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Acordo EUA-China não altera “desordem internacional prolongada”, diz Marcos Jank


Agência Estado - Publicado: 14 Mai 2025 - 08:54

A redução temporária de tarifas entre Estados Unidos e China não deve trazer estabilidade duradoura ao comércio global e tampouco representa um retorno à normalidade institucional. A avaliação é do coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank.

Segundo ele, o mundo caminha para um período de “desordem internacional prolongada”, com negociações bilaterais assimétricas substituindo os fóruns multilaterais. Jank participou na segunda-feira, 12, do evento “O agro na nova era Trump”, em São Paulo (SP).

“Trump ignora as instituições multilaterais e faz conversas diretas com quem quiser conversar. Não vejo condição de fazermos as coisas pelo sistema ONU, OMC ou G20”, afirmou Jank.

Ele destacou que a lógica do atual governo norte-americano para aplicar tarifas foi baseada exclusivamente no déficit comercial com cada país. “É uma fórmula que não faz o menor sentido na teoria econômica, que nenhum estudante poderia apresentar em uma prova”, completa.

O novo acordo entre os dois países reduziu as tarifas impostas pelos Estados Unidos, de 145% para 30%, enquanto as da China caíram de 125% para 10%. Para Jank, isso afeta diretamente o Brasil em setores estratégicos do agronegócio. “Se ele vai forçar reduzir o déficit comercial, isso significa mais acesso de produtos americanos na China e esses produtos competem diretamente conosco”, afirmou.

O especialista explicou que os impactos serão sentidos em seis produtos principais. “São basicamente soja, milho, algodão, carne bovina, suína e de aves. Nesses produtos, Brasil e Estados Unidos são os maiores fornecedores da China”, completou.

Jank observou que a redução das tarifas deve normalizar os padrões sazonais de comércio. “Com a tarifa agora indo para 10%, obviamente eles vão comprar soja americana no segundo semestre, até porque não tem de quem comprar nesse período, a não ser dos Estados Unidos. Então volta ao normal nessa área”, disse.

O professor também alertou para os riscos de aumento de barreiras não tarifárias. “Não sabemos o que vai acontecer com barreiras sanitárias, ambientais e técnicas, que são as mais preocupantes no agro. Esse universo era regulado pela OMC, agora ninguém sabe”, afirmou e seguiu: “As instituições criadas no pós-guerra – Bretton Woods, FMI, Banco Mundial GATT, OMC – estão sendo enterradas, e não sabemos o que virá no lugar delas”.

China e a segurança alimentar

A segurança alimentar continuará sendo prioridade máxima para a China nos próximos anos e o país asiático jamais confiará integralmente em seu objetivo estratégico a fornecedores externos. Segundo Marcos Jank, o Brasil continuará exercendo papel relevante como fornecedor, mas precisa estar preparado para oscilações na geopolítica e rupturas nos acordos internacionais.

“Se tiver insegurança alimentar na China, cai o governo. E eles têm verdadeiro pavor de que caia o Partido Comunista. Então, nunca vão confiar em ninguém. Vão tentar ser autossuficientes”, disse Jank.

Para ele, a mentalidade estratégica chinesa é guiada por planejamento de longo prazo e por decisões seletivas sobre quais produtos agrícolas devem ser produzidos internamente e quais serão adquiridos no exterior. “Eles não vão conseguir fazer soja, milho, arroz e trigo ao mesmo tempo. Abriram mão da soja. Estão comprando cada vez mais milho, carne bovina e carne suína”, afirmou.

Jank lembrou que os planos quinquenais da China sempre trataram de segurança alimentar como tema central. “Se você ler os planos desde 1952, todos têm menção explícita à segurança alimentar. Eles querem ser autossuficientes, mas não tem os recursos naturais que nós temos. E é aí que entra o Brasil”, afirmou.

“Temos uma importância estratégica para a China neste momento, e ela tem para a gente. Isso significa fazer acordos, mas também estar prontos para os problemas que eles podem trazer”, Marcos Jank (Insper Agro Global)

Na avaliação do pesquisador, a competitividade brasileira no setor de carnes deve crescer em 2025, mesmo com um custo mais alto do milho e desafios na reposição de bezerros. “Os americanos estão com crise interna. O frango foi afetado pela gripe aviária e o boi está com preços altos, então, eles não vão conseguir ganhar espaço agora. Isso beneficia o Brasil” disse.

Ele ainda ressaltou que a intensificação produtiva brasileira tende a manter o país na liderança. “Estamos encurtando o ciclo. Aquele boi de quatro anos vai sumir. Estamos abatendo com menos de 30 meses, com mais confinamento e uso de DDG de milho”, afirmou.

Para Jank, a pecuária brasileira passará por consolidação, mas sem ritmo acelerado. “É um setor muito heterogêneo. Vai haver consolidação, mas não tão rápida quanto vimos em outras cadeias”, comentou.

A eliminação progressiva da recria e o abate mais precoce, segundo ele, devem ser as principais tendências. “A China só compra esses animais jovens. Isso vai forçar ainda mais a intensificação e o ganho de produtividade”, argumentou.

O coordenador do Insper Agro Global também destacou a importância de o Brasil manter equilíbrio diplomático. “Precisamos entender que o Brasil é visto como fornecedor de segurança. Segurança alimentar é zerar a incerteza. E o mundo vai precisar disso cada vez mais. Não só a China. O mundo inteiro está ficando mais instável”, afirmou.

Gabriel Azevedo