Os balanços das usinas no trimestre passado certamente vão levar em conta as quedas dos preços do etanol, que impulsionaram os resultados nos três meses imediatamente anteriores, mais que os do açúcar.
As condições do adoçante neste último período poderão ser um contrapeso. No entanto, ainda que não esteja oficialmente claro como as companhias aumentaram a produção e como fixaram os preços de exportações, não deverá haver surpresas negativas para um cenário que já se desenhava desde maio para o biocombustível.
“O ritmo de comercialização vai ditar o andamento [de julho a setembro], mas, em geral, para aquelas que ainda ficaram mais dependentes do etanol, deverão ter perdas se não souberam aproveitar o mix mais açucareiro e a valorização da commodity”, analisa o consultor e diretor da MBAgro, Alexandre Figliolino, com o complemento de que é muito pouco provável que essa virada não tenha acontecido, ainda que em níveis diferentes.
A empresa Cosan é a única que trabalha com ano civil, logo o seu balanço será o do terceiro trimestre de 2022, em 11 de novembro, enquanto sua controlada Raízen, junto com a Shell, que segue o ano-safra 2022/23, divulgará um dia antes. São Martinho e Jalles Machado também demonstrarão por ano-safra, respectivamente nos dias 7 e 10 de novembro.
A vantagem dessas sucroenergéticas listadas na B3 é que contam com plantas modernas, podendo muito bem ter se adaptado a uma condição menos favorável ao biocombustível pela menor competitividade da gasolina, a partir de queda do ICMS para os estados e dos impostos federais, vis-à-vis os reajustes negativos da gasolina pela Petrobras.
Para Figliolino, a gestão operacional de todas as companhias não costuma decepcionar, de modo que não se espera surpresas negativas.
Nos balanços de abril a junho, os Ebitdas de todas demonstram resultados operacionais fortes – tanto na comparação anual quanto contra a etapas imediatamente anteriores.
O da Cosan, por exemplo, cresceu 34,5%, e absorveu a forte queda do lucro líquido ajustado, em 94,6%, por despesas financeiras. Foram destaques os volumes comercializados e, com rentabilidade superior, da Raízen.
A São Martinho informou que o nível de fixações de preço do açúcar para a safra 2022/23 e 2023/24, em 30 de junho, estavam em 604 mil toneladas a preço de R$ 2.261 a tonelada, e 165 mil toneladas a R$ 2.374/t. “Acima da média do mercado”, afirma Figliolino.
A compensação para o açúcar no segundo trimestre de 2023 está de certa forma demonstrada, ao contrário do trimestre anterior – na comparação com igual período do primeiro trimestre de 2022 –, quando a receita líquida com o adoçante foi 18% inferior, refletindo a menor comercialização em 28,5%, período no qual o foco foi o etanol.
Para os lados da Jalles Machado, que ainda não deverá apresentar no balanço os resultados operacionais da incorporação da usina Santa Vitória, cujo “closing” se deu há algumas semanas, a companhia goiana já lembrava dos “desafios” que o etanol apresentaria, assim que lançou seu demonstrativo de início da safra 2022/23.
Os dados de abril a junho mostraram que as duas unidades da Jalles ganharam share com etanol anidro, em mais 348%, e, com o açúcar, em 2,9%, absorvendo a baixa de 39,7% no biocombustível hidratado.
Com o adicional de que no período o açúcar orgânico, ponto forte do grupo por absorver prêmios, voltou a ser escalonado nas exportações, com força ainda mais destinada de julho em diante.
“Dessa forma, temos a opção estratégica de limitar a venda de etanol até 31 de dezembro, quando se encerra a medida emergencial de isenção de impostos federais”, avisou em seu relatório, ao estampar R$ 120 milhões de resultado líquido, alta de 3,8% (36,7% considerando o lucro líquido caixa) ante o mesmo trimestre da safra passada.
Giovanni Lorenzon