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Os altos e baixos do preço do etanol durante 2018/19 e as perspectivas para a atual safra

Flutuações no preço do biocombustível refletem não apenas os diferentes momentos da safra, mas aspectos de mercado que vão além do setor sucroenergético

NovaCana 11 min de leitura

De um ano para cá, o mercado de etanol foi marcado por altos e baixos em relação aos preços. Influências governamentais, valor do petróleo e da gasolina, câmbio, impactos climáticos, produção nas usinas e a greve dos caminhoneiros foram alguns dos fatores que entram na conta. Mas não foi apenas isso que impactou na temporada 2018/19.

Na NovaCana Ethanol Conference de 2018, Martinho Ono destacou que o período de abril a agosto teve um movimento atípico de preços do renovável nas usinas em relação às outras safras.

“Em pouco mais de quatro meses, tivemos um solavanco, um preço que caiu de uma forma muito forte, recuperou de uma forma inesperada, caiu novamente e, agora, vemos sua reconstrução”, relatou e questionou: “A dúvida que temos agora é: para que sentido vai a curva de preço? Vamos mantê-la acima dos R$ 2 por litro, que o mercado alcançou agora, ou teremos novos solavancos?”

Observando os meses seguintes, houve certa estabilidade nos preços do etanol em São Paulo, maior estado produtor e consumidor do país. Além disso, também foi possível observar padrões, analisando os pontos mais elevados e mais baixos dos valores do renovável (na usina, nas distribuidoras e nos postos) e da gasolina, bem como a relação com os preços do petróleo.

Confira, na versão completa, análises destes momentos críticos da safra e o panorama da temporada 2018/19.

De um ano para cá, o mercado de etanol foi marcado por altos e baixos em relação aos preços. Influências governamentais, valor do petróleo e da gasolina, câmbio, impactos climáticos, produção nas usinas e a greve dos caminhoneiros foram alguns dos fatores que entram na conta. Mas não foi apenas isso que impactou na temporada 2018/19.

Na NovaCana Ethanol Conference de 2018, Martinho Ono destacou que o período de abril a agosto teve um movimento atípico de preços do renovável nas usinas em relação às outras safras.

“Em pouco mais de quatro meses, tivemos um solavanco, um preço que caiu de uma forma muito forte, recuperou de uma forma inesperada, caiu novamente e, agora, vemos sua reconstrução”, relatou e questionou: “A dúvida que temos agora é: para que sentido vai a curva de preço? Vamos mantê-la acima dos R$ 2 por litro, que o mercado alcançou agora, ou teremos novos solavancos?”

Observando os meses seguintes, houve certa estabilidade nos preços do etanol em São Paulo, maior estado produtor e consumidor do país. Além disso, também foi possível observar padrões, analisando os pontos mais elevados e mais baixos dos valores do renovável (na usina, nas distribuidoras e nos postos) e da gasolina, bem como a relação com os preços do petróleo.

Em 11 de agosto de 2018, período em que a safra estava a pleno vapor, foi atingido o menor preço do renovável nas usinas do estado: R$ 1,389/l. Uma semana depois, foi registrada a menor diferença entre usinas e distribuidoras; em duas semanas, o fenômeno se traduziu no menor preço de saída da distribuidora e, consequentemente, chegou-se ao menor preço nos postos da safra 2018/19: R$ 2,393/l.

Naquele momento, a relação de preços entre etanol e gasolina estava em 59,2% na média nacional, o menor índice desde julho de 2010 e bem abaixo da paridade energética comercialmente estabelecida em 70%. Com isso, era vantajoso abastecer com o biocombustível em cinco estados brasileiros – além de São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná e Goiás faziam parte da lista –, todos com índices abaixo dos 63%.

Em contrapartida, o maior preço nas usinas paulistas durante a safra – R$ 1,869/l –, aconteceu em 9 de março de 2019 e não refletiu diretamente em um maior custo nas bombas. Isso só ocorreu logo no início da safra, em abril de 2018, na sequência de um maior preço na distribuidora acompanhado por uma menor margem para os postos.

