Analisar as usinas de açúcar e etanol no Brasil não é tarefa fácil. Dizer que as usinas são ineficientes é ignorar a elite sucroenergética e, ao mesmo tempo, o setor possui empresas em situação lastimável. Uma companhia pode ter baixa produtividade no campo, alta eficiência na usina e saúde financeira crítica. O campo, a indústria e as finanças impactam de forma diferente cada unidade de produção no Brasil. Com variações gritantes entre elas.
Analisar as usinas de açúcar e etanol no Brasil não é tarefa fácil. Dizer que as usinas são ineficientes é ignorar a elite sucroenergética e, ao mesmo tempo, o setor possui empresas em situação lastimável.
Uma companhia pode ter baixa produtividade no campo, alta eficiência na usina e saúde financeira crítica. O campo, a indústria e as finanças impactam de forma diferente cada unidade de produção no Brasil. Com variações gritantes entre elas.
Assim, uma das melhores forma de estudar o mercado é coletar indicadores a partir de uma amostra grande de usinas. Exatamente o trabalho que um grupo de pesquisadores se propôs a fazer. Neste ano a amostra alcançou 130 usinas.
A grande heterogeneidade e distância entre a competitividade das usinas brasileiras fazem com que as mesmas se situem entre dois grupos extremos. Um é das unidades bem estruturadas, que têm melhores práticas industriais e de manejo e, principalmente, de gestão corporativa. O outro são das usinas com baixos indicadores de produtividade e elevados custos de produção, em situação crítica tanto operacional quanto financeira.
Essa disparidade entre os grupos empresarias é o que deve determinar qual curso cada um seguirá diante de uma convergência de fatores que o setor deve começar a experimentar, “levando a maioria das empresas a terem ligeiras recuperações”.
Quadrantes
Analisando a distribuição da produtividade agrícola e agroindustrial do etanol hidratado na safra 2015/2016, a pesquisa dividiu, em um primeiro momento, 43 companhias em quatro quadrantes.
Em outro foco do trabalho, com uma amostra maior, de 56 unidades de produção, o estudo analisou o custo contábil (que mede a aplicação de recursos para produção, distribuição e comercialização de produtos) versus a moagem por milhões de tonelada de cana. O custo é uma ponderação para produção e comercialização de açúcar e etanol (veja a sequência de gráficos a seguir).
O custo contábil é importante pois, sem custo de capital ou de encargos financeiros, é mais fácil avaliar a viabilidade econômica, isolando a operação da usina.
O NovaCana apresenta detalhes e uma série de gráficos sobre o trabalho a seguir:
- Recuperação pelo preço X recuperação pela eficiência
- Evolução do Custo médio de produção X Lucro contábil do setor
- Custo de produção de etanol hidratado por localização (mapa geográfico)
- Produtividade industrial (etanol hidratado)
- Produtividade agrícola
- Custo contábil
- Moagem por unidade produtiva
Analisar as usinas de açúcar e etanol no Brasil não é tarefa fácil. Dizer que as usinas são ineficientes é ignorar a elite sucroenergética e, ao mesmo tempo, o setor possui empresas em situação lastimável.
Uma companhia pode ter baixa produtividade no campo, alta eficiência na usina e saúde financeira crítica. O campo, a indústria e as finanças impactam de forma diferente cada unidade de produção no Brasil. Com variações gritantes entre elas.
Assim, uma das melhores forma de estudar o mercado é coletar indicadores a partir de uma amostra grande de usinas. Exatamente o trabalho que um grupo de pesquisadores se propôs a fazer. Neste ano a amostra alcançou 130 usinas.
A grande heterogeneidade e distância entre a competitividade das usinas brasileiras fazem com que as mesmas se situem entre dois grupos extremos. Um é das unidades bem estruturadas, que têm melhores práticas industriais e de manejo e, principalmente, de gestão corporativa. O outro são das usinas com baixos indicadores de produtividade e elevados custos de produção, em situação crítica tanto operacional quanto financeira.
Essa disparidade entre os grupos empresarias é o que deve determinar qual curso cada um seguirá diante de uma convergência de fatores que o setor deve começar a experimentar, “levando a maioria das empresas a terem ligeiras recuperações”.
