NovaCana

[Atualizado] Apenas um terço das usinas que entraram em recuperação judicial continuam ativas

joel thomaz bastos b 190814Matéria publicada hoje pelo Valor Econômico informa que muitas das usinas ainda continuam paradas. Resgate das usinas em recuperação judicial passaria pela atração de novos investimentos estrangeiros

NovaCana 6 min de leitura

Joel Thomaz Bastos, responsável pela recuperação judicial de 15 usinas sucroalcooleiras
Apenas um terço das usinas sucroalcooleiras em recuperação judicial no Brasil estão conseguindo continuar em operação, segundo revela a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) em matéria publicada nesta terça-feira (19) pelo jornal Valor Econômico. Para o jornal a entidade canavieira estimou que 66 unidades já pediram proteção da Justiça contra credores nos últimos seis anos, das quais apenas 20 estão de fato conseguindo operar. Já a RPA consultoria informa que seriam 24 usinas em operação, entre as 50 que estão atualmente em recuperação judicial. Além disso, outras nove empresas do setor passaram pelo processo e tiveram a falência decretada.

A inatividade seria causada por uma combinação de fatores, como os crescentes custos de produção, a rentabilidade baixa e uma sucessão de problemas climáticos. Sem funcionar, a usina fica ainda mais distante do cumprimento do plano de recuperação.

Estima-se que 30% das usinas em recuperação judicial estejam renegociando prazos de pagamento já aprovados por credores. Com a dificuldade de retomada dessas empresas, diz o jornal, os bancos aceitam alongar diversas vezes as dívidas de uma mesma empresa, de forma a evitar que ela entre em recuperação.

Apesar da dificuldade, o advogado Joel Thomaz Bastos, sócio da Dias Carneiro Advogados, afirma que as empresas em recuperação judicial estão melhor do que se tivessem ido à falência. "Muitas estão com o plano aprovado, estão moendo cana-de-açúcar, gerando empregos", disse Bastos. O escritório cuida, no momento, da recuperação judicial de 22 empresas, 70% delas usinas de cana-de-açúcar.

Na opinião do advogado, a solução para resgatar usinas em recuperação judicial passa pela atração de novos investimentos estrangeiros. A tendência, de acordo com ele, é que operações de fusões e aquisições envolvendo essas companhias sejam capitaneadas por fundos de private equity nacionais ou estrangeiros.

No entanto, para isso é preciso que sejam esclarecidas as questões regulatórias do mercado de combustíveis no Brasil - controle dos preços da gasolina e um marco regulatório para a participação do etanol na matriz energética do país. No momento não há interesse nas transações e Bastos estima que o ambiente fique mais propício para fusões e aquisições a partir de 2016.

Filão para os bancos

Na visão de Bastos, outra saída seria ampliação do crédito à disposição das unidades em recuperação. Ao Valor, ele afirmou que este é um grande filão para os bancos, mais ainda falta essa percepção. Segundo ele, a vantagem para as instituições financeiras seria que, além de emprestar a taxas de juros mais elevadas, teriam o direito de, em caso de falência, serem os primeiros a receber.

O advogado defende ainda que o modelo de plano de recuperação baseado na conversão de dívida em ações é uma alternativa viável em alguns casos. Esse foi o perfil do plano aprovado pelos credores do grupo paulista Baldin, que entrou em recuperação em 2011. Os antigos proprietários da empresa foram diluídos e ficaram com 25% do negócio. Os 75% restantes foram "entregues" aos credores, que receberam um papel (bônus) conversível em ações da empresa.

A Aralco, que pediu recuperação judicial em março, menos de um ano após emitir US$ 250 milhões em bonds, fez uma proposta semelhante aos credores. Na proposta, que deve ser avaliada em assembleia no fim de setembro, a ideia é converter 60% da dívida em participação acionária em uma nova empresa, que seria criada para ficar com o controle dos ativos do grupo.

Nesta semana o escritório Felsberg Advocacia deve entregar seu parecer sobre a proposta da Aralco, aos detentores dos bonds, apurou a reportagem do Valor Econômico. A empresa é encarada com certa desconfiança pelo mercado, após apresentar a investidores na ocasião da captação números que não foram cumpridos. Entre as causas de desconfiança está a projeção de moer 6 milhões de toneladas de cana em 2013/14, quando, de fato, o volume foi muito abaixo disso, ficando em 5 milhões de toneladas.

Usinas em recuperação

A mais recente sucroalcooleira a pedir proteção contra credores no país é o Grupo Andrade que teve seu pedido de recuperação judicial aceito pela comarca de Santa Vitória (MG) no dia 15 de julho. Segundo a publicação, o dono da usina, José Carlos de Andrade, ainda busca captar recursos para iniciar a safra 2014/15.

A primeira usina a entrar em recuperação judicial pós-crise de 2008, a Infinity Bioenergia quase não conseguiu processar cana neste ciclo 2014/15. Há poucas semanas, duas de suas seis unidades conseguiram efetivamente iniciar a safra e uma terceira deverá retomar a operação neste mês. Em janeiro, a empresa convocou acionistas para levantar recursos e chegou a informar que estava vendendo caminhões para pagar a folha de funcionários. Uma nova renegociação com credores terá de ser realizada em busca de uma extensão de prazos de pagamento, conforme apurou o Valor.

No ano passado, duas usinas em recuperação foram vendidas para pagar credores e tiveram os ativos transferidos para uma Unidade Produtiva Independente (UPI). A primeira foi a Campestre, de Penápolis (SP), vendida ao grupo Clealco e que está operando, com o andamento da recuperação considerada positivo pelo mercado.

Já na usina Floralco, localizada em Flórida Paulista (SP), mais de um ano depois de ser vendida à GAM Participações, não está operando. A compradora alega que não consegue iniciar a moagem porque ainda está aguardando a liberação da inscrição estadual da Flórida Paulista Açúcar e Etanol, como foi batizada a nova empresa. Sem a liberação do documento não é possível sequer emitir nota fiscal, além disso, o atraso fez com que a empresa ficasse impossibilitada de captar recursos e fazer investimentos.

Na região Nordeste, são cerca de 12 usinas em recuperação judicial.

Segundo a Unica, muitas outras unidades têm "potencial" para também entrarem em recuperação judicial, a considerar que o endividamento total das usinas brasileiras, cerca de R$ 60 bilhões, supera o faturamento do setor.

graf-usinas recup-judicial

Atualização 19/08 14h20m: De acordo com informações do CEO da RPA consultoria, Ricardo Pinto, existem atualmente 50 usinas em recuperação judicial. O acompanhamento feito pela empresa indica que outras nove empresas entraram com pedido mas já tiveram a falência decretada, e, assim, não integram a lista de unidade em recuperação judicial. O trabalho constatou ainda que dessas unidades, 24 ainda estariam ativas, e não 20 como estimado pela Unica. O título e texto desta notícia foi alterado para refletir esta atualização.
 
As notícias completas do Valor Econômico sobre assunto estão disponíveis no site do jornal aqui e aqui.

NovaCana
Compartilhar: