Usinas

Setor de etanol brasileiro apela para o governo em meio a uma crise mundial

Representantes das usinas estão elaborando uma lista de pedidos com o objetivo de obter ajuda do governo para enfrentar momento de dificuldade


novaCana.com - 24 mar 2020 - 11:22

Enquanto as perspectivas apontavam para uma renovação das esperanças e até mesmo para a volta dos investimentos – puxados pelo RenovaBio e por um contexto favorável ao mercado de açúcar –, 2020 recebeu o setor sucroenergético com um balde de água fria.

Além de todas as dificuldades inerentes à pandemia do coronavírus, as consequências econômicas da atual situação envolvem uma queda brusca nos preços internacionais de petróleo e na demanda doméstica. Estes dois fatores afetam diretamente o mercado de etanol, responsável pela fonte de recurso com maior liquidez para as usinas – um aspecto especialmente importante para o momento atual, de fim de entressafra.

A menor demanda por etanol sugere um aumento na produção de açúcar. Porém, com uma maior oferta vinda do Brasil – o maior exportador mundial da commodity –, os preços do adoçante também despencaram.

Em 21 de fevereiro, por exemplo, o contrato de futuros negociado em Nova York com fechamento em maio encerrava o dia com a cotação de 15,12 centavos de dólar por libra-peso. Menos de um mês depois, em 19 de março, esse valor caiu 30%, para 11,59 centavos.

Em um primeiro momento, o discurso das usinas de etanol seguia firme em relação ao contexto pré-coronavírus: era preciso deixar o mercado regular os preços. Em entrevista ao novaCana publicada em 10 de março, o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, posicionava-se contra qualquer intervenção governamental.

“O setor sempre defendeu e sempre trabalhou pela questão da liberdade de mercado”, afirmava, completando: “O setor aprendeu a conviver com o preço do petróleo, na alta e na baixa. Nós tivemos dois episódios no passado que foram o contrário: o preço foi lá para cima e, de repente, se ajustou rapidamente. Neste caso, será que não pode ocorrer a mesma coisa?”.

Na ocasião, especialistas no setor, como o sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, recomendavam mudanças na Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). A ideia seria melhorar a competitividade do etanol por meio do aumento no imposto cobrado sobre o valor da gasolina.

Agora, porém, as atitudes sugeridas parecem ser ainda mais drásticas. Afinal, não se trata apenas de reequilibrar os preços nos postos: é preciso lidar com um contexto de crise mundial de proporções ainda desconhecidas.

Uma reportagem publicada ontem (23) pelo Valor Econômico aponta que Unica, União Nacional do Etanol de Milho (Unem) e representantes estaduais do setor já estão conversando com o Ministério de Minas e Energia (MME) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a fim de elaborar um conjunto de pedidos que será apresentado ao comitê de crise do governo.

A princípio, a reportagem apurou que há duas principais demandas, além da já mencionada possibilidade de aumento da Cide:

  1. Não recolhimento de PIS e Cofins por 120 dias: O objetivo é criar um reforço para o capital de giro das usinas, especialmente por conta das necessidades do início da safra 2020/21, previsto para abril. As usinas podem se comprometer a pagar os impostos posteriormente, talvez ainda em 2020.
  2. Criação de uma linha de financiamento do BNDES: Com isso, as usinas visam manter os investimentos necessários para a manutenção dos canaviais, impedindo quedas buscas de produtividade nas próximas temporadas. Existe a possibilidade de que apenas as companhias certificadas no programa RenovaBio tenham acesso ao recurso.

O alcance dessas medidas, porém, não impede que o setor tenha uma perspectiva de futuro complexa. Com muitas unidades endividadas em dólar, o real desvalorizado e os preços em baixa, é possível que empresas pouco capitalizadas precisem de uma ajuda ainda maior – algo que se torna mais distante em um quadro geral de dificuldades econômicas.

Por mais que ainda seja cedo para apontar as consequências que o coronavírus trará para a economia, uma coisa parece certa: elas serão duradouras. E para setores como o sucroenergético, que – além de serem diretamente afetados – ainda não se recuperaram totalmente de outras crises, as sequelas podem ser ainda mais doloridas.

Renata Bossle – novaCana.com
Com informações do Valor Econômico

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