A empresa espanhola de energia renovável e engenharia Abengoa SA, que possui duas usinas sucroenergéticas no Brasil, informou ontem que está entrando com um pedido preliminar de proteção contra credores, um passo inicial que pode levar ao maior caso de recuperação judicial da história daquele país.
O possível fim da Abengoa é um exemplo extremo de uma empresa espanhola cuja expansão impulsionada por meio de endividamento durante os anos em que a economia da Espanha viveu um boom enfraqueceu suas ambições de crescimento hoje.
Com duas usinas de cana em São Paulo – São Luiz e São João da Boa Vista – a Abengoa Bioenergia, braço brasileiro da companhia, também acumulou perdas com suas operações de açúcar e etanol. No último balanço anual, a empresa reportou um prejuízo de R$ 140,9 milhões; no ano anterior, o prejuízo foi de R$ 151,7 milhões.
Internacionalmente, a empresa é uma das principais construtoras mundiais de linhas de energia que transportam eletricidade pela América Latina e uma importante companhia de engenharia e construção, construindo enormes usinas de energia renovável em lugares como o Estado americano de Kansas e o Reino Unido.
A mais recente rodada de negociações da Abengoa com credores começou depois que a firma espanhola de investimento Gonvarri Corporación Financiera cancelou um plano de injetar cerca de 350 milhões de euros (US$ 372,53 milhões) na empresa com sede em Sevilha, informou a Abengoa em documentos entregues aos reguladores ontem.
“A empresa continuará a negociar com os credores com o objetivo de alcançar um acordo para garantir sua viabilidade financeira”, informou a Abengoa nos documentos. Uma porta-voz não quis fazer mais comentários.
As ações da Abengoa fecharam em queda de 54% ontem em Madri, após ter caído cerca de 70% ao longo do dia.
A notícia também atingiu as ações dos bancos espanhóis, que estão entre os principais credores da Abengoa. A Ação do Banco Santander SA caiu 2%. O banco não quis comentar sobre sua exposição à empresa. As ações do Banco Popular Español AS fecharam 2,5% e as do Banco de Sabadell SA recuaram 1,9%.
A Abengoa, cujo valor de mercado caiu para 300 milhões de euros ontem, informou que tinha uma dívida financeira bruta de 8,9 bilhões de euros no fim do terceiro trimestre.
Esse valor sobe para 16,9 bilhões de euros quando se inclui os 2,1 bilhões de euros que a empresa deve para seus fornecedores e os 5,9 bilhões de euros que a Abengoa tem em dívidas em subsidiárias que ela afirmou que podem ser vendidas, segundo José M. Arroyas, analista do Exane BNP Paribas em Madri.
“Investir agora na Abengoa pode apenas ser recomendado para aqueles com alto risco de tolerância”, escreveram os analistas do Renta 4 Banco de Madri em uma nota de pesquisa.
A Abengoa tem agora até quatro meses para negociar com os credores. De acordo com a lei espanhola, os credores não serão capazes de forçar uma recuperação judicial nesse período.
“Esperamos que alguma solução seja encontrada para manter a empresa funcionando”, disse Elvira Rodríguez, presidente do conselho do regulador do mercado acionário da Espanha.
A decisão da empresa de investimentos Gonvarri de cancelar seu plano de injetar recursos na Abengoa foi o mais recente golpe enfrentado pela empresa, que tem tentado desesperadamente levantar recursos há vários meses em meio a crescentes preocupações de investidores e analistas sobre sua solvência.
Durante a maior parte do ano passado, suas ações foram compradas por investidores intrigados pelos pedidos dos executivos da Abengoa para reduzir o endividamento que a empresa começou a acumular em um período anterior à crise espanhola.
Mas no início deste ano, os investidores começaram a ficar preocupados sobre quanto dinheiro a Abengoa tinha para administrar suas dívidas. Embora o endividamento da empresa não fosse nada novo para investidores e analistas que estavam a acompanhando há anos, a movimentação de meados do ano levou alguns investidores a concluir que a Abengoa tinha menos dinheiro nas mãos do que imaginavam.
Investidores e analistas vinculam os atuais problemas financeiros da Abengoa a uma mudança de estratégia durante o boom imobiliário espanhol, que começou a ganhar força em 2004. Os bancos no país reduziram as exigências de empréstimos para empresas, o que ajudou a impulsionar o otimismo corporativo, levando algumas empresas espanholas a intensificar sua expansão internacional.
Desde sua fundação, a Abengoa construiu linhas de transmissão de energia, usinas de bioenergia e infraestrutura de dessalinização para clientes. Durante o boom espanhol, contudo, ela começou a desenvolver esses projetos para ela própria, impulsionada por empréstimos bancários mais baratos e o desejo de expansão.
A companhia acumulou pilhas de dívidas apostando em uma taxa de crescimento que nunca se materializou.
“Nessa conjuntura, o problema dos investimentos está substancialmente na boa vontade dos bancos em dar novos empréstimos para a Abengoa”, escreveu Arroyas, da Exane, em um relatório no dia 16 de novembro, depois de a empresa divulgar seus resultados do terceiro trimestre.
Segundo relatório divulgado pela empresa de informação de energia Platts, a notícia da recuperação judicial da Abengoa foi recebida com choque no mercado europeu e abriu uma rara oportunidade para as empresas de etanol dos Estados Unidos.
"É preciso ver que eles não estavam trabalhando com boas taxas de rendimento", disse um trader. "Teremos que encontrar um substituto para suprir essa demanda e ele virá dos Estados Unidos, já que o Brasil também está com problemas".
De acordo com fontes consultadas pela Platts, os estoques baixos na Europa e a incerteza sobre a oferta já estavam fazendo com que os negociadores olhassem para o outro lado do Atlântico.
David Román
Com informações adicionais da Platts e edição novaCana.com