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A ameaça do gás de xisto para o mercado de etanol

gas-xisto-extracao-060813Até que ponto o gás de xisto pode impactar o mercado de etanol? Veja a seguir a opinião de especialistas sobre o assunto
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Se há pouco tempo as políticas públicas dominavam as discussões sobre as incertezas para o etanol, desde que o mundo começou a ter conhecimento da dimensão dos impactos do gás de xisto, ficou claro que o setor sucroenergético precisaria conhecer melhor os desdobramentos da produção e uso deste gás.

Para entender melhor como o setor de etanol deve ser impactado pela alternativa fóssil, o portal NovaCana retoma comentários e preocupações de importantes personalidades nacionais e internacionais ligadas ao setor sucroenergético.

Além disso, a reportagem apresenta as expectativas do governo em relação à exploração do gás não convencional no Brasil e a leitura da experiência norte-americana.

A reportagem está disponível apenas para os assinantes, mas alguns trechos foram disponibilizados abaixo:
"A menos que o etanol faça concorrência, talvez tenhamos uma onda ou um tsunami de investimentos no gás natural, que é muito barato nos EUA. Para mim, o risco é não ter uma próxima geração do etanol que possa competir por preço com o gás de xisto e com o petróleo no médio prazo"
Carlos Gutierre, ex-secretário do Comércio dos EUA

"Três anos atrás se apostava que havia chegado a vez dos combustíveis renováveis, mas agora parece que não.  Parece que agora é a era de ouro do gás natural e que este terceiro grande ciclo da economia mundial, novamente, vai se dar em cima de uma fonte fóssil"
Adriano Pires, do CBIE

"O trabalho nosso [do setor sucroalcooleiro] hoje é a aumentar a produção, reduzir custos e aceitar essas novas tecnologias"
Joel Velasco, vice-presidente da Amyris

Se há pouco tempo as políticas públicas dominavam as discussões sobre as incertezas para o etanol, desde que o mundo começou a ter conhecimento da dimensão dos impactos do gás de xisto, ficou claro que o setor sucroenergético precisaria conhecer melhor os desdobramentos da produção e uso deste gás.

Para entender melhor como o setor de etanol deve ser impactado pela alternativa fóssil, o portal NovaCana retoma comentários e preocupações de importantes personalidades nacionais e internacionais que estiveram presentes no último Ethanol Summit.  As dúvidas e preocupações geradas a partir da exploração vertiginosa de mais um combustível fóssil vieram à tona no evento, realizado no final de junho.

A reportagem também apresenta dados obtidos a partir de um diagnóstico elaborado pelo BNDES. Publicado na revista setorial do banco, o trabalho, com cerca de 50 páginas, revela as expectativas em relação à exploração do gás não convencional no Brasil e a leitura que o governo faz da experiência norte-americana.

Mas até que ponto os gases não convencionais podem ser considerado um adversário? Os profissionais divergiram sobre o assunto, mas boa parte concorda que o gás de xisto é o vetor de uma nova revolução energética, que, se não põe em xeque a viabilidade dos biocombustíveis, no mínimo coloca em questão, mais uma vez, a primazia de um combustível fóssil quando se acreditava que o futuro em termos de energia seria verde.

Uma pedra no caminho?

Para o ex-secretário do Comércio dos EUA, Carlos Gutierrez, que atuou durante o governo Bush, o gás será um agente de uma "enorme revolução" e potencial ameaça ao etanol. Gutierrez aposta no etanol de segunda geração para o futuro próximo, mas ponderou que é preciso agir rápido, porque o gás surge como uma nova alternativa muito barata para os norte-americanos. Segundo ele, a questão fundamental será o custo, e, nesse sentido, a descoberta das reservas de óleo e gás norte-americanas traz mais um grande desafio. "Isso vai causar uma revolução não apenas na América do Norte", alertou.

"Se o governo nos der liberdade total para explorar o gás de xisto, talvez tenhamos caminhões e ônibus de curta distância com gás natural. Precisaremos ter um sistema nacional de gasodutos e ajustar todo o posto de gasolina para poder fornecer este gás, um grande catalisador para crescimento. A menos que o etanol faça concorrência, talvez tenhamos uma onda ou um tsunami de investimentos no gás natural, que é muito barato nos EUA. Para mim, o risco é não ter uma próxima geração do etanol que possa competir por preço com o gás de xisto e com o petróleo no médio prazo", analisou o ex-secretário.

