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A inadimplência das usinas na geração de energia elétrica em 2013

bioeletricidade-040314Os dados disponibilizados pelo MME, pela EPE e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) indicam que a inadimplência ainda não ficou para trás
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O confronto entre governo e usinas continua agitando o mercado sucroenergético. Dessa vez o desconforto apareceu nas dúvidas levantadas pelos integrantes do governo em relação ao nível de inadimplência das usinas na cogeração.

A Unica afirma que os problemas ficaram no passado, já o governo mostra que não está tão seguro. Mas o que dizem os números de 2013? O portal NovaCana foi atrás do volume contratado pelas usinas para entrega no ano passado e comparou as entregas com a garantia física da térmicas movidas à biomassa de cana.

Os dados disponibilizados pelo MME, pela EPE e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) indicam que a inadimplência ainda não ficou para trás.

No mês passado a falta de credibilidade do setor sucroenergético em relação as entregas de energia do bagaço de cana-de-açúcar esteve presente nos debates em Brasília. Durante evento sobre bioeletricidade, o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) lembraram dos episódios em que as térmicas de biomassa não conseguiram corresponder ao esperado, ficando inadimplente com contratos.

Já a Unica afirma que os problemas com a bioeletricidade pela queima do bagaço ficaram no passado e minimiza as dificuldades hoje existentes como pontuais, decorrentes dos mesmos fatores que prejudicaram o etanol. Para o gerente de bioeletricidade da Unica, Zilmar de Souza "a EPE e também alguns formadores de opinião da imprensa estão fazendo uma análise equivocada".

O erro, na avaliação de Souza, está em usar dados desatualizados, de 2010 e 2011. O especialista pediu que se deixe de "olhar no retrovisor" e justificou que nos anos de 2012 e 2013 a geração cresceu 22% e 25%, respectivamente.

Segundo o MME e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) o crescimento foi um pouco diferente . Em 2012, no acumulado de dezembro a janeiro, as térmicas a biomassa entregaram 12.976 GWh ao Sistema Interligado Nacional (SIN) o que significa um crescimento de 20,6%. Em 2013, nos 12 meses, a energia entregue foi de 17.112 GWh, uma evolução de 31,9%.

Porém a significativa evolução não garante o atendimento satisfatório à energia contratada ou cumprimento da garantia física.

Energia negociada versus energia injetada

Embora o bagaço de cana não seja a única fonte das térmicas a biomassa, ela responde pela maior fatia da capacidade instalada até o final de 2013. Conforme dados da EPE, a cogeração das usinas de cana corresponde a 9.339 MW instalados dos 11.414 MW totais. As outras fontes, como cavaco de madeira, carvão vegetal e biogás, respondem pelos 1.141 MW restantes. Essa potência total abrange tanto a capacidade para autoprodução quanto para exportação de energia.

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Considerando apenas a potência para exportação de energia, mais da metade da capacidade das térmicas à bagaço de cana (4.735 MW) se destina à comercialização, enquanto as outras fontes de biomassa tem condições de exportar apenas 82 MW da energia produzida , sendo a capacidade instalada essencialmente para consumo próprio.

Com isso, a estimativa é de que o bagaço de cana responda por cerca de 90% da bioeletricidade gerada pelas térmicas à biomassa em 2013.

Ao longo do ano passado, a energia injetada pelas usinas de biomassa – bagaço de cana e outras fontes – no Sistema Interligado Nacional (SIN) foi de 1.961 MWm, segundo dados da EPE.

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Como os dados da cogeração apenas do bagaço não estão disponíveis, foi considerada a estimativa de que o co-produto da cana participou com 90% dessa energia total da biomassa. Assim, o setor sucroenergético teria sido responsável por 1.765 megawatt médios (MWm). O número fica próximo a estimativa da Unica de que tenham sido gerados 1.720 MW médios ao longo do ano. Nos dois casos a quantidade seria insuficiente para cobrir o total efetivamente comercializado.

Em números consolidados de 2013, a EPE informa que a energia do bagaço de cana negociada dentro e fora do mercado regulado para entrega em 2013 foi de 1.941,8 MWm, sendo 1.289,7 MWm correspondentes ao contratado em leilões e outros 625 MWm comercializados extra certame. O portal NovaCana apresentou os dados a EPE e questionou sobre a inadimplência das usinas. A empresa vinculada ao MME disse que  "é possível que parcela da energia contratada e comercializável não tenha sido injetada".

