Depois de pegarem carona no "milagre" dos carros flex, que alavancaram o consumo interno de etanol de cana-de-açúcar de 4,3 bilhões de litros anuais para a casa de 15 bilhões, entre 2003 e o fim da década passada, os usineiros vivem um impasse. Demanda potencial por álcool é o que não falta. Desde 2010, a frota de quatro rodas do país saltou 23,2% — de 35,3 milhões para 43,5 milhões, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Só nos quatro primeiros meses, deste ano foram emplacados 1,104 milhão de automóveis e comerciais leves — dos quais cerca de 90% biocombustíveis —, 8,55 % a mais do que em igual período de 2012. Nunca se vendeu tanto zero-quilômetro por aqui.
O problema enfrentado pela turma da cana é que a sua capacidade instalada já não dá conta da procura. Basta qualquer elevação na demanda por álcool, de produção 100% nacional e renovável, para que o preço do combustível suba e, na sequência, o consumidor retorne para o derivado de petróleo, altamente poluente e em boa parte importado. Os problemas do setor começaram em 2010, com o fechamento de usinas, por conta de problemas financeiros e temporadas chuvosas, que afetaram colheitas. De lá para cá, foram inauguradas 17 fábricas — já contando com a previsão da abertura de três para esta safra —, 44 fecharam as portas e outras 12 devem seguir o mesmo caminho, o que dá um saldo negativo de 27 unidades. "A produção diminuiu e o país ganhou muitos carros. O cobertor ficou curto", comenta Sérgio Prado, representante da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
A solução é investir, até porque, segundo projeções da própria Unica, a procura por etanol deve, no mínimo, duplicar até o fim da década, atingindo a marca de 47 bilhões de litros anuais. Para que a capacidade de produção cresça em igual proporção, serão necessárias inversões de R$ 156 bilhões nos próximos 10 anos. "O ideal seria destinar R$ 110 bilhões à construção de 120 usinas, e o restante à área agrícola", assinala Prado.
Entre o plano ideal e a realidade, contudo, os usineiros se deparam no meio do caminho com uma pedra, ou melhor, um rochedo de fazer inveja ao de Gibraltar. Trata-se da Petrobras, a maior companhia brasileira. Para manter a inflação sob controle, o governo federal, acionista controlador da petrolífera, "congelou" o preço da gasolina, ignorando a evolução das cotações do produto no mercado internacional. Ruim para o álcool, que está sujeito a chuvas e trovoadas, alterações nos gastos com mão de obra e a renovações regulares dos canaviais. "O etanol concorre diretamente com uma estatal que importa gasolina pagando mais caro do que vende e ainda posa de mocinha", desabafa Tarcilo Rodrigues, diretor da Bioagência, empresa voltada à distribuição de açúcar e álcool.
Para piorar, o preço do combustível vem em escalada já há um bom tempo. O resultado é que a maioria dos motoristas hoje abastece com gasolina, enquanto que, há quatro anos, a demanda era dividida ou até mesmo liderada pelo álcool, como em 2009, quando o preço médio nos postos de combustível da Região Metropolitana de São Paulo chegou a R$ 1,29. Em alguns casos, era possível encher o tanque desembolsando R$ 50. Hoje, dificilmente se gasta menos do que RS 100. O litro do renovável é comercializado, em média, entre R$ 1,89 e R$ 1,99. A gasolina, em contrapartida, varia de R$ 2,59 a R$ 2,69. Fazendo as contas, multiplicando os valores do combustível fóssil por 0,7 (para compensar a eficiência energética, superior à do álcool), conclui-se que, no caso do posto em que a gasolina sai por R$ 2,59, o renovável vale a pena se custar até R$ 1,81. Se o fóssil for vendido por R$ 2,69, o etanol só é vantajoso até R$ 1,88, e assim por diante.
Ressabiado, o setor sucroalcooleiro recebeu em abril, enfim, uma boa notícia de Brasília. O governo federal anunciou a desoneração de PIS/Cofins. Os produtores, na realidade, passaram a ter direito a um crédito, correspondente a R$ 0,12 por litro, o que equivale a zerar essas contribuições. A renúncia corresponderá a R$ 970 milhões neste ano e R$ 1,181 bilhão nos próximos. De quebra, o Executivo liberou linhas de crédito específicas para os canaviais. A produção e a estocagem do etanol receberam recursos de R$ 6 bilhões. Para a renovação da plantação estão disponíveis R$ 4 bilhões, com juros de 5,5% ao ano, prazo máximo de seis anos e carência de um ano e meio. Já a formação de estoques foi contemplada com R$ 2 bilhões a juros de 7,7% ao ano e prazo de 12 meses.