Na ocasião, o valor do etanol na bomba aumentou em 19 estados e a relação média entre seu preço e o da gasolina estava em 72,6%, um índice desfavorável para o biocombustível. Neste caso, aliás, ele era competitivo apenas em Mato Grosso.

margens etanol 30042019

No acompanhamento do sócio da consultoria FG/A, João Henrique Rissi, o preço médio de março de 2019 em São Paulo foi o maior de toda a safra, fechando em R$ 2,81/l. “É comum os distribuidores amenizarem para seus consumidores finais (revendas) as flutuações de preços que ocorrem nas usinas”, explica. Ele completa que, na temporada 2018/19, a gasolina C, na média, ficou em R$4,20/l no estado de São Paulo, variando entre R$ 3,97/l e R$ 4,50/l.

“Com a nova política de preços da Petrobras, olhar apenas o preço nominal pode nos enganar. Analisar a paridade é mais apropriado”, explica e completa: “Em outubro de 2018, o preço bomba do etanol médio em São Paulo foi de R$ 2,75/l, mas como a gasolina estava em R$ 4,50/l isso implicava em paridade de 61,15%”. Enquanto isso, em março de 2019, o preço do etanol na bomba quase não mudou, enquanto a paridade subiu para 69,35%.

De acordo com o analista de inteligência de mercado da FCStone, Matheus Costa, é difícil saber o que exatamente leva a estes fenômenos, pois a questão do preço depende, em grande medida, de cada região, enquanto a pesquisa da ANP apresenta uma média nacional. “Depende do momento em que as distribuidoras fazem as compras e do momento em que esse volume é repassado para o posto. Também influencia muito a demanda naquele período, além do preço do etanol, que muda quase diariamente”, pontua.

Assim, ele acredita que são as dinâmicas de mercado locais que podem tornar repasses de preços mais ágeis ou mais demorados.

Outro ponto importante, conforme o analista da FG/A, é que a tendência natural dos preços de mercado é de uma queda forte no início da safra, motivada pela entrada da produção das usinas. “As distribuidoras podem escolher repassar de maneira mais lenta a queda para a bomba, propiciando um aumento considerável de suas margens. De fato, mesmo em São Paulo, abril apresentou o maior nível de toda safra para as margens de distribuição”, explica.

Relações entre petróleo, gasolina e etanol

Durante a safra de cana 2018/19, o período de menor preço da gasolina nos postos de São Paulo aconteceu na semana encerrada no dia 16 de fevereiro deste ano. A data corresponde à época de entressafra e antecedeu uma série de aumentos no preço da gasolina nas refinarias.

No período, a relação dos preços do etanol e da gasolina no estado estava em 64,21% – abaixo da paridade comercialmente estabelecida em 70%. Com isso, o renovável se manteve competitivo, sendo comercializado pelo menor valor registrado em todo o período de entressafra: R$ 2,559/l.

O custo da gasolina à época foi derivado do menor preço do petróleo, registrado dois meses antes, em dezembro.

Já o maior preço do combustível fóssil durante a safra, em outubro, foi reflexo do valor elevado visto um mês antes. No período, o valor da gasolina nos postos subiu 0,06% na média nacional e 0,29% em São Paulo. Já o etanol aumentou 0,99% nacionalmente e 0,8% dentro do estado.

margens gasolina etanol petróleo30042019

Apesar do renovável ter subido mais que seu correspondente fóssil no período, o biocombustível ainda tinha “folga” na competitividade e se manteve favorável para o consumidor. Em São Paulo, o indicador foi de 61,04% para 61,35%; já nacionalmente, a ampliação foi de 61,7% para 62,3%.

Conforme Costa, da FCStone, se no mercado de etanol já é difícil saber com precisão o que motivou o preço em determinada semana, no caso da relação gasolina e petróleo, os impactos do câmbio tornam a dinâmica ainda mais intricada.

Já Rissi, da FG/A, complementa que questões logísticas no Brasil também trazem impactos: “A distribuição e o mercado de revenda têm pouca capacidade de estocagem; estimamos uma média de 15 dias. Ou seja, quando veem uma possibilidade de reversão de preços na usina, pode acontecer uma demora no repasse nos preços”.

Daqui em diante

Neste início da safra 2019/20, os preços do etanol têm começado a recuar nas usinas de São Paulo.

Segundo Costa, após um início de temporada conturbado, com atrasos no início da moagem devido a chuvas e problemas logísticos, a movimentação doméstica de etanol ficou limitada. Este fator, somado à demanda aquecida pelo biocombustível, fez com que a relação entre os preços do etanol e da gasolina no Centro-Sul voltasse a crescer.

