Relatório da agência de classificação de risco aponta caminhos adotados pela empresa nas áreas de produção agrícola, desempenho operacional e comercialização
A Usina Santo Ângelo (USA), de Pirajuba (MG), é uma das dez maiores usinas de cana-de-açúcar do país em rendimento agrícola, contando também com indicadores operacionais acima da média e estratégias de comercialização que a colocam em uma posição favorável na comparação com algumas das maiores empresas do setor. É o que aponta um relatório da agência de classificação de risco Fitch Ratings.
Ao longo da última década, de acordo o documento, a usina vem apresentando resultados positivos e acima da média do setor – conseguindo atravessar com desenvoltura pelos desafios do setor, como a elevada volatilidade dos preços do açúcar, a exposição da produção canavieira às condições climáticas e o acesso relativamente restrito a linhas de crédito de longo prazo.
A USA estaria entre as trinta maiores do Centro-Sul em uma amostragem com mais de 160 empresas. Assim, no rating da Fitch, a companhia está bem posicionada, figurando entre grandes nomes do mercado.
Na safra 2016/17, o rendimento agrícola da companhia, estimado pela idade do canavial, foi de 100 toneladas por hectare, 19% acima da média do setor (83,7 t/ha). Este resultado a coloca entre as dez empresas mais eficientes do segmento, do ponto de vista agrícola, conforme o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).
Para compreender esses resultados, o NovaCana destacou uma série de sete estratégias adotadas pela Usina Santo Ângelo. O texto apresenta ainda um perfil técnico da usina.
As ações detalhadas a seguir fazer parte do relatório entregue aos investidores e devem compreender os principais pontos observados antes de qualquer aporte financeiro nas empresas do setor.
Saiba mais sobre:
- Detalhes das sete estratégias
- Como consegue rendimento industrial acima da média
- Rendimento agrícola
- Idade do canavial
- Manejo agrícola
- Mecanização
- Mix de produção
- Fixação de preços
- Estocagem
- Cogeração de energia
- Resultados operacionais
- Risco cambial
- Dívidas
- Alavancagem
- Perspectivas para as próximas safras
A Usina Santo Ângelo (USA), de Pirajuba (MG), é uma das dez maiores usinas de cana-de-açúcar do país em rendimento agrícola, contando também com indicadores operacionais acima da média e estratégias de comercialização que a colocam em uma posição favorável na comparação com algumas das maiores empresas do setor. É o que aponta um relatório da agência de classificação de risco Fitch Ratings, divulgado em dezembro do ano passado.
A USA tem capacidade de moagem de 3,3 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. A companhia tem autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para produzir diariamente 400 mil litros de etanol anidro e 400 mil litros de etanol hidratado.
Ao longo da última década, de acordo o documento da Fitch Ratings, a usina vem apresentando resultados positivos e acima da média do setor – conseguindo atravessar com desenvoltura pelos desafios do setor, como a elevada volatilidade dos preços do açúcar, a exposição da produção canavieira às condições climáticas e o acesso relativamente restrito a linhas de crédito de longo prazo.
“A USA mitiga esses riscos por meio de seu robusto desempenho agrícola, forte perfil açucareiro, venda de energia no mix de produtos, custo de arrendamento mais baixo no estado de Minas Gerais frente ao estado de São Paulo, e relevante capacidade de armazenagem”, enumera a Fitch.
Ainda segundo o relatório, por ser uma das produtoras de menor custo caixa da indústria, o que se traduz em margens e fluxo de caixa das operações (CFFO) superiores em comparação com outras empresas do setor, a usina tem um rendimento industrial acima da média das sucroenergéticas.
Além disso, a USA estaria entre as trinta maiores do Centro-Sul em uma amostragem com mais de 160 empresas. Assim, no rating da Fitch, a companhia está bem posicionada, figurando entre grandes nomes do mercado.
Para compreender esses resultados, o NovaCana destacou sete estratégias da Usina Santo Ângelo.
1. Rendimento agrícola elevado e canavial jovem
De acordo com o relatório, a USA opera com produtividade agrícola acima da média da indústria. Junto a uma adequada quantidade de Açúcar Total Recuperável (ATR) na colheita, essa produtividade gera um rendimento combinado, em quilogramas por hectares, 14% acima da média do mercado nos últimos dez anos, além de ser superior ao registrado na região Centro-Sul, em Minas Gerais (sua localização) e também em São Paulo, principal produtor de açúcar e etanol do país.

Na safra 2016/17, o rendimento agrícola da companhia, estimado pela idade do canavial, foi de 100 toneladas por hectare, 19% acima da média do setor (83,7 t/ha). Este resultado a coloca entre as dez empresas mais eficientes do segmento, do ponto de vista agrícola, conforme o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).
“O alto rendimento agrícola atual permite que a Usina Santo Ângelo opere com canaviais com média de idade de 3,9 anos”, aponta a Fitch. Isso dispensaria investimentos adicionais na renovação da plantação e, consequentemente, beneficiaria o fluxo de caixa livre (FCF).
Assim, nos últimos dez anos, os gastos teriam se concentrado no aumento da capacidade instalada, na diversificação de produtos e na melhoria da eficiência, o que resultou no crescimento de 12% ao ano no volume de cana-de-açúcar moída, de acordo com a Fitch.

