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Antes de demissão, Coelho alertou para risco de faltar diesel no auge da colheita de soja


Reuters - Publicado: 25 Mai 2022 - 08:32 | Atualizado: 25 Mai 2022 - 09:49

Pouco antes de ser demitido da presidência da Petrobras, José Mauro Ferreira Coelho apresentou ao Ministério de Minas e Energia (MME) um documento em que alerta sobre o risco de faltar diesel no país no auge da colheita de soja se não houver uma sinalização clara de que os preços internos seguirão as cotações internacionais.

Sob o título de “Combustíveis: desafios e soluções”, a apresentação data de maio de 2022 e alerta que no terceiro trimestre há um aumento sazonal na demanda por diesel no Brasil e nos EUA, e o mercado internacional vive hoje a menor oferta do produto em 14 anos.

“Sem sinalização de que os preços de mercado serão mantidos adiante, há um risco concreto de escassez de diesel no auge da demanda, durante a temporada de colheita, afetando o PIB do Brasil”, diz o documento.

“Os estoques globais de diesel estão bem abaixo da média histórica. A Petrobras sozinha não pode resolver a alta global nos preços de energia”, afirma a apresentação.

Escassez de combustível

O ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, procurou analistas do mercado na última sexta-feira, 20, para perguntar sobre os riscos de uma escassez de diesel no segundo semestre, segundo pessoas próximas a esses executivos. Procurado, o ministério não comentou.

“Se a Petrobras parar de vender o diesel a preços internacionais por mais de duas ou três semanas, há o risco de as bombas secarem”, afirma um executivo de uma grande produtora de diesel.

Os estoques globais do combustível se tornaram grande fonte de preocupação após a escalada de sanções ocidentais à Rússia pela invasão da Ucrânia.

Muitas refinarias americanas, que são importantes fornecedoras para o Brasil, começaram a redirecionar seus embarques de diesel para a Europa, segundo dois executivos a par do assunto, o que ampliou o risco de uma escassez no mercado brasileiro.

O Brasil normalmente faz em junho suas encomendas do diesel a ser usado no período de agosto a setembro, quando ocorre a colheita de soja e o grão precisa chegar aos portos por meio de longas rotas rodoviárias.

Outros fornecedores

A Petrobras tem buscado outros fornecedores, na África Ocidental ou na Índia. Mas enquanto o diesel que vem das refinarias americanas do Golfo do México leva entre duas a três semanas para chegar no Brasil, uma carga da Índia demora entre 45 e 60 dias.

“Se as refinarias americanas sofrerem algum contratempo, como uma avaria durante a temporada de furacões, ou qualquer outro fator tornar o mercado ainda mais apertado (ou seja, com menos oferta), podemos ficar realmente em apuros”, disse um executivo da Petrobras.

Os estoques de diesel no Brasil são suficientes para atender a, no máximo, um mês da demanda doméstica. Na Petrobras, os estoques estão atualmente em metade de sua capacidade, segundo fontes próximas a companhia.

Na apresentação levada ao Ministério de Minas e Energia, os executivos da Petrobras – que, pelo estatuto da empresa, são impedidos de vender combustíveis a preços abaixo do mercado sem compensação – sugeriram que o governo deveria reduzir impostos ou subsidiar os combustíveis para os consumidores, citando o exemplo de vários países europeus que adotaram medidas similares.

Em 2018, logo após a greve dos caminhoneiros, o presidente Michel Temer criou um programa de subsídios temporários que custou cerca de R$ 7,5 bilhões. O custo de uma medida similar este ano poderia superar R$ 60 bilhões, estimou um analista próximo às discussões.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, o preço do petróleo está no seu patamar mais alto dos últimos 14 anos. Este mês, diante da escassez de diesel no mercado internacional, muitos traders tiveram que pagar um ágio de mais de U$ 50 por barril.