Carros

Carros

10 anos de veículos flex: pausa para reflexão


Unica - Publicado: 01 Abr 2013 - 11:26 | Atualizado: 15 Out 2015 - 14:24

No dia 24 de março de 2003, na festa comemorativa dos 50 anos da Volkswagen no Brasil, com a presença do Presidente Lula e do Governador Alckmin, foi lançado o Gol Total Flex 1.6, primeiro veículo nacional equipado com a tecnologia Flex. Iniciava-se um ciclo de revigoração para a engenharia automobilística nacional que, depois do declínio do carro a álcool, não via oportunidade semelhante para inovação tecnológica.

Logo após o lançamento da Volkswagen não tardou para que a General Motors e a Fiat apresentassem ao mercado versões Flex de seus produtos. De resto, todos conhecem a história. Com a boa aceitação da tecnologia pelo consumidor, especialmente pelo fato de oferecer a liberdade de escolha do combustível, as demais montadoras no país passaram gradualmente a substituir os modelos existentes, a gasolina, por versões Flex.

Atualmente existem no mercado quinze marcas que oferecem veículos com essa tecnologia ao consumidor, inclusive algumas que apenas importam veículos, pois sabem que seus produtos não seriam competitivos caso fossem abastecidos apenas com gasolina. O índice de veículos Flex é alto no portfólio de produtos oferecidos, havendo montadoras que tem 100% de seus veículos produzidos nessa versão.

Os números comprovam o sucesso da tecnologia. Em 2003, quando foi lançado o primeiro Flex, as vendas desses veículos atingiram 4% do total das vendas de veículos leves no país. Em 2012, a sua participação no mercado atingiu o recorde de 87%. Se desconsiderarmos a participação de veículos com motor diesel nesse segmento, o percentual dos veículos Flex no mercado de veículos leves ultrapassa 90%.

Ao todo, já foram vendidos no País mais de 19 milhões de veículos com essa tecnologia. Se considerarmos os 10 milhões adicionais de veículos Flex que circulam em outros países, a sua esmagadora maioria nos EUA, temos o único caso na história automobilística mundial de possibilidade de consumo de um combustível renovável, alternativo aos derivados de petróleo, em grande escala.

O excelente desempenho comercial da tecnologia Flex nos automóveis, picapes e utilitários inspirou o setor de duas rodas a seguir esse exemplo. Em junho de 2009, a Honda lançou no Brasil a CG Titan 150 Mix, primeira motocicleta Flex do mundo. Na sequencia a Honda lançou mais quatro versões similares e a Yamaha, em 2012, decidiu entrar nesse mercado com uma motocicleta de maior porte, a Fazer 250 Blue Flex. No total, as vendas de motos Flex já ultrapassam 60% das vendas totais desses veículos no país.

A inserção dessa tecnologia em nosso mercado também trouxe novo alento para o setor sucroenergético, que passou por um ciclo de notável crescimento num cenário econômico que por vários anos permitiu uma competição saudável entre o etanol e a gasolina.

Diferentemente do que muitos acreditam, a tecnologia Flex não nasceu no Brasil. Na década de 1980, tendo que enfrentar os altos preços dos derivados do petróleo, os países industrializados lançaram diversas iniciativas para promover o uso de combustíveis alternativos. Contudo, havia o desafio de convencer as montadoras a desenvolver veículos para combustíveis que ainda não existiam no mercado e, por outro lado, estimular a produção de combustíveis alternativos para um mercado consumidor que ainda não existia.

Surgiu, então, a ideia de se produzir um veículo que operasse com gasolina, mas que também pudesse consumir um combustível alternativo nas regiões onde o produto estivesse disponível. Estados Unidos, Europa e Japão investiram esforços de pesquisa na ideia, pensando inicialmente na mistura de 85% metanol e 15% de gasolina (M85) como o combustível alternativo de preferência.

Mas foi nos EUA que o conceito se desenvolveu mais rapidamente, estimulado por uma legislação federal que dá incentivos para as montadoras que desenvolvem veículos para combustíveis alternativos. Em 1992, a General Motors lançou nos EUA o sedan Lumina, primeiro veículo Flex produzido em escala industrial.Posteriormente, em 1995, se verificou que a substituição do metanol pelo etanol na mistura seria vantajosa sob diversos aspectos e a formulação 85% etanol e 15% de gasolina (E85) se consolidou como referência.

Apesar da tecnologia Flex não ter sido originalmente desenvolvida no Brasil, foi aqui que ela foi aperfeiçoada, permitiu o uso de 100% de etanol e ganhou popularidade, ultrapassando em vendas o mercado desses veículos nos EUA. Um dos fatores que contribuiu para isso foi a existência de uma ampla rede de abastecimento de etanol no país, enquanto a infraestrutura de distribuição do E85 nos EUA ainda é muito limitada.
Passados dez anos de seu lançamento no Brasil, a tecnologia Flex evoluiu, mas ainda não a ponto de extrair do etanol todo o potencial energético que a elevada octanagem do produto possibilita. A própria indústria automobilística reconhece que existe potencial para melhorar o consumo de etanol em relação à gasolina.

Especialistas acreditam que com mais investimentos em tecnologia, seria possível atingir a paridade de consumo com a gasolina em 80% em vez dos 65% a 70% que se tem hoje. Aumento na taxa de compressão, injeção direta de combustível, comando de válvula variável, turbo compressor de geometria variável, pré-aquecimento do etanol na partida a frio e sistema híbrido de propulsão são algumas das tecnologias de que as montadoras já dispõem para uso comercial e que poderiam tornar o etanol mais atrativo.

Contudo, existem desafios a vencer já que o veículo Flex é projetado para operar com  etanol ou gasolina, combustíveis que apresentam características distintas, ou ainda, qualquer mistura desses combustíveis. Seria desejável, portanto, que os projetos dos motores tivessem o etanol como base ao invés da gasolina, como é comum hoje. De todo modo, é fundamental que novas tecnologias eventualmente introduzidas nos projetos das próximas gerações de motores Flex sejam suficientemente baratas para que o veículo seja acessível para o consumidor.

Recentemente, o Governo Federal lançou um programa de inovação para o mercado automobilístico, denominado Inovar Auto, com o objetivo de incentivar a produção de veículos com tecnologias mais avançadas e com menor consumo de combustível. Contudo, apesar dos méritos da iniciativa e dos incentivos oferecidos, o programa apresenta uma lacuna que é a falta de estímulos para que se busque maior competitividade para o etanol em relação à gasolina.
Portanto, um ajuste no Inovar Auto, estabelecendo metas de paridade que possam induzir maior competitividade para o consumo do etanol, seria um belo presente para a comemoração dos dez anos do carro Flex.

Outro importante presente seria a definição de políticas públicas que, de fato, reconhecessem as externalidades econômicas, sociais e ambientais positivas que a produção e o uso em larga escala do etanol trazem para o país. Políticas públicas bem estruturadas são um ingrediente essencial para gerar condições que incentivem um novo e longo ciclo de desenvolvimento para o setor sucroenergético.