O refresco tributário não tem força para reduzir os preços na bomba, conforme o próprio governo admitiu, mas representa um alento para o segmento, que sofreu perdas com as fortes chuvas no início do ano. Na avaliação de Sérgio Prado, da Unica, as novidades anunciadas pelo Executivo federal são importantes, mas pontuais. "É necessário criar medidas claras e de longo prazo para que sejam feitos investimentos no setor. O empresário leva de três a quatro anos para construir uma usina e dez anos para recuperar o que investiu. Sem medidas estruturais, políticas tributárias permanentes e uma definição do etanol na matriz energética brasileira, os aportes não vão aparecer", defende.
Míriam Piedade Bacchi, professora do departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), partilha da opinião. A seu ver, o corte de PIS/Cofins foi apenas um paliativo diluído por toda a cadeia produtiva. "O preço do etanol só será menor quando tivermos aumento de produtividade", analisa. "Além disso, é imprescindível rever a questão tributária, principalmente do ICMS em alguns Estados, onde a competitividade do álcool com a gasolina é inviável. Só então haverá estímulo para grandes investimentos."
Solução
Aumentar a produtividade das suas lavouras é a principal lição de casa a ser cumprida pelas usinas de cana-de-açúcar. A solução, tudo indica, pode ser o reaproveitamento de resíduos da planta, como o bagaço e a palha, que vem merecendo muita atenção de pesquisadores. Essa biomassa costuma ser queimada ou deixada na plantação, onde age como adubo. Desde meados de 2010, entretanto, o governo de São Paulo determinou que a queima deve ser suspensa quando a umidade relativa do ar for inferior a 20%. A intenção das autoridades paulistas é proibi-la definitivamente nos próximos anos.
Com base na dupla de "sucatas", o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) desenvolveu seu projeto de etanol de segunda geração, inovador no país. Desde 2007, o CTC vem estudando maneiras de viabilizar tecnologias que permitam a geração de álcool a partir de bagaço e palha de cana. Em 2010, fez testes em escala de laboratório e, no ano seguinte, ampliou o volume para escala piloto, a partir de uma planta industrial alugada na Suécia.
No segundo semestre deste ano, o CTC vai estrear a tecnologia, oficialmente, ao montar sua fábrica, integrada à produção de primeira geração (pelo caldo da cana), na usina São Manuel, na cidade que leva o mesmo nome, no interior de São Paulo. A partir de junho do ano que vem, o maquinário vai começar a rodar e a produzir etanol até 2015. Para 2016, os planos são desenhar a primeira planta comercial, para então começar a distribuir o combustível nos postos, conta o gerente de projetos Oswaldo Godoy Neto.
Como o rendimento de ambos é igual, não haverá distinção na bomba. O preço, porém, deverá baixar, já que o custo do produto de segunda geração é cerca de 10% menor que o de primeira. Sendo assim, se o do caldo sai da usina por R$ 1,20, o dos resíduos será vendido por R$ 1,10. A produção, por outro lado, deverá crescer de 30% a 50%.
Godoy conta que a viabilização do projeto foi possível a partir de financiamento do BNDES, em parceria com a Finep. "Conseguimos R$ 80 milhões para construir a planta de segunda geração na São Manuel, que terá capacidade de fabricar três milhões de litros por safra", conta. Se em uma grande usina, em média, forem processadas 130 milhões de toneladas de cana por safra, considerando o acréscimo de pelo menos 30% na produtividade, serão adicionadas 40 milhões de toneladas. O investimento total já chega a R$ 100 milhões, sendo R$ 20 milhões bancados pelo próprio CTC, que é controlado, desde 2011, pelos maiores grupos sucroalcooleiros do país.
Safra gorda
Problemas conjunturais à parte, o setor sucroalcooleiro exibe números vigorosos. Com faturamento de US$ 36 bilhões, o equivalente a 1,8% do PIB nacional, as 401 usinas em atividade posicionam o país como líder mundial no segmento do açúcar, concentrando 23% da produção, com 40 milhões de toneladas, e respondendo por 48% das exportações do planeta. O Brasil é seguido pela Índia (25 milhões) e a Tailândia (10 milhões). Quanto ao etanol, a indústria local é a vice-líder, com 22% da fabricação mundial — atrás dos Estados Unidos —, detendo uma fatia de 40% das exportações globais, segundo a Unica. Sua participação na matriz energética brasileira é de 15,7%.
Historicamente, o segmento destina um maior volume da produção ao açúcar, commodity muito demandada mundo afora, principalmente por China, Emira dos Árabes e Indonésia. Na safra passada, por exemplo, as 588,3 milhões de toneladas de cana processadas em todo o território nacional resultaram em 38 milhões de toneladas de açúcar e 23,2 bilhões de litros de etanol. Considerando-se só a colheita na região Centro-Sul (90% da produção), as 532,7 milhões de toneladas da planta se transformaram em 34,1 milhões de toneladas de alimento e em 21,3 bilhões de litros de combustível.
