeito de tirar o boi do pasto. “Temos 160 milhões de hectares de pastagem no Brasil, 16 vezes mais do que de cana. Esse enxugamento tem efeito inverso do ILUC [sigla, em inglês, para mudança de uso indireta da terra], o que sempre foi uma crítica dos europeus ao nosso etanol”, considera Cortez.
“Know-how” brasileiro
Castellari relata que a equipe do Apla visita e conversa com diversos países sobre a experiência do Brasil na produção de biocombustíveis e na mistura de etanol à gasolina.
“Começamos o trabalho pensando nisso, mas a evolução da tecnologia trouxe a necessidade de ter energia mais limpa para aviação e transporte marítimo. Além disso, o biometano e o hidrogênio começaram a gerar oportunidades para que as usinas trabalhem com mais força na diversificação”, expõe.
Ele ainda considera que seria necessário dobrar a produção de etanol só para atender o mercado de SAF. Para Castellari, a expansão do biocombustível de aviação vai gerar uma demanda muito grande pelo etanol, sendo necessário responder à altura.
“Mostramos que temos condição de ter o biocombustível produzido em larga escala e de maneira rápida em todos os continentes. Temos como apresentar como o Brasil cresceu na produção deste biocombustível de cana e de milho”, afirma Castellari.
Para ele, o país é um caso de sucesso de expansão rápida da produção do biocombustível, podendo servir de exemplo. O diretor executivo ainda cita o potencial do etanol de segunda geração: “Demonstramos que já dominamos a tecnologia, com vias de aumentar em mais de 50% a produção de etanol por hectare de cana”.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana