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Para Alckmin, SAF precisará de incentivos para decolar no Brasil


EPBR - Publicado: 08 Nov 2023 - 09:38

O combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) deve receber incentivos para começar a se desenvolver no Brasil, afirmou na segunda-feira, 6, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.

“No começo, precisa ter um incentivo”, disse ele comparando o SAF com a energia eólica e solar após um evento promovido pela Câmara de Comércio Brasileira-Americana (Amcham). “Precisa dar um estímulo para uma nova rota tecnológica. Depois ela pega escala e o preço cai”, completou.

Segundo Alckmin, Brasil e Estados Unidos devem liderar a produção a partir de óleo vegetal e etanol, e a Aliança Global de Biocombustíveis, lançada no encontro do G20, na Índia, em setembro, pretende fortalecer parcerias para desenvolver a indústria.

Os dois países também assinaram compromisso de cooperação conjunta em energia limpa em julho com objetivo de atrair investimentos privados em SAF, hidrogênio limpo e gestão de carbono e metano.

Mas, enquanto o SAF já decolou nos EUA, por aqui, ele aguarda uma política. Está prevista no projeto de lei do Combustível do Futuro, enviado pelo governo federal ao Congresso, propondo criar o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), com metas de redução das emissões por parte das operadoras aéreas a partir de 2027, por meio do uso de combustíveis sustentáveis.

Para a indústria de aviação, o mandato de uso de SAF precisa vir com incentivos ao consumo. Em entrevista à agência EPBR em outubro, o gerente sênior de assuntos externos e sustentabilidade da Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata) para as Américas, Pedro de la Fuente, lista uma série de obstáculos para que o SAF ganhe escala rapidamente.

Entre eles, apoio político insuficiente, investimento limitado e altos custos de financiamento da infraestrutura de produção.

Em 2022, a produção global de combustível sustentável de aviação foi estimada em 300 milhões de litros, cobrindo apenas cerca de 0,1% da demanda total de querosene, de acordo com a Iata. Essas compras representaram um custo adicional para o setor entre US$ 322 milhões e 510 milhões em um ano.

“Apesar de uma diferença de preço significativa entre o produto convencional e o SAF, os operadores aéreos e seus clientes compraram cada gota de combustível de aviação sustentável produzido”, contou o executivo.

Perspectivas das aéreas

As brasileiras Gol e Azul enxergam no país um leque de possibilidades de matérias-primas e rotas tecnológicas para a produção de SAF. Falta resolver o dilema “do ovo e da galinha” no desenho de políticas que vão incentivar a produção e o consumo.

O diretor do Centro de Controle de Operações (CCO) e engenharia da Gol, Eduardo Calderon, conta que a companhia é agnóstica em termos de matérias primas e está mais preocupada com o custo e a eficiência do produto.

“A busca é por eficiência energética e de custo. Mas é fundamental que exista uma política pública que permita fazer essa transição da maneira mais suave possível”, explica.

Já o gerente de engenharia e despacho de voo da Azul, Diogo Bertoldi Youssef, alerta para o risco de uma disputa por combustível limpo com aéreas europeias, caso os incentivos não protejam o mercado nacional.

Movimento internacional

A britânica Virgin Atlantic marcou para 28 de novembro de 2023 o primeiro voo transatlântico de uma aeronave abastecida com 100% de combustível sustentável.

A companhia aérea recebeu permissão da Autoridade de Aviação Civil (CAA, em inglês) para cruzar o oceano após um programa de avaliações técnicas, incluindo testes em solo com a Rolls-Royce em um motor Trent 1000 funcionando com apenas com SAF.

O voo sairá de Londres, na Inglaterra, com destino a Nova York, nos EUA, usando uma mistura de 88% de biocombustível produzido a partir de óleos vegetais (HEFA) e 12% de querosene aromático sintético (SPK).

O uso de SAF em voos comerciais já ocorre pelo mundo, mas, geralmente, em adições pequenas – 1% a 2% – principalmente pelo custo e baixa oferta do novo combustível.

Hoje, todas as aeronaves podem usar até 50%. Fabricantes de aviões e motores como Boeing, Airbus, Embraer e Rolls-Royce estão desenvolvendo e testando tecnologias para permitir o uso de 100% do combustível sustentável.

A demanda parte das próprias companhias aéreas, que têm metas para descarbonizar suas operações e, para alcançá-las, precisam substituir o combustível fóssil.

Nayara Machado