“São dez anos de pesquisa no setor e, nas últimas três ou quatro safras, é possível notar uma tendência de melhoria em produtividade e, além disso, de qualidade dos indicadores”, destaca o economista e gestor de projetos do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) da Esalq/USP, Haroldo Torres
A conclusão foi realizada a partir de recortes de um estudo realizado pela Companhia Brasileira de Custos Agropecuários (CBCA), sobre a produtividade agrícola e agroindustrial de 130 usinas sucroalcooleiras.
“Já enxergamos uma melhoria dos indicadores de produtividade e de qualidade, justamente nesse momento de recuperação dos preços. E o que o estudo mostrou é que há espaço para melhoria da eficiência.”
Torres afirma que é possível olhar o setor no médio prazo com um otimismo moderado. A razão é que se essa “tendência de melhora” continuar no ritmo que tem se verificado, o setor pode viver um cenário de redução de custos na medida que a produtividade e qualidade de matéria-prima aumentam.
Essa visão ganha força com a perspectiva de déficit global de açúcar e preços altos. “Há uma convergência também de bons ventos para o setor no que diz respeito às margens econômicas. Já enxergamos uma melhoria dos indicadores de produtividade e de qualidade, justamente nesse momento de recuperação dos preços. O que o estudo mostrou é que há espaço para melhoria da eficiência ”, defende.
Segundo o economista, há uma ineficiência técnica de produção de matéria-prima de 25%. “Isso significa um espaço de crescimento no setor sucroalcooleiro. Diferente de outros setores em que você trabalha com uma ineficiência muito baixa”, analisa.
No entanto, analisa o pesquisador, há diferença no modo que os grupos empresarias vão aproveitar o momento.
As usinas bem estruturadas estão aproveitando esse momento para expansão: não só do nível da capacidade industrial (especialmente de cristalização), como também do nível de produção da matéria-prima - renovando seu canavial, buscando melhores práticas de manejo, investindo em controle de pragas e doenças e em novas variedades.
Já o outro grupo tem um foco mais básico, trabalhando na reestruturação interna. “Para alguns grupos do setor esse processo de convergência vai ser muito lento, pois são aqueles que aproveitam o momento para reestruturação de dívida e de fluxo de caixa”, afirma.
Heterogeneidade produtiva
A heterogeneidade apontada por Torres aparece em uma série de gráficos do recorte do estudo realizado pela CBCA. Analisando a distribuição da produtividade agrícola e agroindustrial do etanol hidratado na safra 2015/2016, a pesquisa dividiu, em um primeiro momento, 43 companhias em quatro quadrantes. A amostra engloba nove unidades do Nordeste; 16 do Centro-Oeste e 17 do Sudeste (veja gráficos abaixo).
A separação mostra a dispersão das sucroalcooleiras em relação à produtividade industrial, sob a perspectiva do rendimento na obtenção de litro de etanol hidratado, e da produtividade agrícola, medida por tonelada de cana por hectare. Enquanto algumas usinas são industrialmente muito eficientes e possuem canaviais altamente produtivos, outras estão em outro extremo.
É o caso da maioria das usinas do Nordeste, localizadas no quadrante esquerdo inferior do diagrama: baixa produtividade no campo e pouco eficiência na usina.
Neste pior quadrante ainda estão três usinas do Sudeste e outras três do Centro-Oeste. “Essas são aquelas que precisam passar por um processo de mudança de patamar. A produção deve também percorrer o desenvolvimento baseado em eficiência”, destaca Torres.
“O principal problema dessas usinas é a falta de um rigoroso controle de gestão do seu custo de produção e de estratégias definidas que vão além da comercialização”, aponta.
Por essa razão, discorre o pesquisador, quando se enxerga os indicadores econômicos dessas usinas, eles estão refletindo “nada mais que os piores indicadores técnicos: uma junção de falta manejo, práticas obsoletas e técnicas de gestão muito antigas”. “Se olharmos para a algumas usinas do Nordeste, os problemas se alongam. Isso acontece, por falhas técnicas, sob o ponto de vista de gestão”.