Neste ano, contudo, a produção destinada ao álcool deverá crescer mais que a do açúcar, devido à queda da cotação internacional deste último, impulsionada pelos fabricantes indianos (cana) e europeus (beterraba), que inundaram o mercado com o carboidrato. Com alta estimada de 4,1%, a fabricação do alimento no Brasil deverá alcançar 35,5 milhões de toneladas. Com relação ao etanol, a perspectiva é de aumento de 18,7%, para 25,3 bilhões de litros, com uma boa fatia do bolo destinada à versão anidro, que é adicionada à gasolina no Brasil. Os produtores ampliaram sua produção em 28,2% (11,2 bilhões de litros) para atender a determinação do governo federal, em vigor desde maio, de elevar de 20% para 25% a quantidade do combustível "verde" no mix oferecido nos postos. Por ser mais puro, o anidro possui valor de venda maior, o que garante maior rentabilidade ao fabricante. Enquanto o litro do etanol hidratado é vendido por R$ 1,13 sem incluir os impostos, a opção desidratada sai por R$ 1,35, segundo dados do Cepea.
A previsão da safra nacional de cana para este ano é de 589,6 milhões de toneladas, 10,67, a mais do que em 2012, considerando a região Centro-Sul. Fatores que sustentam essa perspectiva são a expansão de 6,5% na área de cana disponível e o aumento da produtividade agrícola, propiciado tanto pela redução da idade da lavoura (a vida útil da cana é de cinco a seis anos; vencido o prazo, o canavial é renovado) como pela melhoria das condições climáticas nos últimos meses, que favoreceram o crescimento das plantas.
Previsão de moagem recorde
A usina Guarani, fabricante do açúcar que leva seu nome, prepara-se para sua maior moagem dos últimos anos, que deverá chegar a 20 milhões de toneladas, ante 18,2 milhões de toneladas da safra anterior - quando seu faturamento alcançou R$ 2,115 bilhões. "Estimamos a produção de açúcar em 1,7 milhão de toneladas e a de etanol em 700 milhões de litros. Devemos também dobrar as vendas de eletricidade na safra 2013/14, em comparação com a anterior, e chegar a 1,2 mil GWh (gigawatts) até a safra 2015/16", comemora o presidente da Guarani, Jacyr Costa Filho. Quanto à distribuição da produção, Costa Filho conta que hoje o etanol está mais atrativo do que o açúcar. Para o executivo, as decisões do governo em elevar o percentual de álcool na gasolina de 20% para 25% e desonerar PIS/Cofins melhoram as perspectivas de desempenho da cadeia e contribuem para que as empresas do setor recuperem parte de sua competitividade.
Gigante do setor, classificado como um dos cinco maiores grupos do ramo sucroenergético do Brasil, a Guarani prevê investir, até 2015, R$ 787 milhões. A maior parte será aplicada na renovação dos canaviais e, o restante, na ampliação da capacidade de cogeração de energia das suas sete unidades espalhadas pelo Estado de São Paulo. "Também estamos sempre atentos a estudos e pesquisas relacionados ao setor. Invariavelmente realizamos investimentos em novas variedades de cana-de-açúcar, mais resistentes e produtivas, na proteção do canavial contra pragas e doenças, manejo biológico, agricultura de precisão e etc. Porém, não revelamos detalhes dessas estratégias."
Controlada pelo grupo francês Tereos, um dos principais players do agronegócio no mundo, a Guarani possui, ainda, planta em Moçambique, na África, opera centro de distribuição no Rio de Janeiro e tem 35% no Terminal Portuário Teapar. Cerca de 40% de sua produção de açúcar segue para o exterior, tendo como principais destinos África e Oriente Médio. Do etanol, 100% ficam no mercado doméstico.
São Manuel - Ao apostar na tecnologia de segunda geração, a usina São Manuel mostra que se sente melhor estruturada do que muitas de suas concorrentes e que possui escala competitiva tanto na parte agrícola quanto na industrial. Segundo o consultor de planejamento e controle, Cléber Gonçalves Aguiar, porém, a empresa também enfrenta as limitações impostas a todo o setor. O faturamento dessa usina que possui uma única unidade, em São Manuel, e é acionista da Copersucar - comercializadora de toda a sua produção -, deverá atingir R$ 500 milhões neste ano. Para se ter idéia da trajetória de crescimento, em 2003 sua capacidade de processamento era de 1,5 milhão de toneladas de cana, com produção de 56 mil metros cúbicos (ou 55 milhões de litros) e 125 mil toneladas de açúcar. Hoje, são 3,7 milhões de toneladas de cana que se traduzem em 156 mil m3 (ou 156 milhões de litros) e 230 mil toneladas de açúcar. "Crescemos 150% nos últimos dez anos, sendo 16% da safra passada para esta." Para a próxima década, a São Manuel espera processar 4,1 milhões de toneladas, com a divisão de fabricação de açúcar e álcool a definir, "dependendo dos vários fatores externos, principalmente mercadológicos", afirma Aguiar.
Soraia Abreu Pedrozo