Investimento

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“Arquiteta” de usinas, Katzen aproveita boom do etanol de milho para colher projetos

Em menos de uma década, o mercado brasileiro passou de coadjuvante a protagonista na estratégia de expansão da empresa especializada em projetos de plantas para produção de biocombustíveis


AgFeed - Publicado: 24 Nov 2025 - 11:26 | Atualizado: 24 Nov 2025 - 13:51

Com projetos em andamento, recém finalizados ou previstos de norte a sul do país, a construção de usinas de biocombustíveis fez com que fornecedores globais do setor colocassem uma lupa sobre o mercado brasileiro. Inexpressivo até 2018 nas agendas de executivos, o Brasil inverteu esse cenário especialmente nos últimos cinco anos.

Além de ainda ter um número limitado de empresas e profissionais com o domínio de todos os processos e especificidades dessas indústrias, os altos investimentos justificam esse novo olhar para o país. Cada usina exige, em média, o aporte de R$ 1,3 bilhão.

As cifras que explicam por que algumas das principais referências globais em engenharia de processo para etanol e biorrefinarias têm incrementado suas equipes em busca de negócios por aqui. Exemplo disso é a norte-americana Katzen International, que percebeu cedo o avanço brasileiro no setor e pegou carona nessa expansão.

A companhia tem como especialidade desenhar, do zero, plantas industriais capazes de transformar produtos agrícolas em energia e produtos de alto valor agregado. A expertise está sendo aplicada, por exemplo, na construção da primeira usina de etanol de trigo do Brasil, no Rio Grande do Sul, para a Be8, que já produz biocombustível a partir do milho, na cidade de Passo Fundo (RS).

A companhia norte-americana está entre as referências do setor, direcionando-se para onde a produção de biocombustível a partir de grãos germina e cria raízes. Fundada há mais de meio século em Cincinnati, nos Estados Unidos, a Katzen se concentrou durante duas décadas no hemisfério norte, acompanhando o avanço das usinas de etanol de cereais norte-americanas – e, posteriormente, na Europa e em diferentes continentes.

Nos últimos anos, porém, o epicentro de crescimento da Katzen mudou de coordenadas, para o território brasileiro. “Há dez anos, o Brasil era coadjuvante no nosso portfólio global. Hoje é o maior mercado internacional da Katzen e o mais estratégico em expansão tecnológica”, afirma o gerente global de negócios e responsável pela operação brasileira da companhia, Hugo Morais.

Em cerca de cinco anos, o país passou de um cliente eventual a um dos principais mercados da companhia fora dos Estados Unidos. São 16 plantas projetadas, 13 em operação e três em construção ou fase final de engenharia. As plantas em atividade já respondem, segundo a empresa, por cerca de metade do etanol de milho produzido no Brasil.

Conforme a companhia, a atuação se inicia no design básico – conceitual – e avança para a revisão técnica e suporte de compras (com acompanhamento da seleção de fornecedores e validação dos equipamentos) e o comissionamento e startup (treinamento e suporte operacional até a entrega plena da performance projetada). “Nós somos a inteligência por trás do processo. Nosso compromisso é garantir que a planta opere exatamente como foi desenhada”, explica Morais.

Cada usina projetada pela Katzen é, segundo ele, um sistema industrial vivo, em que nada é isolado. O desenho da planta parte do entendimento da matéria-prima local – no caso brasileiro, o milho – que possui características diferentes das variedades estrangeiras, exigindo ajustes finos que possibilitam o máximo rendimento em conversão de amido em etanol.

Antes de qualquer linha ser traçada, a localização da planta é analisada por completo, seja pelo milho, o clima ou a biotecnologia disponível na região. Os resultados definem o porte dos equipamentos, os parâmetros de operação, a capacidade de destilação e até os consumos de vapor, água e energia elétrica. O resultado é uma usina customizada para operar no limite da eficiência.

A engenharia da Katzen tem como premissa a integração total entre todos os setores e sistemas, compostos por colunas de destilação de alta performance; evaporadores de múltiplo efeito com reaproveitamento de energia; centrifugas, secadores de DDGs (coproduto proteico usado na ração animal) e plantas de óleo de milho, que recuperam cerca de 60% do óleo existente no grão.

O impulso brasileiro na carteira da multinacional

A chegada da Katzen ao Brasil coincidiu com o início da onda de investimentos em etanol de milho. O primeiro grande projeto foi o da Inpasa, em Sinop (MT), em 2018, que hoje se tornou a maior biorrefinaria de etanol de grãos do mundo.

Desde então, a empresa projetou praticamente todas as grandes plantas do setor – em Nova Mutum, Dourados, Sidrolândia e Balsas –, consolidando um parque industrial que já ultrapassa 19 milhões de litros de etanol por dia em capacidade instalada.

A experiência brasileira redesenhou o próprio papel global da Katzen. O que começou como um braço técnico da matriz americana evoluiu para uma operação estratégica, com engenharia bilíngue e o estabelecimento de parcerias com engenharias locais de renome nacional para suporte em campo. Hoje, o Brasil é o maior polo internacional de projetos da empresa, superando inclusive operações históricas na Ásia e Europa.

“O mercado brasileiro é rápido, tecnicamente exigente e aprende com velocidade. As plantas Katzen no Brasil atingiram níveis de performance que não se observam em nenhum outro lugar do mundo”, diz Morais.

A nova geração de projetos desenhados pela Katzen no Brasil vai além do etanol. O conceito agora é de biorrefinarias multiproduto, que utilizam milho, trigo e até resíduos agroindustriais para produzir etanol combustível e industrial, DDGs e óleo para nutrição animal e energia térmica e elétrica a partir da biomassa. Assim, o avanço da companhia é também o retrato de um movimento mais amplo: a verticalização tecnológica.

Hoje, engenheiros brasileiros já participam do desenvolvimento de projetos da companhia em outros continentes – um sinal de que o fluxo de inovação se inverteu. “O Brasil é, mais uma vez, o protagonista mundial da produção de etanol. Aqui, a energia é limpa, de fonte totalmente renovável, e que abastece a única frota no mundo capaz de operar exclusivamente com 100% etanol”, resume Morais.

Thiago Copetti