Já as usinas localizadas no quadrante direito superior são aquelas com maior eficiência tanto agrícola quanto industrial. São ao todo 16, sendo metade do Sudeste e a outra do Centro-Oeste. “As usinas desse grupo são caracterizadas por melhores práticas de manejo e, principalmente, melhores práticas de gestão corporativa”, afirma Torres.
É possível ver também, em observação ao quadrante, que há um grupo de usinas do Centro-Oeste com bom rendimento no campo, mas que, industrialmente, permanecem abaixo das usinas do Sudeste. A produtividade agrícola do Centro-Oeste está relacionada não só à topografia que propicia uma melhor acomodação da região para colheita, como está ligada aos módulos de produção e áreas de tamanho maior. “É um setor que ainda se beneficia de grandes áreas, consorciadas com outras culturas. E o benefício vem na depreciação ou outros custos fixos. É uma região que está um passo acima da região Sudeste em produtividade agrícola, mas ainda com menores indicadores de produção industrial. ”
Segundo Torres, de um modo geral, as empresas do primeiro quadrante, especialmente as do Centro-Oeste, precisam lidar com impurezas, minerais e vegetais, que ainda são levadas do campo para indústria, contribuindo para um valor de “geramento” mais elevado nessa região. “Esse é o grande desafio com que alguns grupos localizados na região Centro-Oeste têm se deparado, ligado ao processamento em si da matéria-prima.”
Heterogeneidade Econômica
Com uma amostra maior, de 56 unidades de produção, o estudo analisa também o custo contábil (que mede a aplicação de recursos para produção, distribuição e comercialização de produtos) versus a moagem por milhões de tonelada de cana. O custo é uma ponderação para produção e comercialização de açúcar e etanol.
No gráfico percebe-se que há um distanciamento maior entre os custos das empresas que se encontram na faixa de moagem entre 2,5 milhões de toneladas a 3 milhões de toneladas na safra 2015/16 (ao centro do gráfico). Já nas extremidades do gráfico, a exemplo das empresas com moagem superior, as unidades do centro-sul são mais homogêneas no que se refere aos custos por tonelada de cana.
Torres confirma que a variabilidade dos custos de produção ela é muito menor para os maiores grupos em termos de moagem. “Isso se dá principalmente devido a uma melhor estratégia de alocação de áreas de produção de cana própria”, diz.
Por outro lado, na faixa onde residem as usinas com nível de moagem intermediário, entre 2 a 3 milhões de cana moída, está a maior diferença para o centro-sul. Segundo o economista, quando se fala em uma usina típica brasileira, estamos falando de uma unidade com moagem em torno de 3 milhões de toneladas de cana. “É justamente aí onde está o maior déficit, porque são usinas concentradas em áreas com muitas outras unidades, então há uma competitividade por terra e consequentemente por matéria-prima”, discorre.
Ele analisa que o custo de produção é resultado de uma série de indicadores, principalmente da estratégia usada pela usina. “Quando olhamos para algumas empresas, há algumas cuja participação de áreas arrendadas é muito expressiva, e, se essas áreas arrendadas estão em um raio muito maior, você vai ter um impacto mais sensível”, afirma.
Localização
Torres analisa que as disparidades entre as usinas do setor ficam mais visíveis quando se extrapolam os dados de custos para os municípios brasileiros. “Em algumas regiões bem específicas, o custo é quase o dobro do que em outras. Há um efeito, importante a ser destacado, com uma forte característica geográfica. Afinal, a qualidade da matéria-prima é muito espacial”.
No mapa, que mostra o custo econômico por mil litros de etanol (R$/m³) por município, percebe-se que em regiões relativamente próximas o custo econômico variou de R$ 2,2 a R$ 2,4 o litro do etanol hidratado para R$ 1,2 a R$ 1,4 o litro do combustível.
Torres explica que ficam evidentes os fatores exógenos na produtividade da cana. De acordo com dados do pesquisador, a variabilidade da produção de cana-de-açúcar está associada a três fatores.
O clima – seja a radiação solar, deficiência hídrica ou precipitação – correspondem a 43% de toda a variabilidade da eficiência de produção de cana. Por outro lado, o solo é 15% e os fatores como manejo e socioeconômicos respondem por 42% da variabilidade da produção de cana. “Por essa razão o custo de produção é reflexo dessa condição climática e localização das usinas. Mais de 50% da variabilidade da produção de cana no Brasil não é controlável pela usina”.
