A elevação da mistura de etanol anidro na gasolina, de 27% para 30%, válida desde sexta-feira, 1º, deve provocar mudanças no mercado de combustíveis, com impactos relevantes no Nordeste.
A consultoria Argus estimou que as importações de etanol podem dobrar de 25 milhões de litros para até 50 milhões de litros ao mês, principalmente para suprir o déficit da região, que deve crescer com a maior demanda decorrente das novas regras.
Segundo o gerente de desenvolvimento de negócios da Argus, Amance Boutin, o aumento da demanda por etanol anidro no Nordeste pode atingir 14% em 2025, totalizando cerca de 2,46 bilhões de litros, resultado do crescimento do consumo de gasolina e da maior mistura obrigatória.
Embora a safra de cana-de-açúcar da região deva crescer 3,6%, segundo estimativa da Conab, a produção local estimada de etanol anidro é de 1,26 bilhão de litros para o ano, levando a um déficit projetado de 1,2 bilhão de litros, um aumento significativo frente aos 945 milhões de litros registrados em 2024.
“O Nordeste não tem capacidade de aumentar produção a curto prazo. Com isso, para atender à demanda adicional, o produto terá que vir de outras regiões, seja o etanol de milho do Centro-Oeste, seja importações”, explicou Boutin.
A diferença de valores reforça esse movimento: o preço do etanol anidro em Suape (PE) está em R$ 3,54 por litro, enquanto o etanol importado dos Estados Unidos, sem alíquota, pode chegar a R$ 3,23 por litro, segundo levantamento da Argus.
Com a tarifa de importação de 18%, o preço sobe para cerca de R$ 3,79 por litro, o que pode limitar o volume importado, a depender da capacidade das empresas de acessar mecanismos de isenção como o drawback, regime aduaneiro especial que isenta tributos sobre insumos importados, desde que eles sejam usados na produção de bens exportados.
Atualmente, as importações vêm principalmente do Paraguai – isento de tarifa por ser integrante do Mercosul – e dos Estados Unidos. Segundo Boutin, algumas operações americanas têm utilizado o drawback para importação, viabilizando custos menores.
Além do desafio da oferta, o cenário comercial entre Brasil e Estados Unidos adiciona pressão sobre o mercado nordestino. O Nordeste é grande exportador de açúcar para os EUA dentro de cotas preferenciais e está inserido na disputa tarifária que envolve açúcar e etanol.
“Se os Estados Unidos fecharem a porta para o açúcar nordestino, o impacto será ainda maior para a região, que já sofre com a pressão do etanol de milho e das importações”, alerta Boutin.
Leandro Silveira