Mas a expectativa do profissional é que, quando a queda nas usinas for repassada, o renovável seja favorecido. “O etanol tende a recuar. A moagem tem ganhado cada vez mais ritmo, e, com as indicações de um mix bastante alcooleiro nesses primeiros meses da safra, é possível que os preços do bicombustível caiam”.

De acordo com ele, o clima deve influenciar, provocando uma menor sustentação nos preços no comparativo com março e com a primeira metade de abril. Isso ocorre principalmente porque a produção já está avançada e os estoques estão maiores.

“Obviamente temos a preferência, nesse começo de safra, pelo etanol, já que o açúcar não tem mostrado recuperação. Mesmo com as quedas recentes, o biocombustível consegue remunerar mais as usinas do que o adoçante”, expressa o analista.

Rissi, por sua vez, observa que 2019 está sendo um ano “atípico”, pois até o meio de abril os preços subiram e, no início do ano, os estoques estavam elevados. Porém, no comparativo entre dezembro de 2018 e em 2017 e 2016, os patamares dos estoques em relação ao volume produzido eram semelhantes: no ano passado, de 25,1% e, nos dois anos anteriores, em torno de 20%.

“Os estoques em março de 2019 foram um pouco maiores que na safra anterior, chegaram a um patamar inferior a 15 dias de consumo no meio de abril: o estoque em 16 de abril de 2019 representava 2,6% do produção estimada para a safra 2019/20, enquanto em 16 de abril de 2018 representava 5,7% do volume produzido na safra 2018/19”, analisa Rissi.

Integra o cenário o fato de as vendas nas usinas estarem elevadas, ao mesmo tempo em que a produção está atrasada por conta da chuva. Conforme o sócio da FG/A, a situação se amenizou quando boa parte das usinas voltou a produzir, porém, deve haver aumento nos preços até os estoques se recomporem.

“Partindo do pressuposto de que não haverá mudanças relevantes nos fatores que impactam o petróleo e câmbio nos próximos meses, acreditamos que a produção de etanol hidratado será priorizada mais uma vez pelas usinas”, considera.

Por isso, ele espera por uma oferta para o mercado interno levemente superior à observada na safra passada. “Por outro lado, esperamos um aumento no consumo potencial do etanol, que se baseia em crescimentos de 2,8% para o ciclo Otto, de 4,5% da frota flex e, também, na preferência dos consumidores."

O peso das intervenções

Em relação à intervenção do presidente Jair Bolsonaro no mercado de combustíveis, no início de abril, Costa aponta que houve uma indicação ao mercado de que se tratava de um caso isolado e que a política da Petrobras deve permanecer firme. Portanto, mantém a visão de que os preços da gasolina permanecerão sendo ajustados com base no mercado internacional.

“O mercado alcooleiro depende bastante dessa política. Foi justamente ela que ajudou no crescimento da demanda por etanol na última safra. As expectativas do mercado seguem os anúncios oficiais de que a política está a salvo e nós trabalhamos com essas indicações”, indica.

Já Rissi acrescenta que as intervenções do governo, observadas ao longo dos últimos anos, prejudicaram muito o setor sucroenergético. “Se na última década o setor de açúcar e etanol praticamente não cresceu em ATR total e recorrentemente tem usinas sendo fechadas e entrando em recuperação judicial, um dos principais motivos foi o congelamento dos preços da gasolina no mercado interno pelo governo” aponta e completa: “Qualquer intervenção no funcionamento do mercado irá gerar desequilíbrios e algum setor pagará a conta. Com políticas populistas relacionadas ao preço da gasolina, as principais prejudicadas serão as usinas”.

Quanto aos ajustes feitos pela Petrobras, Costa expressa que eles têm ocorrido com menor frequência por conta das questões de hedge da estatal, mas que os preços da gasolina têm crescido.

“O valor de 7 de maio, na média das regiões, está em R$ 2,0449/l [nas refinarias]. Se comparar com o patamar observado no começo de março, por exemplo, representa um crescimento de quase 22%” explica e completa: “Os impactos tendem a ser limitados com ajustes menos crescentes porque os preços estão acompanhando o mercado internacional”.

Rissi complementa que a política de preços da estatal é fundamental para maiores investimentos no setor sucroenergético, desde que os reajustes sejam feitos periodicamente e não permitam um crescimento na diferença entre os preços nos mercados externo e interno.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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