Segundo Torres, quando olhamos para produtividade desta safra é nítido que o fator climático e o solo foram os grandes responsáveis pela grande variabilidade da eficiência e da produtividade até esse momento na temporada 2016/17. “É isso que esse mapa de custo mostra: regiões que são competitivas, mas, geograficamente, a aptidão climática e de solo trazem gargalos. Logo, nessas regiões as usinas têm que trabalhar, não só com uma eficiência de operação e de gestão, como também precisa saber lidar com as questões da própria região”.
Já, os fatores socioeconômicos são, principalmente, aqueles ligados à qualidade da mão de obra tanto agrícola quanto industrial. “Esse é um elemento observado, na prática, em qualquer região: encontrar mão de obra, mesmo com as taxas de desemprego que observamos, qualificada e condizente ao nível de operação tem sido uma grande dificuldade.”
O pesquisador ainda acrescenta que o objetivo do mapa foi justamente mostrar essa heterogeneidade. “Em alguns casos, romper essa heterogeneidade é um processo muito difícil, principalmente quando o fato for geográfico. Por outro lado, há um fator relativamente fácil de resolver, que é quando ligado às práticas de gestão, tecnologias empregadas e o manejo”.
Evolução dos Custos de Produção
O pesquisador ainda apresenta um panorama dos custos do setor, em uma relação de preços, custo de produção (medido por R$/Kg ATR) - médio, máximo e mínimo; e lucro contábil (sem o custo de capital, ou seja, retorno dos investimentos). Assim, naquelas safras que acabaram no vermelho, percebe-se que o custo mínimo esteve bem próximo dos preços de venda, enquanto os custos médios estavam superiores aos preços, resultando em prejuízo contábil para as usinas. Por outro lado, quando se olha na safra 2015/16, o custo médio já fica abaixo do preço.

No entanto, enfatiza, o importante é perceber que há usinas cujo custo médio é muito abaixo do preço e outras em que o custo está muito acima do próprio preço de mercado. “Essa ponta máxima e mínima no gráfico é para mostrar aquela disparidade geográfica, a dispersão de custos. Mesmo no anos em que o setor registrou prejuízo tivemos bons exemplos dentro do setor”.
Segundo o pesquisador, há um benchmarking muito claro de usinas de referência que estão tendo um desempenho operacional e econômico muito bom.
“Não posso considerar o custo médio do setor, porque ela é uma média poluída. Tenho um valor depreciado por usinas, como as do Nordeste, com baixos indicadores de produtividade e elevados custos de produção”.
Por meio do gráfico, é possível enxergar que, de fato, existe no Brasil usinas com grande performance, baseada em redução de custo, segundo o pesquisador. Por essa razão, frisa o pesquisador, são apresentados os resultados financeiros sem o custo de capital. “Há empresas com uma estrutura de endividamento e alavancagem tão acentuadas, que essa análise acaba se invertendo. Por isso eu olhei para análise no custo contábil, sem custo de capital ou de encargos financeiros, justamente para ter a sensibilidade da operação e sua viabilidade econômica.”
“Produção de cana é um ativo bom e interessante, mas, por outro lado, o nosso passivo do lado direito do balanço patrimonial estava muito destruído em termos de qualidade da dívida”, acrescenta Torres. Segundo ele, o setor passa agora por um processo de arrumar “o lado direito do balanço”, mas é um lado que ainda vai comprometer a capacidade de melhorar o lado esquerdo, que se refere ao ativo, incluindo o ativo biológico de cana.
Para este ano o pesquisador prevê um aumento dos custos de produção agrícola inferior as taxas médias verificadas nas últimas safras. O que nós temos percebido [até 31 de outubro] é que a curva de preço tem crescido em uma taxa muito maior do que o custo de produção. Então é uma recuperação do setor sucroenergético baseada em preço e, não ainda, sedimentada em melhores práticas agrícolas e melhores indicadores técnicos”, prevê.
Marina Gallucci – NovaCana
