O mercado de açúcar em NY continua sua narrativa de altos e baixos, de surpresas e reviravoltas, com momentos de entusiasmo e pânico. Os comprados querendo liquidar quando o mercado cai, com medo de que caia ainda mais e aumente o prejuízo, os vendidos entrando para cobrir posição quando novos picos de alta são atingidos. Uma mistura de torre de babel com a odisseia sem fim de Cândido, de Voltaire. Não me parece que esse estado de coisas vá se alterar tão cedo.
Toda essa indefinição – que demanda dos participantes boa dose de Rivotril – ocorre, segundo alguns, ora devido ao número de moagem do Centro-Sul, ora devido à instabilidade dos números pipocados de Tailândia e Índia, ora porque os fundos não-indexados estão comprando de maneira irracional (bateram novo recorde agora com quase 250.000 contratos). Escolha a melhor desculpa. Falamos mais a seguir.
As previsões de várias consultorias compiladas e publicadas pelo novaCana retratam bem como diferentes perspectivas afetam percepções da trajetória de preço. Onze consultorias apresentam previsões de moagem que vão de 590 até 640 milhões de toneladas, ou 50 milhões de toneladas de diferença (a média é de 622, com a Archer em 618.5 milhões de toneladas).
As estimativas de produção de açúcar no Centro-Sul oscilam entre 33.2 e 35.1 milhões de toneladas, ou seja, 1.9 milhão de toneladas. Na média, apostam em 34.3 milhões de toneladas (a Archer é 34.4). E a previsão de produção de etanol varia entre 24.8 e 29.5 bilhões de litros, ou “apenas” 4.7 bilhões de litros de diferença. Na média, as consultorias estimam que será de 27.8 bilhões de litros (a Archer prevê 27.5). Se com todos os dados muito bem esmiuçados que possuímos no Centro-Sul não existe consenso sobre produção de cana, num universo de – segundo dizem – 78.000 produtores de cana, como alguém pode ter a palavra final sobre o que vai ocorrer na Índia que deve ter 35 milhões de produtores?
O fato concreto é que a volatilidade do mercado tem subido bastante e a demanda por proteção também. Veja, por exemplo, a curva da volatilidade das puts (opções de venda) e das calls (opções de compra) fora do dinheiro (aquelas opções cujo preço de exercício está acima do mercado, no caso das calls, ou abaixo do mercado, no caso das puts). Em tese, considerando o mercado de março/2017 a 17.37 centavos de dólar por libra-peso, o prêmio da put de 16.00 deveria ter valor muito próximo à call de 18.75 já que ambas estão equidistantes do fechamento do mercado. Que nada! Se alguém quiser comprar uma call (opção de compra) com o dinheiro da venda de uma put (opção de venda) de 16.00 terá que se contentar com um preço de exercício muito acima dos 18.75, isto é, 22 centavos de dólar por libra-peso. Resumindo essa conversa de nerd, a aposta do mercado neste momento é definitivamente de alta, não há dúvidas disso. Se vai ou não ocorrer, é outra história.
Nesta semana, a volatilidade anualizada dos três primeiros vencimentos de NY subiu de 0,9% a 2,4%. Isso representa um acréscimo do prêmio pago para obter proteção contra o risco de oscilação de preços entre US$ 1,00 e US$ 1,40 por tonelada para os preços de exercício mais próximos do mercado. Os fundos estão ganhando dinheiro.
O mercado futuro em NY fechou a sexta-feira cotado a 16,74 centavos de dólar por libra-peso: 100 pontos de ganho em relação à sexta-feira anterior. Quando dissemos aqui que o Março/2017 iria alcançar 17 centavos de dólar por libra-peso recebemos um e-mail de um simpatizante dizendo que éramos “doidos”. Os demais meses de vencimento fecharam com variações positivas de 90 a 18 pontos, ou de 20 a 4 dólares por tonelada, maior para quanto mais curto for o vencimento.
O modelo da Archer de previsão de preços, baseado nas correlações entre os preços médios de cada mês negociado analisando os dados dos últimos 16 anos. Muitas dessas correlações estão acima de 0,9700. No entanto, quanto mais alongada for a curva de preços, menor fica a correlação. Por exemplo, o preço médio de maio tem uma aderência ao preço médio de abril em 0,9799, o de junho ao de maio em 0,9755, o de julho ao de junho em 0,9891, e assim sucessivamente até dezembro quando o produto dessas multiplicações chega a 0,8618, ou seja, em tese, o preço de dezembro depende 86% na sua formação do preço de maio. O modelo diz que os preços médios devem se manter basicamente inalterados nos meses de maio e junho com ligeira recuperação em julho (uma variação positiva de 50 pontos). Para o mês de outubro (que vai refletir o contrato de março 2017) o modelo indica preços acima de 19 centavos de dólar por libra-peso.
Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting