Etanol: Preços

Etanol: Preços

Preço e oferta de etanol: governo mantém silêncio e fica na torcida


Agência Estado - Publicado: 19 Nov 2015 - 08:27 | Atualizado: 19 Nov 2015 - 09:16

O governo mantém silêncio sobre a disparada de 14% no preço do etanol hidratado e de 17% no do anidro nas usinas nos últimos 30 dias, aumento devidamente repassado ao consumidor e captado pelos indicadores de inflação. Por muito menos, num passado recente, uma alta dessa magnitude terminou em gritaria e com empresários do setor enquadrados. Mas a história é outra desta vez e pode explicar o atual silêncio. O governo caminha no fio da navalha com oferta e demanda ajustadas e preços de etanol e gasolina pressionados.

Na semana passada, o etanol anidro chegou a R$ 2,01 o litro nas unidades produtoras e atingiu o mesmo patamar do valor médio da gasolina vendida às distribuidoras, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Com isso, o preço da gasolina C - aquela vendida nos postos e misturada com até 27% de anidro - começou a ser freado não mais pelo etanol barato, mas, paradoxalmente, pelo preço da gasolina A. Essa gasolina pura, sem a mistura, ao contrário do álcool anidro, segue com preços estáveis nos mesmos 30 dias.

Para piorar, em plena recessão o consumo dos dois combustíveis não cai e o desespero do governo aumenta com o cenário no curto prazo, de oferta restrita dos dois lados. A safra de cana-de-açúcar no Centro-Sul do País e a produção de etanol começam a minguar. O mercado de petróleo, apesar da queda recente, vive pressionado pelas respostas bélicas de países como França, Rússia e Estados Unidos ao Estado Islâmico no Oriente Médio.

A redução da mistura do anidro à gasolina, uma das saídas clássicas para enquadrar usineiros e tentar derrubar o preço do etanol, sequer foi cogitada. A vítima acabaria sendo a já combalida Petrobras, que teria de aumentar custos com a importação e o processamento de petróleo. Segurar as exportações de etanol e aumentar a oferta do biocombustível no mercado interno também não ajudaria. As vendas externas de álcool são menores que no passado e ainda dependem de janelas pontuais, hoje fechadas pelo mercado consumidor.

Sem as tradicionais armas para intervir no mercado, resta ao governo torcer. Primeiro para que a recessão atinja o consumo de etanol e gasolina. A demanda menor derrubaria preços e frearia os impactos desses combustíveis na inflação. Outra torcida é para que petróleo e dólar sigam ao menos estáveis e mantenham o raro momento no qual o preço da gasolina pura segura o preço da gasolina na bomba.

É o rabo balançando o cachorro. Mas o cachorro, no caso o etanol, agora está fortalecido e vai seguir assim ao menos até abril de 2016, quando uma nova safra de cana começa e a oferta do biocombustível deve aumentar. Até lá, silêncio e torcida.

Gustavo Porto