2. Atenção ao manejo agrícola e à mecanização
O documento ainda explica que o forte desempenho operacional da USA se apoia no manejo agrícola eficiente e em seu pioneirismo no uso de colheita mecanizada. Atualmente, o plantio e a colheita mecanizada da usina respondem por 100% de suas atividades de campo, enquanto no Centro-Sul respondem por 77% e 98%, respectivamente. Além disso, as condições do solo onde seus canaviais estão localizados e a proximidade do Rio Grande, que garante acesso à água e favorece a umidade do local, melhoram a qualidade e o aproveitamento do produto.
“Devido aos investimentos realizados em expansão e na renovação dos canaviais, a companhia opera hoje com plena utilização de sua capacidade instalada, e a participação de cana própria foi de aproximadamente 45% na safra 2016/17”, afirma a Fitch, que complementa: “Investimentos em expansão estão concluídos e o foco da companhia está na manutenção dos atuais índices de produtividade e de moagem”.
3. Mix de produção açucareiro
Desde a safra 2012/13, a USA direciona, em média, dois terços da sacarose extraída para a fabricação de açúcar, e o terço restante para o etanol. Em 2016/17, por exemplo, o açúcar respondeu por 69% de toda a produção dos canaviais da empresa.

Essa quantia vai na contramão do padrão na região Centro-Sul. Em 2016/17, a média observada foi de 46% para o açúcar e 54% para o etanol, uma vez que usinas menos capitalizadas tendem a favorecer a produção de etanol devido à menor necessidade de capital de giro para sua comercialização, o que não é o caso da USA.

4. Estratégia de fixação de preços e estocagem
Entretanto, com sua produção focada no açúcar, a Usina Santo Ângelo fica vulnerável à volatilidade dos preços internacionais da commodity. Em 2017, seu valor passou de US$ 0,20 por libra-peso em fevereiro para US$ 0,14 por libra em outubro. Como não houve, simultaneamente, uma desvalorização cambial da mesma magnitude, o resultado foi a diminuição da receita líquida para exportadores brasileiros de açúcar.
Mas a USA contornou a situação graças a uma política eficiente de fixação de preços, que atenuou esta volatilidade. No fim de março de 2017, 215 mil toneladas de açúcar (ou 76% da produção esperada para a safra 2017/18) estavam fixadas no patamar de R$ 1,6 mil por tonelada, evitando maiores prejuízos.
Já no caso do etanol, a oscilação de preços é ainda maior, mas a USA diminui os riscos graças à sua capacidade de estocar e comercializar grande parte de sua produção para a venda durante a entressafra, quando os preços são mais altos. A Fitch relata que a capacidade de estocagem da companhia é de 60 milhões de litros de etanol (75% de sua produção média anual) e de 102 mil toneladas de açúcar (35% da produção anual).
5. Cogeração de energia
Além disso, a Usina Santo Ângelo tem capacidade para gerar entre 90 mil e 120 mil MWh de energia elétrica por ano em seu processo de cogeração, segmento que, de acordo com a Fitch, tem alta margem de rentabilidade e traz maior estabilidade e previsibilidade para a geração de caixa da companhia, ainda que o percentual desses lucros sobre as receitas totais seja pequeno.
6. Resultado operacional no azul
Segundo o relatório, o adequado desempenho operacional da USA possibilitou a manutenção de fortes margens de Ebitdar para a safra encerrada em março de 2017, fechando com 45,2% e um Ebitdar de R$ 235 milhões.
Esse valor demonstra uma piora em relação ao ano anterior, quando a margem havia sido de 47,4%, mas ainda está em um patamar considerado como bom. Já a receita líquida da companhia cresceu 13% no mesmo período, atingindo R$ 520 milhões.

7. Risco cambial, dívidas e alavancagem sob controle
Em 2016/17, de acordo com a Fitch, as relações entre as dívidas total e líquida ajustadas pelo Ebitdar estavam abaixo da média do setor e melhores do que os índices reportados no ano anterior. No período, a USA apresentou um CFFO tido como robusto pela agência (R$ 179 milhões), sendo suficiente para cobrir os investimentos de R$ 119 milhões e os dividendos de R$ 16 milhões. Por sua vez, seu caixa e suas aplicações financeiras, de R$ 130 milhões, excediam em 3% a dívida de curto prazo, que é de R$ 126 milhões. Já a dívida total ajustada da USA foi de R$ 517 milhões nesta safra.

Em parte, isso foi possível devido a estratégia da companhia de manter receitas em dólares, custos em reais e apenas 25% da dívida em moeda estrangeira. Com isso, as depreciações cambiais tendem a beneficiar os índices de alavancagem e de cobertura da companhia. De acordo com o modelo da Fitch, uma depreciação cambial de 20% reduziria a alavancagem líquida ajustada da USA de 1,7 vez para 1,4 vez.
Mas a previsão da agência de classificação de risco é de que a usina mantenha sua alavancagem financeira líquida ajustada em torno de 1,6 vez nos próximos anos, além de um FCF de R$ 53 milhões no atual ciclo.
Já nas próximas três safras, ainda na opinião da agência, a usina continuará apresentando liquidez satisfatória e seu FCF permanecerá positivo, mas entre R$ 5 milhões e R$ 11 milhões. A redução é esperada caso se confirme a expectativa de que os preços médios do açúcar estarão mais baixos nos próximos anos.
Rafaella Coury – NovaCana