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Benri: eficiência é o mais importante para a saúde das usinas

canavial-060913Sem um ambiente de lucratividade garantida, as usinas precisam assegurar sua sobrevivência com eficiência industrial e, principalmente, agrícola
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As usinas sucroenergéticas enfrentam atualmente uma série de dificuldades. Altos endividamentos, margens estreitas, setor desarticulado e inseguranças regulatórias são apenas alguns itens de uma extensa lista. Mas é o nível de eficiência das empresas que determina como as elas enfrentarão essas e outras dificuldades do mercado.

Para falar sobre o assunto o portal NovaCana conversou com o presidente do Biomass Energy Research Institute (Benri), Manoel Bertone. Entre as opiniões do ex-servidor do Ministério da Agricultura estão questões relacionados ao marco regulatório, risco de desabastecimento e, como quase todos os profissionais ligados ao setor produtivo, críticas ao governo.

E mais:
- Há insegurança em mais de 10 itens na área ambiental, 15 na parte trabalhista e outros na parte de transportes.
- "Estou falando puramente de mercado nas situações atuais, sem o governo mexer: sem ajudar, mas também sem atrapalhar."
- "O governo é contra o lucro, só que o investidor investe o lucro, ele não fica com o dinheiro."

As usinas sucroenergéticas enfrentam atualmente uma série de dificuldades. Altos endividamentos, margens estreitas, setor desarticulado e inseguranças regulatórias são apenas alguns itens de uma extensa lista. Mas é o nível de eficiência das empresas que determina como as empresas enfrentarão essas e outras dificuldades do mercado.

Essa é a opinião do presidente do Biomass Energy Research Institute (Benri), Manoel Bertone. "As empresas mais eficientes vão ter uma chance melhor, até mesmo se estiverem debilitadas financeiramente. As oportunidades serão melhores para se coligar, para se fundir ou para serem compradas", garante.

Apesar dos grupos mais capitalizados e que não dependem exclusivamente da produção de açúcar e etanol possuírem capacidade para aguentar mais tempo em condições pouco favoráveis, eles também estão empreendendo uma busca por melhores resultados em seus processos. "Empresas como Shell [Raízen] e a BP tem gás para aguentar mais tempo esse nível de busca pela eficiência, mas eles estão investimento fortemente", exemplifica. No caso da Raízen, o executivo considera que já existia um grau de eficiência alto antes da joint venture (entre Shell e Cosan), mas a companhia continua investindo pesado na busca por eficiência ainda maior.

O trabalho do Benri, como empresa de rating especializada no setor sucroenergético, consiste em classificar usinas de acordo com os níveis de eficiência agrícola e industrial. Para tanto são utilizados cerca de 100 indicadores que permitem situar o empreendimento em relação aos concorrentes. "O Benri é um instrumento para o empresário saber como ele está, em relação às demais empresas, e para o mercado saber como aquela usina está em relação às demais. É um instrumento de gestão muito forte porque proporciona a visão de onde se precisa melhorar". Conforme o executivo, os indicadores são monitorados em cerca de 120 usinas.

Bertone já esteve no governo como secretário de Produção e Agroenergia do Ministério da Agricultura, mas deixou a pasta no início de 2012 por desacordo com os rumos para o etanol definidos pelo governo da presidente Dilma Rousseff. Atualmente, é otimista com o setor quando analisa as condições de mercado no horizonte. A avaliação é de que haverá equilíbrio no mercado de açúcar e no de etanol, com o consumo ajudando a equilibrar os preços, principalmente no caso da commodity, entretanto os ganhos devem ser moderados.

"Acho que o pior de fato já passou e vamos ter um ambiente um pouco melhor, mas ainda não é um ambiente de lucratividade garantida. É um ambiente em que os custos estão subindo muito. O câmbio vai impactar no setor e espero que impacte mais favoravelmente, com um preço de açúcar melhor, mais competitivo". Mas ressalva: "Estou falando puramente de mercado nas situações atuais, sem o governo mexer: sem ajudar, mas também sem atrapalhar".

Risco de desabastecimento

Bertone deixou o governo federal após um ano traumático para o setor que foi 2011, quando a mistura de etanol anidro à gasolina fora reduzida para 20% e houve uma série de "ameaças". Agora, considera, o que está se buscando é minimizar os efeitos adversos de medidas adotadas naquele período. "Hoje a situação não é a mesma daquela época. O governo está se esforçando agora porque está vendo que o problema volta para ele e corre um risco de desabastecimento de gasolina". Segundo avalia, além das perdas acarretadas para a Petrobras devido aos preços artificialmente baixos dos derivados de petróleo, se o consumo de gasolina continuar crescendo, não há capacidade logística para levar o combustível importado ao Brasil inteiro.

Algumas posições foram revertidas através de novas medidas, desta vez, favoráveis ao etanol – a exemplo da isenção de PIS e Cofins, retomada da mistura de 25% e linhas de financiamento do BNDES. Mas o executivo pondera que esta sinalização para que o setor volte a investir é insuficiente. O executivo afirma que o mercado não vai aplicar mais dinheiro sem ter lucratividade, que precisa ser maior em um contexto de inseguranças. Entretanto, para Bertone a visão governamental, vai contra o empreendedorismo.

"O governo é contra o lucro, só que o investidor investe o lucro, ele não fica com o dinheiro. A tendência das pessoas no governo é achar que o lucro é do empresário. Sim, é do empresário, mas o que ele faz com o lucro? Ele não manda para a Suíça, ele reinveste porque essa é a natureza do empresário e é assim que se faz desenvolvimento", critica.

Marco regulatório

Para que o setor não fique tão na mão dos humores políticos, ele aponta a necessidade de regras de longo prazo para que haja alguma estabilidade. Por isso um marco regulatório é fundamental. Hoje os problemas vão muito além da manipulação estatal no mercado de combustíveis, há um ambiente de dúvida generalizado que acaba penalizando investimentos, segundo o presidente do Benri. Um exemplo é a "enorme insegurança jurídica" nas regulamentações cumpridas pelo setor: há insegurança em mais de 10 itens na área ambiental, 15 na parte trabalhista e outros na parte de transportes.

"Ninguém quer liberdade de pôr qualquer peso no caminhão, ter funcionário sem registro, ter trabalho escravo, ninguém quer destruir todas as matas. O empresário quer cumprir as leis, mas quer que as normas advindas da legislação proporcionem segurança jurídica. Esse é um dos pontos importantes que o setor está reivindicando. Se eu for listar há mais de 30 itens de insegurança", argumenta.

Ao mesmo tempo em que demanda políticas públicas de longo prazo para o etanol, Bertone, como outras vozes do setor, frisa que é preciso liberdade para se atuar no mercado, "sem que o governo atrapalhe", o que não vê como contraditório. "Não considero nada disso incongruente [demandar políticas públicas e querer liberdade de mercado para atuar]. O que o setor precisa é de regras claras. Você se sente mais livre para andar onde há policia ou não há polícia?", finaliza.

Amanda SchArr – NovaCana
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