Entre 2015 e 2021, Brasil trará 50% do crescimento na produção mundial de etanol e representará 23% da produção adicional de biocombustíveis
Preços baixos do petróleo, crescimento acelerado de outras tecnologias limpas, possibilidade de avanço do carro elétrico. O cenário mundial não parece muito amistoso para quem deseja investir em biocombustíveis. Porém, apesar de alternativas estarem surgindo, a Agência Internacional de Energia (IEA) está confiante que o etanol crescerá no mundo inteiro em ritmo significativo.
Com base em estudos abrangentes, uma dos principais instituições de análise energética do mundo explicou porque o etanol é — e continuará sendo — uma peça importante no cenário energético mundial.
Em entrevista exclusiva para o NovaCana, o diretor da divisão de energias renováveis do órgão, Paolo Frankl, desenvolveu sua opinião de porque acredita no futuro dos biocombustíveis.
Ele também falou sobre suas perspectivas para os mandatos de mistura obrigatória pelo mundo, o atual cenário de investimentos, biocombustíveis avançados, etanol celulósico e o crescimento da produção global. Além disso, traçou um panorama de produtores e consumidores, incluindo Brasil, Estados Unidos e nações asiáticas.
“A IEA acredita que, mesmo que a parcela de mercado seja pequena, isso não significa que os biocombustíveis não sejam importantes. Eles têm um papel agora e também terão no futuro”, Paolo Frankl (IEA)
Preços baixos do petróleo, crescimento acelerado de outras tecnologias limpas, possibilidade de avanço do carro elétrico. O cenário mundial não parece muito amistoso para quem deseja investir em biocombustíveis. Porém, apesar de alternativas estarem surgindo, a Agência Internacional de Energia (IEA) está confiante que o etanol crescerá no mundo inteiro em ritmo significativo.
Para o diretor da divisão de energias renováveis do órgão, Paolo Frankl, o segmento – ainda que tenha pequena participação em um contexto mais amplo – é importante. “Nós precisamos de todas as soluções que pudermos encontrar”, afirma e completa: “Biocombustíveis serão uma parte importante do futuro energético”.
“A IEA acredita que, mesmo que a parcela de mercado seja pequena, isso não significa que os biocombustíveis não sejam importantes. Eles têm um papel agora e também terão no futuro”, Paolo Frankl (IEA)
Inclusive, considerando um cenário que visa reduzir em 50% as chances de o planeta aumentar sua temperatura em 2°C até 2050, a IEA calcula que combustíveis com baixa emissão de carbono devem passar a ocupar 55% da demanda para o setor de aviação, enquanto as emissões terrestres precisarão de cortes drásticos, como o uso de combustíveis avançados e de veículos elétricos.
Por sua vez, outro estudo da IEA – esse focado no mercado de médio prazo –, acredita que os próximos cinco anos devem ser acompanhados por pequeno crescimento de 1% na participação dos biocombustíveis dentro do setor de transportes. Ainda assim, sair de um market share de 3% em 2009-2015 para 4% até 2021 representa um aumento de mais de 30% para o segmento. Em volume, o crescimento da produção mundial é estimado em 157 bilhões de litros até 2021.

De acordo com o documento, os mandatos de mistura obrigatória foram capazes de bloquear parcialmente a influência da queda nos preços do petróleo. Além disso, as regulações fortalecem mercados importantes para os biocombustíveis, que serão atendidos por um crescimento previsto de 19% na produção durante os próximos anos.
“Regulamentações sólidas garantem que a sustentabilidade dos biocombustíveis continue a ser um componente-chave de políticas de apoio adequadas para assegurar um crescimento do mercado de longo prazo” (IEA)
Mesmo assim, o mercado internacional de óleo cru não pode ser desconsiderado. A IEA admite que o contexto econômico mundial criou um cenário de investimentos mais desafiador – tanto para combustíveis fósseis quanto renováveis – o que aumenta a importância de medidas governamentais para garantir o cumprimento dos mandatos de consumo. O contexto também dificulta o surgimento de novas medidas ou de aumentos de mistura.
Afinal, também há outros fatores relevantes, como as variações nos custos de matérias-primas, a capacidade dos governos de resistirem a pressões para manutenção dos mandatos de mistura e o quanto exportações são relevantes para a economia de um determinado país. “Há muitas incertezas. Os preços baixos do petróleo pioraram as perspectivas de investimento e já é perceptível um desaceleramento nos Estados Unidos e na Europa”, afirma Frankl.
Brasil e Estados Unidos
Embora admita que as usinas sucroenergéticas brasileiras tenham sofrido no último período, Paolo Frankl projeta um crescimento de produção de etanol apenas levemente superior para os próximos cinco anos. De acordo com ele, o país “permanecerá robusto” em sua posição como produtor de etanol, uma vez que o biocombustível faz parte da estratégia energética nacional.
“Nós permanecemos positivos e acreditamos na recuperação econômica do setor [sucroenergético] no Brasil”, Paolo Frankl (IEA)
A expectativa da agência é de uma produção de 35,5 bilhões de litros de etanol em 2021 – um aumento de 5,7 bilhões em relação a 2015 –, um número que está próximo do que foi previsto pela EPE para o mesmo ano no mais recente PDE (34,3) e também pelo Mapa (35,29).
De acordo com a agência, esse número poderá ser alcançado com a atual capacidade de produção, embora isso exija um mix mais alcooleiro nas usinas e uma diminuição considerável na capacidade ociosa. Entretanto, ainda existe a chance de uma futura redução nas estimativas: “A situação economicamente frágil da indústria coloca essa previsão em risco”.
