Novamente na mira de tarifas impostas pelo governo Donald Trump, o Brasil acumula um déficit de US$ 144 bilhões (R$ 734 bilhões) em quatro décadas de comércio de bens com os Estados Unidos. Ou seja, a balança entre os dois parceiros favorece Washington, que registrou saldo positivo em 26 dos 41 anos da série histórica disponibilizada pelo Departamento do Censo dos EUA.
Ao incluir bens e serviços, os EUA chegaram a lucrar US$ 480 bilhões (R$ 2,4 trilhões) com o Brasil entre 2000 e 2025, mostram dados do Departamento de Análise Econômica (BEA) dos EUA, o que não impediu a imposição de uma nova tarifa de 25% contra as exportações brasileiras ou de uma taxa de 12,5% por suposta falha no combate ao trabalho escravo.
Questionado durante sabatina no Senado americano sobre esse desequilíbrio que favorece os americanos, o indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, reconheceu nesta semana que seu país mantém um superávit expressivo.
Contudo, evitou justificar a nova sanção. “Essa tarifa foi implementada quando eu estava dormindo. Vou me informar melhor nas próximas semanas”, afirmou.
Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), também contornou o argumento de que o superávit americano deslegitimaria a medida tomada por seu órgão.
“Temos superávit nessa relação. Mas há muitas barreiras aos Estados Unidos, sejam tarifárias, regulatórias ou não tarifárias”, disse ao Atlantic Council em dezembro do ano passado.
As declarações das autoridades são sintoma da evolução das trocas entre os dois países ao longo do último século, uma relação marcada por oscilações e que se tornou mais intensa nas últimas quatro décadas.
“Essas oscilações independem, do lado americano, de ser um governo democrata ou republicano. O que elas vão levar em conta é o nível de autonomia do Brasil”, diz a cientista política e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Cristina Pecequilo.
“Porque o Brasil, sendo autônomo e não se alinhando com os Estados Unidos, vai buscar muitas vezes objetivos de reforma da ordem mundial e também um reposicionamento regional. E isso afeta o interesse americano”, continua.
Entre 1985 e 1995, por exemplo, Brasília chegou a registrar saldos positivos nas trocas comerciais com os EUA. O cenário muda gradualmente durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, período marcado pela ampliação das compras de aeronaves, veículos, equipamentos eletrônicos e aparelhos de telecomunicações americanos.
A balança comercial passa então a alternar momentos de superávit e déficit nos anos seguintes. O Brasil retoma vantagem em 2002 e atinge um lucro recorde em 2005, impulsionado pelas vendas de minério de ferro, ouro, petróleo e café.
A inflexão definitiva ocorre em 2008, ano da crise financeira americana. Desde então, os Estados Unidos não voltaram a registrar déficit no comércio de bens com o Brasil. O saldo positivo alcançou recordes de US$ 16,5 bilhões (R$ 81 bilhões) em 2014 e de US$ 15,75 bilhões (R$ 80 bilhões) em 2021, considerados valores nominais.
O padrão se repete nos últimos dois anos. Em 2025, o déficit brasileiro chegou a US$ 14,4 bilhões (R$ 73,4 bilhões), mais que o dobro do ano anterior.
Já no setor de serviços, a balança favorece os americanos ao menos desde 1999. Em valores nominais, 2025 marcou o maior superávit dos EUA dos últimos 26 anos: foram US$ 27,4 bilhões (R$ 139 bilhões) obtidos com o mercado brasileiro.
Os dados para 2026, considerados apenas cinco meses, indicam que este ano os valores devem ser ainda maiores. Se considerado o mês de maio, o país se tornou o sexto maior gerador de superávit para os Estados Unidos.
Ainda assim, o Brasil figura como o segundo parceiro comercial mais taxado pela Casa Branca, com tarifa média de 18,2%, atrás apenas da China.
“A balança comercial, assim como o comércio exterior, não se trata somente do produto em si. Não é sobre os bens, mas sobre os ganhos relativos dessa relação comercial”, afirma o economista Tomás Marques, pesquisador do German Institute for Global and Area Studies (Giga), em Hamburgo.
Para o pesquisador, o superávit dos EUA mostra que as tarifas não visam corrigir um déficit inexistente, mas reorientar os fluxos comerciais em meio à perda de competitividade de Washington em vários setores, como o de tecnologia.