De acordo com os dados do BNDES, a produção de gás de xisto nos EUA cresceu cerca de 45% ao ano de 2005 a 2010, quando atingiu 141 bilhões de metros cúbicos (bcm). Embora a exploração tenha iniciado há algumas décadas, a produção comercial se viabilizou só com a entrada de novas tecnologias que permitiram o faturamento hidráulico e a perfuração horizontal.

O gás de xisto é produzido a partir de rochas finas tradicionalmente consideradas incapazes de expelir volumes comerciais de hidrocarbonetos, por isso classificado como gás não convencional. Embora venha sendo traduzido como gás de xisto, o BNDES afirma que a tradução mais correta é gás de folhelho, que corresponde à rocha de que é originário.

Uma de muitas revoluções

O presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, foi quem se mostrou mais preocupado. Além de frisar a corrosão ao setor de etanol provocada pelo governo brasileiro, com a retirada da CIDE da gasolina e precificação artificial da gasolina, ele foi incisivo sobre a "nova revolução". "Três anos atrás se apostava que havia chegado a vez dos combustíveis renováveis, mas agora parece que não.  Parece que agora é a era de ouro do gás natural e que este terceiro grande ciclo da economia mundial, novamente, vai se dar em cima de uma fonte fóssil – como foi a Revolução Industrial inglesa em cima do carvão, como foram os trinta anos gloriosos da economia mundial com o petróleo e agora seria a vez do gás natural, com a revolução americana", afirmou o presidente CBIE.

Já Joel Velasco, vice-presidente da Amyris, empresa que está tentando produzir diesel de cana a preços competitivos, minimizou a questão. Para ele esta não é a primeira, nem será a última "revolução" a impactar o mercado de energia. "No [Ethanol] Summit de dois anos atrás ninguém teria falado que o gás natural nos EUA ia fazer uma revolução, hoje esta revolução existe e, não tenho dúvida nenhuma, teremos outras revoluções que no próximo Summit estaremos discutindo. O trabalho nosso hoje é a aumentar a produção, reduzir custos e aceitar essas novas tecnologias", opinou.

Sem refutar a repercussão do gás de xisto, o executivo da Amyris acredita que os combustíveis tradicionais e renováveis continuarão tendo seu papel. "Para muitas coisas você tem outra opção – tem carro elétrico em alguns lugares, dá para usar energia solar para casas –, mas no final das contas vai precisar de combustível líquido: aí entra etanol, biodiesel e uma série de outros produtos". Ele insistiu que a preocupação do setor deve ser aumentar a eficiência.

Ameaça subestimada

O economista e consultor José Roberto Mendonça de Barros analisou que o gás natural a baixo custo muda a perspectiva para o etanol e leva a "repensar as perspectivas de médio prazo" no mercado internacional. O argumento chave do economista é que a revolução do gás de xisto tende a se espalhar com a exploração de reservas em outros países, enquanto a produção de biocombustível ainda é localizada no Brasil e EUA. "A geologia não conhece fronteira", ressaltou.

O presidente da Petrobras Biocombustíveis, Miguel Rosseto, apesar de concordar que o gás muda a matriz mundial, defendeu que os biocombustíveis fazem parte de uma agenda mundial definitiva. "A grande aposta para substituir os combustíveis fósseis era a energia nuclear, até três anos atrás com Fukushima. Por uma fatalidade a matriz nuclear entra em baixa e logo em seguida aparece o gás de xisto, que é uma grande potencialidade e que terá o seu papel, como o petróleo e o carvão continuam tendo seu papel e como as energias renováveis terão o seu papel", argumentou.

Para Barros, o gás natural não convencional já emplacou e parece estar sendo subestimado por outros setores energéticos. "O volume de investimentos que já foi feito nessa direção e o que se tem de conhecimento ambiental tornam esse combustível definitivo".  A ameaça não está restrita apenas para o setor de etanol e outras energias limpas, mesmo a exploração de petroquímico brasileiro está sendo impactado pelas mudanças. "Não tem condições de pagar US$ 17 dólares o milhão de BTU (British Thermal Units) em Camaçari [Bahia] e US$ 3 nos Estados Unidos", comparou sobre o custo para a extração de gás.