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No confronto entre a energia negociada versus os 90% da energia efetivamente injetada pela biomassa (corresponde ao bagaço de cana) no sistema, a "possibilidade" é de que tenham ficado descobertos 176 MWm ao longo de 2013. O valor exato só será conhecido quando forem divulgados os dados desagrupados da geração de energia da biomassa.

Geração abaixo da garantia física

O Ministério de Minas e Energia indica em seu boletim de monitoramento do setor elétrico que as térmicas a biomassa geraram abaixo da garantia física em quase todos os meses de 2013. Durante 11 meses do ano passado a geração ficou abaixo da energia assegurada. O único mês em que a geração verificada correspondeu à garantia foi em agosto, no auge da safra canavieira. Nos meses de julho e setembro de 2013 a geração foi bastante próxima à energia assegurada, ficando levemente abaixo.

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Em 2012 a situação foi semelhante. A média anual injetada foi de 1.440 MWm, com as térmicas a biomassa atingindo o esperado pelo sistema apenas em julho e agosto.

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Para o gerente de bioeletricidade da Unica essa geração deficitária de 2013 não é um problema para o setor sucroenergético. "Em julho do ano passado a ANEEL regulamentou e já está em vigor desde janeiro deste ano, a redução da Garantia Física Apurada. Assim, se a usina não gerar o esperado terá sua Garantia Física Apurada reduzida para fins de lastro e operação no mercado". Com isso, completa, a partir de agora a "redução da Garantia Física apurada pela ANEEL já é 'página virada'. Se gerar abaixo da Garantia Física, o agente será penalizado."

Já a explicação para a diferença estaria relacionada à crise enfrentada pelo setor nos últimos anos. Ele afirma que a garantia física das usinas foi calculada entre 2007 e 2008 com base em dados da expectativa de geração futura, principalmente dos greenfields, mas com a fase crítica vivida em anos seguintes, nem todos os projetos conseguiram concretizar a garantia física inicialmente estimada. "Mesmo que em alguns projetos a Garantia Física tenha ficado abaixo do estimado, todos eles saíram do papel e está sendo um ótimo negócio para o consumidor final ter esta energia", defende.

Em contraposição ao quadro geral, segundo a Unica, há usinas que estão até cogerando acima de suas garantias físicas sem terem aumentado a potência instalada. Souza diz que estas empresas "estão aproveitando a palha, gerando energia na entressafra, reduziram o consumo de vapor", no entanto, não existe até agora uma metodologia para revisão (para cima) da Garantia Física. Na prática isso significa que essa "energia extra", obtida sem aumento de potência instalada, não pode ser vendida na forma de contratos.

Fora do mercado regulado, apesar dos preços atuais serem muito atrativos, Souza aponta incerteza na remuneração. "Ao preço 'spot' hoje está R$ 822/MWh, mas amanhã pode estar R$ 120/MWh. O ideal seria vender na forma de contratos de longo prazo que possam ajudar no financiamento do investimento".

Entre 2005 e 2013 foram contratados através do mercado regulado a produção de 124 usinas à biomassa, com capacidade instalada de 6.098 MW. Boa parte desses empreendimentos ainda não foram inaugurados e devem entrar em operação nos próximos anos. Nesses certames o preço médio obtido foi de R$ 195,66, um valor intermediário quando comparada e outras fontes.

Perspectiva para 2014

A Unica prevê para 2014 um aumento 5,6% na energia a ser injetada pelo bagaço de cana, com a entrada de mais 97 MW médios que foram vendidos em leilões anteriores. "Dessa forma, esperamos algo como 1.820 MW médios, sem contar com o adicional das vendas no mercado livre", indicou Zilmar de Souza. O volume é superior ao previsto pela EPE para o cumprimento do contratado pelos leilões, que apontam para 1.387 MWm.

Pela projeção da EPE, em 2014, no atendimento ao mercado regulado, serão agregados exatos 97,2 MW médios para cobrir a demanda contratada em leilões de energia nova e de energia de reserva. Já as vendas no mercado livre devem crescer 129,5 MWm. Com a ampliação estimada, o total a ser injetado pelas térmicas de bagaço de cana precisa alcançar 2.168,5 MWm.

Amanda SchArr – NovaCana
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