“Os percentuais [tarifários] são arbitrários. O objetivo é mexer no jogo e renegociar a partir da posição dos Estados Unidos como grande importador. Tarifas e comércio exterior são instrumentos para tentar reorganizar a indústria e recuperar competitividade”, completa.
Isso se traduz na lista de exceções elaborada pelo USTR, por exemplo, que inclui cerca de 2,1 mil itens, como commodities agrícolas, minerais e metais. Trata-se de produtos cuja demanda interna os EUA não conseguem suprir e que não têm relação com as práticas sob investigação.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, isso faz com que apenas 18% das exportações destinadas aos Estados Unidos sejam efetivamente atingidas pela nova medida.
“O comércio é o que está menos em jogo”, diz Pecequilo, da Unifesp. “Os Estados Unidos usam o ambiente comercial para pressionar o Brasil em outros setores. Conter o Brasil no campo dos organismos multilaterais, das alianças de geometria variável com os outros países emergentes”.
Segundo ela, disputas políticas também alimentam as sanções.
A justificativa apresentada pelo USTR para taxar o Brasil também é representativa dessa equação. Na investigação contra práticas brasileiras, o escritório cita temas que extrapolam o comércio de mercadorias e a balança comercial. Entre eles, o sistema de pagamentos Pix, a regulação das plataformas digitais e questões ligadas à corrupção.
Já entre os produtos, parte das disputas alfandegárias recai sobre automóveis, autopeças e minerais. Na avaliação americana, acordos firmados pelo Brasil favorecem concorrentes como México e Índia, por exemplo.
Mas é o etanol concentra maior esforço da investigação americana. O USTR acusa o Brasil de interromper seu tratamento tarifário especial ao combustível importado dos EUA em 2017. As importações só voltaram a crescer em 2023.
Nas contribuições enviadas durante a consulta pública, representantes da indústria americana defendem que a tarifa de 25% ajuda a recuperar participação de mercado perdida ao longo dos últimos anos. Com outras tarifas genéricas acumuladas, o etanol brasileiro deve entrar nos EUA com taxas acima de 30%.
Para o historiador e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing, Leonardo Trevisan, o etanol é parte de um problema mais amplo. “Eles gostariam de entrar aqui no Brasil, que é um consumidor forte de etanol, mas [o problema] não é o etanol. O ‘xis’ da história é o brutal crescimento do agronegócio brasileiro”, diz.
“A agricultura norte-americana está sentindo fortemente a concorrência da agricultura brasileira. Nos Estados Unidos, isso tem um peso político enorme”, conclui.
Em entrevista ao Atlantic Council, o chefe do USTR, Jamieson Greer, não escondeu esse interesse. “Eles [Brasil] são concorrentes dos Estados Unidos, especialmente na agricultura. Sempre que tentamos vender nossas commodities no exterior, competimos com os brasileiros”, disse.
Especialistas também contestam a crítica à abertura comercial brasileira para outros mercados. Com a ascensão da China e outros parceiros dos Brics nas cadeias globais de valor, alguns segmentos passaram a competir com áreas tradicionalmente dominadas por americanos e europeus. No caso brasileiro, porém, o aumento das exportações ocorreu para diferentes destinos.
“Não houve substituição dos Estados Unidos pela China. Houve crescimento dos dois lados”, afirma Tomás Marques. Dados do Banco Central mostram que quase um terço de todo o capital estrangeiro investido no Brasil tem origem americana.
Para os especialistas, o nível de vulnerabilidade do Brasil nas negociações é maior, mas ambos saem prejudicados com as sanções. “O Estado brasileiro não tem uma capacidade ampla de barganha com os Estados Unidos”, destaca Marques, considerando amplo controle da economia brasileira por empresas estadunidenses.
Por outro lado, o país é atualmente o principal fornecedor de pelo menos 11 produtos para o mercado americano, destaca Trevisan.
“Esse ponto é essencial para entender essa relação. O Brasil compõe cadeias produtivas integradas. São produtos que começam a ser feitos aqui, porque têm uma série de vantagens, e terminam lá. São 6 mil empresas americanas que têm essa relação com o Brasil, algumas delas imensas”, conclui.
Pecequilo, por sua vez, questiona: “Quem vai resistir mais? Os Estados Unidos, do ponto de vista interno, têm um custo alto ao perder um parceiro importante com o qual mantêm superávit e ao aumentar a autonomia política e econômica do Brasil”. Mas, para ela, o impacto no mercado brasileiro também é evidente.
Gustavo Queiroz