Capítulo 1

Capítulo 1

A agroindústria canavieira e a produção de etanol no Brasil: características, potenciais e perfil da crise atual [1-1]


Passados quarenta anos da produção de etanol em larga escala no Brasil a palavra “crise”, na agroindústria canavieira, tem sido mais usual que a menção à sua trajetória, importância, desafios e perspectivas. Mesmo diante de um crescimento vertiginoso da produção, na última década, a persistente dificuldade financeira, o endividamento e a baixa lucratividade são aspectos mais ressaltados nas cinco últimas safras. Os efeitos de variações no clima, o comprometimento da receita das indústrias com despesas operacionais ilustram o momento que contrasta com o tamanho e potencial dessa agroindústria.

Características como produto interno bruto (PIB) setorial superior a US$ 40 bilhões (R$ 120 bilhões, em 2014), produção de 16% da energia do país e geração de 1 milhão de empregos, além da diversificação produtiva e do apelo ambiental no consumo, não têm sido suficientes para superar as dificuldades. Causas e efeitos das mencionadas dificuldades alcançam a lavoura, a indústria e os fornecedores. Assim, para dar conta da complexidade e das dificuldades da agroindústria canavieira é importante considerar a distinção entre dificuldades, entraves ou barreiras e crises propriamente ditas. Não é trivial, porém, alcançar o consenso sobre que indicadores definem a crise e quais são seus determinantes.

Além dos efeitos da amplamente debatida política de contenção dos preços da concorrente gasolina, é importante discutir onde a crise se concentra e como ela surge. Uma vez que é sólido o mercado da commodity açúcar, apesar das oscilações de preços, e sendo a geração de energia elétrica pela atividade sucroenergética uma alternativa de receita inconteste, crescente, parte-se aqui do fato de que as maiores dificuldades estão no mercado de etanol. Mais especificamente, pode-se tratar das dificuldades do etanol hidratado, como também consideram Milanez et al. (2012) e Moraes e Bacchi (2014), mesmo sabendo-se dos reflexos em toda a cadeia produtiva.

Embora não sejam imunes à crise, a rápida adaptação dos elos distribuição e revenda de varejo (postos) reforça a necessidade de foco da análise sobre as etapas agrícola e industrial da produção do etanol. Além disso, não há de se tratar de retração da demanda como elemento de crise, dado que o país importa o bem substituto da gasolina que, junto com o etanol, compõe um mercado interno de 52 bilhões de litros/ano, ante a oferta próxima de 25 bilhões de litros de etanol carburante.

É ilustrativo o fato de que a soma de dificuldades tenha levado a uma situação de crise na qual, entre as 402 empresas cadastradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de 2009, cerca de sessenta interromperam as atividades até 2013, como apontam Siqueira (2013) e Rissardi Júnior (2015). Ressente-se, contudo, de maiores detalhes sobre o perfil dos agentes mais afetados, das condições para a saída da crise e de indicadores de competitividade na cadeia produtiva nos momentos anteriores a ela.

Neste contexto, o objetivo deste texto é revisar a literatura sobre crises nas cadeias agroindustriais, com recorte no momento atual da agroindústria canavieira no Brasil e nos indicadores mais ressaltados. São selecionados ambientes que caracterizam a crise, de modo a identificar interfaces com as políticas públicas e a situar o leitor quanto aos temas a serem abordados em detalhes nos capítulos seguintes deste livro.

As seguintes indagações são o ponto de partida do texto: que elementos definem as crises na cadeia produtiva? Que indicadores são utilizados para se caracterizar nela as crises econômicas? Quais os destaques da trajetória produtiva? Que políticas públicas têm sido utilizadas para evitar ou combater dificuldades e crises nessa atividade?

São utilizados dados e cadastros do Mapa, da Agência Nacional de Petróleo, Biocombustíveis e Gás Natural (ANP), de levantamentos privados sobre o tema e da literatura. Para a caracterização da trajetória produtiva, foram consultadas bases do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a exemplo da Pesquisa Industrial Anual (PIA) e da Pesquisa Pecuária Municipal (PAM).

Este capítulo é composto de cinco seções, além desta introdução:

- A seção 2 traz uma noção de crises na agroindústria e seus elementos potencializadores.

- A seção 3 apresenta os principais indicadores da crise atual.

- A seção 4 trata, de forma preliminar, de seus determinantes.

- A seção 5 apresenta os ambientes em que se insere a cadeia produtiva, iniciando o debate que se aprofunda nos capítulos subsequentes.

- Por fim, na seção 6, são feitas as considerações finais.

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