Açúcar: Mercado

Açúcar: Mercado

Açúcar ganha status de prioridade no Sudão


Reuters - Publicado: 31 Mai 2013 - 11:02
Em uma fábrica com formato de hangar na região central do Sudão, perto da localidade de Sofiya, uma dúzia de trabalhadores apressados embalam o açúcar refinado que jorra de um funil em sacos de papel, carregados em três caminhões estacionados do lado de fora. Em 2014, a administração da Kenana Sugar Company espera ver a fábrica ainda mais movimentada, pois pretende elevar sua produção como resposta às intenções do Sudão de exportar mais açúcar.

Diante da perda da maior parte de sua produção de petróleo, após a separação do Sudão do Sul em 2011, o Sudão vem lutando para encontrar novas fontes de receitas e conseguir dólares para pagar suas importações. O desenvolvimento do segmento açucareiro é uma prioridade, assim como a exploração de ouro. "Há muita terra disponível para o cultivo do açúcar e também abundância de água", diz El Zein Mohammed Doush, diretor da unidade de negócios açucareiros da principal fábrica da Kenana, a 270 quilômetros ao sul da capital Cartum.

O aumento da produção de açúcar também tem um tom político. O adoçante é o mais importante ingrediente culinário em um país onde é normal colocar três colheres em um pequeno copo de chá ou suco de laranja. O preço do açúcar é tão sensível nesse país africano que pode provocar revoluções.

Uma forte alta do preço foi motivo para protestos de rua que levaram à deposição do falecido presidente Jaafar Nimeiri em 1985. O presidente Omar Hassan al-Bashir há mais de um ano enfrenta protestos localizados por causa da alta dos preços dos alimentos. A inflação anual chegou a 41,4% em abril, embora críticos afirmem que o número real é bem maior. Graças a uma injeção de capital de US$ 500 milhões de seus principais controladores do Golfo Pérsico, Arábia Saudita e Kuwait, a Kenana pretende mais que dobrar sua produção para 1 milhão de toneladas em 2015.

Sua afiliada White Nile Sugar quer produzir 250 mil toneladas a partir do ano que vem. Isso ajudaria a cobrir a demanda doméstica de 1,2 milhão de toneladas e deixar espaço para mais exportações. Atualmente, todas as fábricas locais produzem de 600 mil a 700 mil toneladas por ano, estimam os analistas. Em 2014, a produção poderá ficar entre 900 mil e 1 milhão de toneladas.

O Sudão, um dos maiores produtores de açúcar da África depois do Egito e da África do Sul, espera se tornar um concorrente global até 2020, competindo com líderes mundiais como o Brasil. Segundo Doush, o país quer produzir 10 milhões de toneladas até 2020, na medida em que mais fábricas começarem a operar. Somente Kenana pretende abrir mais duas, enquanto o governo acaba de colocar à venda quatro fábricas estatais que precisam ser modernizadas.

Sob um acordo feito com os investidores do Golfo na Kenana, a companhia pode exportar até metade de sua produção, que vai para vizinhos africanos, Golfo Pérsico e Europa. Com a intensão de diversificar seus produtos, a Kenana também quer mais que triplicar a produção de biocombustíveis, um subproduto da produção de açúcar, para 200 milhões de litros até 2015. "Noventa por cento de nosso etanol vai para União Europeia, França, Holanda", diz Ahmed Rabih, diretor da unidade de etanol.

O Sudão vem passando por turbulências desde que perdeu o petróleo do sul, mas a situação econômica deverá melhorar em breve, depois que o Sudão do Sul retomar as exportações de óleo bruto por meio de instalações no norte. O Fundo Monetário Internacional (FMI) pediu ao país que use os US$ 2 bilhões que Cartum espera obter com as taxas de uso dos oleodutos cobradas do Sudão do Sul até 2015, para reformar o setor agrícola e, assim, elevar as exportações não ligadas ao petróleo.

Ao contrário de outros países árabes, em sua maioria desérticos, o Sudão é um excelente local para a produção de alimentos por causa de seus enormes cerrados férteis e acesso fácil às águas do rio Nilo. "O Sudão tem tudo para ser bem-sucedido, água, terras, material humano", disse o xeque Ibrahim Bem Khalifah, presidente do Centro Regional Árabe para Treinamento de Empreendedorismo e Investimentos, em um fórum recente sobre investimentos.

Mas analistas afirmam que o setor tem sido mal administrado como o resto do país, o que associam às guerras étnicas, corrupção e golpes de Estado. O projeto de irrigação Gezira, um dos maiores do mundo, construído pelos colonizadores britânicos há 100 anos, é hoje uma sombra do que já foi.

O setor açucareiro, por outro lado, está em melhor situação por gozar de vários subsídios e pelo fato de as principais fábricas serem administradas pela Kenana, que é constantemente alimentada com dinheiro do Golfo. Mas Mohammed Al-Jak, professor de economia da Universidade de Cartum, diz que a meta de produção de 10 milhões de toneladas fixada para 2020 é irreal. "A falta de financiamentos e infraestrutura serão grandes obstáculos para se chegar até mesmo à metade disso".

Os planos de expansão também são anunciados em um momento de desaceleração econômica associada ao excesso de oferta global. Os contratos futuros referenciais de açúcar bruto estão sendo negociados a cerca de 16,80 centavos por libra peso, menos de metade do pico alcançado há dois anos. Harry Verhoeven, um especialista na economia sudanesa da Universidade de Oxford, diz que a Kenana está tendo lucros e é uma das empresas mais sofisticadas do Sudão, mas ainda está longe de se tornar uma concorrente global como as empresas brasileiras e turcas.

"A Kenana recebeu bilhões de dólares em subsídios mas não chegou onde deveria estar. Ela não é uma grande concorrente". Ele diz que o governo está prejudicando a eficiência do setor ao controlar as principais produtoras de açúcar, protegendo-as da concorrência e mimando-as com subsídios.

Analistas afirmam que o mercado é distorcido porque o governo garante às empresas um preço para o açúcar que é quase o dobro de seus custos de produção, o que abre caminho para a corrupção. Os críticos também alegam que a indústria açucareira tem grandes lucros, enquanto a população pobre do país pouco se beneficia disso.

A Kenana, que possui uma excelente cantina e casa de hóspedes, diz que contratou quatro mil trabalhadores não capacitados que recebem assistência médica gratuita. Mas com suas casas de taipa e rodovias sem pavimentação, os moradores próximos da fábrica parecem ser tão pobres quanto o resto do Sudão. Eles não têm água encanada e famílias podem ser vistas recolhendo água com potes em um pequeno lago perto da estrada que liga a fábrica a Cartum.

Ulf Laessing
Via Valor Econômico