Financeiro

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Alvo de operação contra o PCC, Furlan deve R$ 550 milhões e busca recuperação judicial

Do montante, R$ 215,8 milhões serão negociados por meio do processo; um dos credores também está envolvido em investigações


Liberal (SP) - Publicado: 22 Set 2025 - 09:23

Alvo da operação Carbono Oculto no último dia 28, que buscou desmantelar ilegalidades no setor de combustíveis lideradas por um grupo que teria relação com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), a usina Furlan tem uma dívida total de R$ 550,9 milhões e tentará negociar parte desse valor em um processo de recuperação judicial.

A informação consta na relação de credores da empresa, que tem sede administrativa em Santa Bárbara d’Oeste e operações em Avaré (SP).

Ainda no documento, é apontado um débito de R$ 45,7 milhões com a usina Itajobi, que também foi alvo da Carbono Oculto, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP).

Segundo investigação do órgão estadual, a companhia de Itajobi – município localizado na região de Catanduva – foi adquirida pela organização criminosa.

Conforme o Liberal noticiou no último dia 16, com base em uma ação que tramita na 2ª Vara Criminal de Catanduva, o Gaeco apurou que o grupo vinculado ao PCC é liderado pelos empresários Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”.

A investigação levantou que Mourad e Silva compraram usinas em dificuldades financeiras após a crise do setor na década passada. Outras foram apenas cooptadas para fins de lavagem de dinheiro e esquema de fraude fiscal, no qual, de acordo com o Gaeco, os “preços dos insumos são inflados artificialmente para sonegar impostos e obter créditos indevidos”.

Segundo o órgão estadual, a aquisição formal da usina Furlan “pelo grupo de Mohamad não foi inicialmente comprovada. No entanto, foram encontrados diversos elementos conectivos que indicam que sua gestão pode estar associada ou em processo de aquisição pelo grupo investigado”.

Entre os elementos citados pelo Gaeco, está o recebimento de R$ 8,5 milhões, transferidos pela distribuidora de combustíveis Duvale, que faz parte da organização de Mourad. Há suspeita de lavagem de dinheiro. A empresa também está sendo investigada por praticar, a partir de 2022, sobrepreço na compra de cana-de-açúcar.

Outro ponto em comum com as usinas investigadas se refere às dificuldades financeiras. No caso da usina Furlan, essa situação é comprovada pelo pedido de recuperação judicial, oficializado na Justiça em 20 de maio deste ano junto a outras duas companhias do Grupo Furlan: a Agropecuária Furlan e a Agro Nova Geração.

Dívidas

A relação de credores mostra que o conglomerado tem R$ 550,9 milhões em dívidas, entre trabalhistas, garantias rurais, quirografárias e empresariais. Do montante, R$ 215,8 milhões serão negociados por meio do processo, com propostas de parcelamento de até 15 vezes e possibilidade de deságio (desconto nos débitos) de até 90%.

Os outros R$ 335,1 milhões são dívidas extraconcursais, ou seja, não entrarão no certame, mas deverão ser pagos com prioridade, antes de os credores da recuperação judicial começarem a receber.

Ao Liberal, o Grupo Furlan disse que optou pela recuperação judicial para “equilibrar um passivo significativo que se acumulou ao longo dos últimos anos, tendo como principal origem a crise no setor sucroalcooleiro derivada, sobretudo, de queda do preço do açúcar, alterações climáticas e fatores externos que levaram ao aumento dos custos de produção agrícola”.

“Esta decisão foi tomada com o objetivo de garantir a continuidade das operações e a preservação dos empregos, além de buscar uma solução mais estruturada e eficiente para regularizar as obrigações financeiras do Grupo Furlan”, completou.

Ainda de acordo com a companhia, o processo está seguindo o seu trâmite legal e em breve serão realizadas as assembleias, nas quais os credores poderão discutir o plano de pagamento e escolher a melhor forma de receber os valores.

Já sobre a investigação do Gaeco, a usina afirmou que não foi vendida e nem sofreu qualquer “influência direta ou indireta de terceiros ao longo de sua existência”.

Dentro da recuperação judicial, é colocado que a usina Furlan tem uma dívida extraconcursal de R$ 45,7 milhões com a usina Itajobi, de natureza CPR (Cédula de Produto Rural). Isso significa que a empresa de Santa Bárbara deverá entregar produtos rurais equivalentes ao montante devido.

Na apuração do Gaeco, a Furlan mantém relacionamento com a Itajobi. Além disso, o órgão estadual apurou que a Itajobi foi comprada por Mourad por meio da FIDC Mabruk II. O suspeito teria se comprometido “a quitar dívidas e indenizar as propriedades arrendadas” pela usina Itajobi em troca de “assumir 100% da posição societária”.

Foram apuradas diversas práticas ilegais da usina Itajobi, entre elas movimentações financeiras sem lastro e sobrepreço na compra de cana-de-açúcar.

O que as usinas dizem

Ao Liberal, o Grupo Furlan disse que os credores extraconcursais foram devidamente identificados no momento da distribuição do pedido de recuperação judicial, para “possam ser devidamente fiscalizados de forma irrestrita e transparente em âmbito judicial, o que vem sendo feito dentro dos ditames legais e com a absoluta cooperação por parte do Grupo Furlan”.

Já a usina Itajobi, em nota, reafirmou “seu compromisso com a responsabilidade social e com o desenvolvimento da comunidade local, mantendo uma atuação sólida e ética no mercado de etanol e açúcar”. Ainda citou a superação de desafios e as suas contribuições econômicas e sociais.

“A usina colabora ativamente com as autoridades competentes para o pleno esclarecimento dos fatos, mantendo total transparência e respeito às instituições, convicta de que a sua reputação não será abalada e que os fatos serão devidamente esclarecidos”, continuou.

“Reiteramos que nossas operações seguem normalmente, assegurando a continuidade dos serviços e o abastecimento do mercado”, finalizou.

Gabriel Pitor