Outro ponto que pode afetar a produção de etanol no Brasil é o patamar elevado de preços do açúcar no mercado internacional, que desestimularia a produção de etanol por proporcionar um lucro mais elevado. Já no mercado doméstico, mesmo com a incerteza nos preços, a demanda pelo biocombustível deve continuar elevada.
“Nós prevemos regulações governamentais e um aumento da demanda no Brasil”, aponta Frankl, que continua: “O Brasil já possui uma infraestrutura adequada, com 70% da frota circulante e 95% dos novos carros sendo flex fuel. Essa é uma situação completamente diferente da vivida pelos Estados Unidos”.
De acordo com ele, os Estados Unidos estão enfrentando um momento de incerteza com relação ao uso de biocombustíveis. Ainda assim, a perspectiva é otimista. “Estamos observando uma maior eficiência dos motores e uma tendência por consumos menores de combustíveis fósseis”.
De acordo com dados da IEA, o país atingiu a chamada “blend wall” (parede da mistura) em 2015, quando o acréscimo de etanol na gasolina chegou a 10%, de modo que haveria uma tendência para a estabilidade. Ainda que misturas mais altas – E15 e E85, por exemplo – sejam permitidas, elas ainda não têm consumo relevante e dependem de mudanças estruturais que caminham a passos lentos, como a renovação da frota e a rede de distribuição.
Outras incertezas que permeiam o mercado estadunidense envolvem a pressão sobre os créditos dos Renewable Identification Numbers (RINs) e as dúvidas sobre as futuras metas da Agência de Proteção Ambiental (EPA). O resultado do contexto geral gera a diminuição dos estímulos para investimentos na produção de etanol, ainda mais quando se considera que se manterá um clima favorável para o biodiesel, seja em sua versão convencional ou avançada.
O futuro do etanol celulósico
Já com relação aos biocombustíveis avançados – como é o caso do etanol de segunda geração –, a produção dependerá principalmente de um melhor resultado nas unidades em funcionamento e da catalisação de novos projetos. “O etanol celulósico viu um grande progresso nos últimos três anos e as primeiras plantas estão vivendo um processo de otimização”, conta Frankl.
Entretanto, um aumento significativo ainda dependeria de políticas de apoio e não deve acontecer até 2021. A expectativa da IEA é de que a produção de biocombustíveis avançados (sem biodiesel) chegue a um valor entre 1 bilhão e 2,5 bilhões de litros em 2021. O etanol celulósico corresponderia a 70% desse volume. Ainda assim, esse número corresponderia a uma parcela entre 0,6% e 1,5% da produção total de biocombustíveis.
“Os baixos preços do petróleo não estão ajudando o etanol celulósico”, declara o diretor, que continua: “A indústria está falando em preços em torno de US$ 130 por galão, mas há uma perspectiva que o etanol celulósico consiga chegar a US$ 70 ou até a US$ 40 por galão. Isso parece muito interessante e é possível se existirem políticas específicas”.
“Nesse momento, é importante forçarmos os biocombustíveis avançados como uma opção mais sustentável”, Paolo Frankl (IEA)
Contudo, ainda de acordo com ele, o número de regulamentações específicas para os biocombustíveis avançados ainda é muito limitado. “Na Europa, as únicas exceções são Itália e Finlândia”, exemplifica. Ao mesmo tempo, enquanto o diretor não aposta no surgimento de novos mandatos para os biocombustíveis convencionais, cresce a oportunidade de políticas para os avançados. A visão da agência carrega muita semelhança com a posição do BNDES no Brasil.
“A disputa entre alimentos e combustíveis não é relevante para o etanol de cana-de-açúcar, mas é importante para o biodiesel e para o etanol de milho. E os biocombustíveis celulósicos encerram essa disputa”, conclui.
Contexto asiático
Em um quadro mais amplo, segundo a IEA, a Ásia será a principal responsável pela expansão do mercado de biocombustíveis. Ainda que Estados Unidos e Brasil mantenham sem dificuldades suas posições como maiores produtores mundiais de biocombustíveis até 2021, os países asiáticos representarão mais de um terço do aumento da produção a ser registrado entre 2015 e 2021.

O principal motor dessa expansão asiática estará na necessidade de garantir segurança energética. Nesse sentido, políticas públicas devem gerar um crescimento da produção de etanol na Índia e na Tailândia, enquanto o biodiesel terá um aumento concentrado na Indonésia e na Malásia.
“A Tailândia e a Índia terão uma política de energia renovável mais forte. Já a Indonésia terá uma maior produção, que eles passarão a direcionar para o mercado doméstico em detrimento das exportações”, resume Frankl.
“A Ásia precisa de segurança energética. A Tailândia demanda uma maior diversidade em sua matriz”, Paolo Frankl (IEA)
No momento, a Tailândia está dando sequência a um plano de metas de longo prazo que incluem a mistura média de 24% de etanol em 2026 por meio da inclusão de E20 e E85 no mercado. Por sua vez, a Indonésia tem uma das maiores metas para biodiesel do mundo, com a adoção do B20, ao mesmo tempo em que a Malásia propôs um mandato com aumento gradual de mistura, com a implantação do B10 este ano e a previsão de chegar a B20 em 2018.
O estudo completo pode ser adquirido aqui.
A apresentação com o resumo do trabalho está acessível aqui.
Renata Bossle – NovaCana