O aumento dos preços dos combustíveis, impulsionado pela guerra envolvendo o Irã, está elevando a demanda por veículos elétricos novos e usados em toda a Europa, segundo dados do setor. No entanto, alguns executivos alertam que esse interesse pode diminuir caso os preços da gasolina voltem a cair.
Especialistas da indústria afirmam que as melhorias na infraestrutura de recarga e uma onda de modelos mais acessíveis – incluindo veículos de montadoras chinesas – estão ajudando a tornar os veículos elétricos mais populares, sustentando a demanda.
Apesar do acordo recente fechado entre Estados Unidos e Irã, as interrupções no transporte marítimo fazem com que os fluxos de petróleo pelo Estreito de Ormuz levem semanas para se normalizar e, com isso, os preços dos combustíveis provavelmente permanecerão elevados por vários meses.
Dados do grupo de pesquisa New Automotive e da associação setorial E-Mobility Europe mostram que os registros de novos veículos elétricos cresceram 34% em maio na comparação anual em 17 mercados que representam mais de 90% das vendas de automóveis da União Europeia e da Associação Europeia de Livre Comércio (Efta).
Os modelos totalmente elétricos representaram quase um em cada quatro novos registros nesses mercados.
Os dados europeus acompanham uma tendência mundial. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), quase 30% dos carros vendidos no mundo em 2026 serão elétricos.
A previsão da agência é que as vendas globais desses veículos alcancem 23 milhões de unidades neste ano, representando quase um terço do mercado mundial de automóveis novos, com a China dominando o setor.
O relatório Perspectivas Globais do Veículo Elétrico (Global EV Outlook), publicado pela IEA no mês passado, aponta que as vendas globais de veículos elétricos cresceram 20% em 2025, ultrapassando a marca de 20 milhões de unidades.
Com isso, um em cada quatro automóveis novos vendidos no mundo no ano passado foi elétrico. Em aproximadamente 40 países, esses veículos já responderam por pelo menos 10% dos emplacamentos.
A tendência continua forte em 2026. Embora mudanças regulatórias na China e nos Estados Unidos tenham provocado uma queda de 8% nas vendas globais durante o primeiro trimestre, a retração foi compensada por avanços expressivos em outras regiões.
Na Europa, as vendas cresceram cerca de 30%, enquanto a região Ásia-Pacífico, excluindo a China, registrou expansão de 80%. Na América Latina, o crescimento alcançou 75%.
Para a IEA, o aumento da competitividade dos veículos elétricos tem sido determinante para sustentar a demanda. A redução dos preços das baterias, a ampliação da infraestrutura de recarga e a chegada de modelos mais acessíveis ao mercado estão contribuindo para tornar a eletrificação uma alternativa cada vez mais viável para consumidores de diferentes perfis.
A liderança chinesa no setor continua se fortalecendo. Segundo a IEA, fabricantes chineses responderam por cerca de 60% das vendas globais de veículos elétricos em 2025. Em comparação, montadoras europeias e norte-americanas representaram aproximadamente 15% cada.
O país também domina a produção. Dos quase 22 milhões de veículos elétricos fabricados mundialmente no ano passado, cerca de três quartos saíram de fábricas chinesas. Como a produção superou a demanda doméstica, as exportações do país mais que dobraram, ultrapassando 2,5 milhões de unidades, um recorde histórico.
Fora dos três maiores mercados globais – China, Europa e Estados Unidos –, os veículos chineses tiveram participação crescente. Cerca de 55% dos carros elétricos vendidos no restante do mundo foram importados da China, ante menos de 5% registrados há apenas cinco anos.
Além disso, a China controla mais de 80% da produção mundial de células para baterias e mantém participação ainda maior na fabricação de diversos materiais estratégicos utilizados nessa cadeia produtiva.
A carteira de pedidos de veículos elétricos da Renault aumentou 50% em alguns países desde o início da guerra envolvendo o Irã, no fim de fevereiro, afirmou na semana passada o diretor-executivo François Provost à agência de notícias Reuters.
Ainda assim, ele prevê que esse crescimento “diminuirá” caso os preços dos combustíveis recuem.
O chefe da Ford Europa, Jim Baumbick, disse que o conflito “aumentou o interesse dos clientes” por veículos elétricos, mas alertou para o risco de considerar isso uma mudança permanente.
O conflito ocorre em um momento em que as montadoras estão lançando veículos elétricos mais baratos na Europa, enfrentando uma das principais barreiras à adoção da tecnologia: o custo inicial mais alto em comparação aos carros com motores a combustão.
As montadoras chinesas estão expandindo sua oferta para além dos modelos maiores e entrando no segmento dos hatchbacks compactos na Europa. A BYD, por exemplo, lançou seu modelo Dolphin G em Berlim na semana passada.
“O interesse dos consumidores por veículos elétricos está claramente sendo estimulado pela chegada ao mercado de carros chineses de baixo custo e muito bons”, afirmou o ex-executivo da Nissan, Andy Palmer, que participou do lançamento do Leaf, um dos primeiros veículos elétricos de grande volume do mercado.
A oferta de veículos elétricos usados também está aumentando, acompanhada por uma forte demanda. A plataforma de vendas online OLX informou que os contatos de compradores interessados em marcas chinesas na França cresceram mais de quatro vezes em maio na comparação anual.
A plataforma alemã de compra e venda de veículos novos e usados Carwow informou que o interesse por veículos elétricos – medido por configurações realizadas e consultas de compra – estabilizou-se entre 70% e 75%, ante cerca de 40% no início deste ano.
“Esse desenvolvimento deixou de ser um efeito de curto prazo e se transformou em uma tendência sustentável”, disse o diretor-geral da Carwow Alemanha, Philipp Sayler von Amende.
Os veículos elétricos usados também estão relativamente baratos. Os cortes de preços liderados pela Tesla em 2023 reduziram significativamente os valores de revenda, embora os preços estejam começando a subir novamente à medida que a demanda se fortalece.
A plataforma dinamarquesa de veículos usados Bilbasen espera que os preços dos veículos elétricos usados aumentem 10% neste ano.
Por enquanto, os veículos elétricos usados continuam sendo mais baratos do que modelos equivalentes com motor a combustão.
No Reino Unido, veículos elétricos com dois a quatro anos de uso são vendidos por cerca de 33% do preço original, contra 52% para veículos movidos a combustíveis fósseis, segundo a empresa de serviços automotivos Cox Automotive.
O diretor de inteligência de mercado da Cox Automotive, Philip Nothard, afirmou que a crescente oferta de veículos elétricos novos e usados com preços acessíveis deverá sustentar a demanda mesmo que os preços dos combustíveis diminuam.
“O mercado deve se estabilizar”, disse ele. “Duvido muito que veremos uma queda significativa”.
A IEA projeta que, mesmo sem novas políticas de incentivo, a frota mundial de veículos elétricos (excluindo motocicletas e triciclos) poderá alcançar 510 milhões de unidades até 2035, ante os cerca de 80 milhões existentes atualmente.
“As vendas de carros elétricos atingiram níveis recordes em quase 100 países, o que representa uma mudança estrutural para o mercado automotivo e para o sistema energético global”, afirmou o diretor-executivo da IEA, Fatih Birol.
O crescimento também se estende a outros segmentos. As vendas globais de caminhões elétricos mais que dobraram em 2025, enquanto os mercados de motocicletas e triciclos eletrificados mantêm trajetória de expansão acelerada, especialmente na Ásia.