Como pensa o BNDES

O país com a maior reserva de gás do planeta é a China, seguida pelos EUA e Argentina, enquanto o Brasil ocupa a décima colocação. "O desenvolvimento da produção de gás de xisto em outras regiões vai depender de como esses países enxergam suas necessidades ambientais e de segurança energética e de como seus governos criarão políticas de incentivo à produção e coordenarão o estabelecimento da infraestrutura necessária", opina o BNDES.

Embora os EUA vivam um momento de euforia com o gás não convencional, outros países adotaram posturas bem mais conservadoras em virtude do que consideram inseguranças ambientais. A França baniu a atividade de fraturamento de seu território e em outros países da Europa existe uma tensão da opinião pública nesse sentido. Mesmo no território norte-americano há algumas restrições localizadas, já que os ambientalistas do país que inicialmente apoiaram a atividade, agora se preocupam com impactos a exemplo de eventuais alterações na qualidade da água e comprovada ocorrência de atividades sísmicas de pequena escala.

Na avaliação do BNDES, o impacto ambiental das técnicas de produção de gás de xisto, especialmente da fratura hidráulica, tem sido questionado pela opinião pública norte-americana e pode levar a uma nova regulação, elevando os custos de produção. "A possibilidade de causar tremores na terra, o grande uso de água no processo e a possibilidade de contaminação dos lençóis freáticos levam os órgãos reguladores da indústria a criar normas cada vez mais rígidas, buscando minimizar o risco de tais impactos", diz o documento.

Sobre o custo de produção do gás de xisto, o relatório pontua que os poços apresentam taxa de declínio muito acelerada, de 63% a 85% no primeiro ano de produção. Essa característica exige um esforço exploratório elevado e contínuo em novos poços para manter ou ampliar a produção, o que não acontece em projetos convencionais.

Embora o gás venha sendo apontado como uma alternativa vantajosa para reduzir a emissão de gás carbônico em relação ao carvão, que é largamente utilizado nos EUA, o BNDES ressalta "que o processo de produção e entrega do gás natural é emissor de gás metano na atmosfera. O metano também é causador do efeito estufa, sendo até mais agressivo para o aquecimento global".

A respeito da origem da demanda por gás nos EUA, o relatório considera que há diferentes projeções. Contudo, as análises convergem para o fato de que a maior parte da variação na demanda de gás nos Estados Unidos deverá vir do setor elétrico para substituição das térmicas a carvão, em virtude de regulações ambientais.

No setor de transporte o uso ainda é bastante restrito. Mesmo com incentivos para a transformação da frota de veículos diesel para gás natural, a transformação da frota esbarra nos custos de conversão dos veículos, na necessidade de se estabelecer infraestrutura para o gás natural comprimido (GNC) e no poder calorífero insuficiente do gás para veículos de grande porte.

Shale gas no Brasil

De acordo com o BNDES, as reservas provadas totais de gás natural – convencional e não convencional – do Brasil totalizam 459,4 bilhões de metros cúbicos e estão localizadas majoritariamente no mar. Os estados do Rio de Janeiro, do Espírito Santo e de São Paulo concentram 76,9% das reservas provadas, sendo que a maioria delas está associada ao petróleo. Os mapeamentos existentes apontam cinco bacias com perspectivas de terem recursos não convencionais: a Bacia do Parnaíba, do Parecis, do São Francisco, do Paraná e do Recôncavo. A atividade já se iniciou na parte mineira da Bacia do São Francisco, onde foram concedidos 39 blocos exploratórios.

O banco não faz uma conclusão assertiva, mas oferece "pontos para reflexão" que indicam a necessidade conhecer melhor o potencial produtivo e econômico no Brasil. Além disso, são feitas ressalvas entre o cenário nacional e norte-americano. A instituição destaca que os mercados são "bastante distintos, abarcando peculiaridades que devem ser observadas para se avaliarem reais possibilidades e impactos da produção desse gás não convencional no Brasil". Desde a regulação sobre os blocos exploratórios, passando pelo limitado sistema de gasodutos, até as características geológicas das reservas oferecem perspectivas bastante diversas das vivenciadas pelos EUA.

A publicação completa do BNDES pode ser acessada aqui.

Veja no vídeo a seguir detalhes sobre a exploração da rocha para extração do gás:



Amanda SchArr – NovaCana
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