Por Roberto Rodrigues*
A líder do agro no Senado da República, a ex-ministra Tereza Cristina, disse, em evento do agronegócio em São Paulo, na segunda-feira, 6, que “a guerra chegou”, dando assim uma dimensão exata do que representa o “distante” conflito no Oriente Médio para o Brasil em termos econômicos, especialmente para o agronegócio.
Efeitos diretos já são sentidos no preço dos derivados de petróleo, e consequente aumento de custos de produção agrícola.
A atuação incerta do governo americano no conflito (ora ameaçando uma guerra destruidora, ora negociando acordos que liberem o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz) cria uma expectativa preocupante para os produtores rurais brasileiros.
E não faltam previsões de que, mesmo que a paz na região seja restaurada com brevidade, os preços dos combustíveis demorarão para voltar a níveis pré-conflito.
Portanto, o efeito inflacionário deste processo transcende o rural e seguramente afetará igualmente todos os consumidores, rurais e urbanos, que pagarão um “pedágio” pela guerra, sem ter nenhuma responsabilidade por ela.
Mas o buraco é mais embaixo, como dizemos na roça. Na mesma reunião referida acima, um representante do setor de fertilizantes disse que o preço dos produtos obviamente aumentará, mas isso não será o pior. Muito mais grave que os preços será a disponibilidade de fertilizantes para todos os produtores.
Dada a restrição de passagens de navios transportando produtos, surge a possibilidade de que não haverá este insumo fundamental. Em tempo hábil para o sucesso de nossa safra de verão de 2026/27 e até mesmo para as culturas permanentes como café, cítricos e outras frutas, e semipermanentes, como a cana-de-açúcar, o que significa reflexos negativos para a agroindústria.
Certa vez ouvi de um economista rural amigo a expressão “em tempo de guerra não espere notícias boas”.
Talvez esta perspectiva seja mais bem simbolizada pela ideia exposta pelo economista e diplomata Marcos Troyjo, destacado e respeitado estudioso de economia global, que sugeriu até mesmo a alteração do conceito de ESG, elemento fundamental da sustentabilidade.
Com a confusão atual, Troyjo sugere que “E” seja entendido como Economia, “S” como Segurança, e “G, como Geopolítica. Esse critério, embora possa ser uma “brincadeira taxonômica”, dá uma ideia de onde o mundo está metido.
Anteriormente, analisando as consequências da guerra, sugeri que os agricultores “pusessem as barbas de molho”, velha expressão interiorana para ficar alerta. Hoje me atrevo a pedir aumento do volume de molho.
* Roberto Rodrigues é ex-ministro da Agricultura e professor emérito da Fundação Getúlio Vargas