Açúcar: Mercado

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Arnaldo Corrêa: Alta de preços no futuro precisa de reação no físico para consolidar


Archer Consulting - Publicado: 07 Mar 2016 - 08:20

O mercado futuro de açúcar em NY fechou a semana em espetacular alta motivada por uma releitura dos fundamentos que permeiam a commodity. As chuvas que atingem as regiões produtoras acenderam uma luz amarela alertando que pode haver atraso no início da moagem da safra 2016/2017 e a produção de açúcar no Centro-Sul pode não ser aquela que o mercado tem trabalhado.

Antes de os produtores se entusiasmarem pela recente trajetória altista dos preços é necessário que observem dois pontos importantes que precisam ocorrer para que o mercado físico de açúcar corresponda de maneira satisfatória às expectativas que estão refletidas no mercado futuro.

O primeiro é o comportamento do spread maio/julho e julho/outubro: quanto mais fortalecidos os spreads se comportarem maior é a indicação de que as tradings se preocupam com uma eventual falta de disponibilidade de açúcar para abril e maio e compram os spreads para tentar lucrar no papel ou trazem seus hedges dos meses com vencimentos mais longos para os vencimentos mais curtos e lucrarem com isso.

Segundo, é observar o comportamento dos prêmios/descontos no físico (açúcar para embarque em abril/maio/junho). A melhora do prêmio/desconto indica que o comprador final está preocupado com o atraso da safra e paga mais para não correr o risco de desabastecimento. Se esses dois componentes andarem nessa direção, a tendência do mercado futuro e potencializar isso.

Os fundos voltaram a ficar comprados em cerca de 70-75 mil lotes. Parece-me que quando o mercado chegou aos 12-13 centavos de dólar por libra-peso alguém deve ter apontado os lápis e calculado que o potencial de cada a partir daquele nível era infinitamente menor se comparado com o potencial de alta.

As valorizações do real e do petróleo na semana acabam tendo efeito neutro na formação de preço da gasolina. Como o preço médio do combustível na bomba, com base em 100 países, está em US$ 0.95 por litro, o preço de equilíbrio do hidratado na bomba, usando esse parâmetro seria de R$ 2.3265 por litro, abaixo do preço atual. Evidente que isso pode exercer pressão para que as usinas priorizem a produção de açúcar.

Para o mercado FOB do açúcar, a valorização do real, no entanto, pode fazer com que as usinas se retraiam para a venda de novos contratos comerciais. Baseando-se no fechamento de sexta-feira, o vencimento maio, encerrado a 14,83 centavos de dólar por libra-peso com o dólar a 3,761 representa uma fixação do açúcar para aquela data de R$ 1,279 por tonelada, ou seja, praticamente o mesmo preço da semana anterior com dólar a R$ 3,99 e com NY quase 100 pontos mais barato. Ou seja, podemos esperar a volta da correlação negativa se o real continuar a se valorizar frente à moeda americana? Se voltar para 3,50 NY pode ir para 16 centavos de dólar por libra-peso?

Falando um pouco da estimativa de safra 2016/2017, a estimativa da Archer é de 618,5 milhões de toneladas no Centro-Sul, divididas entre 34,3 milhões de toneladas de açúcar e 27,5 bilhões de litros de etanol. Essa quantidade de cana é aproximadamente 3% maior do que aquela moída na safra passada. No entanto, quando falamos de ATR (açúcares totais recuperáveis) este será o quarto ano seguido de menor produção de ATR: 83 milhões de toneladas, contra 84 milhões na safra passada, 86,7 milhões de toneladas na 2014/2015 e 87,4 milhões de toneladas na 2013/2014.

Para um produtor que vai precisar aumentar a produção de cana em 100 milhões de toneladas para os próximos cinco anos, esse número preocupa e torna evidente que os próximos anos do mercado de açúcar deverão ser extremamente voláteis e sujeitos à extrema oscilação de preços em função de um evidente desequilíbrio entre a produção e consumo mundiais, que crescem ao ritmo de 1,8% e 2,2% respectivamente, sobremaneira com a condição do Brasil que não vê incremento substancial em seus canaviais.

Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting