Estudo da Wiabiliza analisa o número de colaboradores necessário a cada um milhão de toneladas de cana e a remuneração destes trabalhadores, por área. Também traz a incidência de cargos nas áreas financeira, administrativa e de recursos humanos

NovaCana 09 jun 2020 - 08:56 - Última atualização em: 01 out 2020 - 09:30

O setor sucroenergético está familiarizado com indicadores da saúde financeira e operacional das usinas, como moagem versus dívida, Ebitda por moagem ou faturamento líquido por moagem. Mas quantas pessoas são necessárias para moer uma tonelada de cana-de-açúcar? Ou ainda: quantos reais de salário são gastos para esmagar essa mesma tonelada?

Estes dois indicadores foram trazidos em uma pesquisa realizada pela consultoria empresarial Wiabiliza. Cruzando os dados, o novaCana calculou os salários em cada uma das três áreas analisadas: agrícola, industrial e administrativa. Além disso, o estudo apontou a incidência de diferentes níveis hierárquicos nos setores administrativo, de recursos humanos e financeiro das empresas do setor.

A consultoria coletou dados da safra 2018/19 referentes a 15 grupos sucroenergéticos, totalizando 33 usinas. Elas representam 18,49% da moagem do Centro-Sul na safra em questão, com 106 milhões de toneladas de cana. Do total, dez grupos estão localizados em São Paulo, três em Goiás e dois em Minas Gerais.

A amostra completa do estudo foi dividida em quartis, com todos os números sendo ordenados do menor para o maior e divididos em quatro partes. Assim, as unidades do primeiro quartil, ou Q1, representam os melhores resultados dentro de cada aspecto do estudo.

Já as duas partes centrais formam o chamado Q2, enquanto as unidades do Q3 apresentaram os piores resultados. Ao repartir a amostra desta forma, os valores se tornam menos sensíveis a números muito discrepantes existentes no todo, como ocorreria em uma média simples.

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De acordo com o gerente de projetos e processos da Wiabiliza, Maurício Aimola, os números do Q1 de todas as três áreas representam o gasto com salários, a quantidade de pessoal e a remuneração mensal de uma usina ideal, já que concentram o melhor desempenho de cada uma das áreas.

Entretanto, nem sempre uma unidade consegue um desempenho eficiente em todas as áreas. “Quem está no Q1 agrícola não necessariamente se enquadra no Q1 administrativo. Tem empresa que é boa no administrativo e no campo e não é tão boa na parte industrial”, exemplifica.

Analisando o panorama geral, a área agrícola foi a que concentrou o maior número de colaboradores por milhão de tonelada esmagada, além do maior gasto em salários por tonelada moída; por outro lado, também apresentou os salários mais baixos. Enquanto isso, a área administrativa apresenta o inverso: um menor número de colaboradores e, consequentemente, de gastos com folha de pagamento, porém os salários são mais elevados.

Na mediana da amostra, a quantidade de pessoas a cada um milhão de toneladas de cana moída, somando todas as três etapas de produção, foi de 387,97. No primeiro quartil – 25% da amostra, representando as unidades mais eficientes –, as usinas precisaram de 300 pessoas ou menos para moer um milhão de toneladas de cana. Já as unidades no quartil que representa os piores desempenhos necessitam de pelo menos 500 colaboradores para realizar o mesmo trabalho.

Somente na área agrícola, estes números variaram de 226,74 a 371,77 pessoas, considerando os limites do melhor e do pior quartis, respectivamente. Neste caso, o valor central da amostra foi de 288,15.

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Já o montante gasto em salários pelas empresas para cada tonelada de cana moída, levando em conta as mesmas áreas, variou entre menos de R$ 9,65/t e mais de R$ 16,60/t. Novamente, a área agrícola concentra os maiores gastos, com os valores dos quartis oscilando de R$ 6,18/t a R$ 9,67/t.

De acordo com os números da Wiabiliza, uma unidade fictícia que esteja no centro da amostra tanto em relação à quantidade de funcionários quanto nos gastos com folha de pagamentos teria pago em torno de R$ 2.279,74 por mês a cada colaborador, descontando férias e 13º salário. Especificamente, um colaborador da área agrícola receberia R$ 1.892,72; da industrial, R$ 2.955,85; e da administrativa, R$ 5.200,08.

Campo concentra mais pessoal que indústria

Somente na área agrícola, o número de pessoas para cada milhão de toneladas de cana esmagada variou entre menos de 226,74 a mais de 371,77, considerando as usinas com maior e menor eficiências da amostra. Esta é a área que aloca a maior quantidade de pessoas.

“Tem um contingente maior na área agrícola. Enquanto a usina tem 300 pessoas, a parte agrícola tem 1.300”, destaca Aimola. De acordo com ele, o manejo demanda uma quantidade grande de funcionários, muito maior do necessário na parte industrial da usina.

Dos três setores que compõem essa área, o de produção demandou o maior número de colaboradores – entre menos de 177,43 e mais de 286,79 pessoas por milhão de tonelada. Já a parte de administração e planejamento teve a menor concentração, ficando entre menos de 8,02 e mais 28,61 pessoas, no mesmo comparativo.

O setor de produção também aloca os maiores gastos de remuneração por tonelada, tendo variado entre menos de R$ 4,24/t e mais de R$ 6,31/t. Administração e planejamento, por sua vez, envolve os menores valores, indo de menos de R$ 0,63/t a mais de R$ 1,40/t.

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Os maiores gastos na parte de produção podem ocorrer por conta de maiores especificidades no campo. O gerente exemplifica esta questão a partir de um cliente da Wiabiliza que possui 25 mil hectares plantados em uma área 100% irrigada. “Isso demanda um profissional diferente. Ele tem gerente de irrigação, supervisor de irrigação, líder de irrigação”, detalha.

Por outro lado, uma usina que tem somente 10% da sua área irrigada, por estar localizada em uma região mais chuvosa, não precisa destes colaboradores e, portanto, gasta menos em salários. “O que a gente observa é que, na área agrícola, tem uma variação em função das diferentes realidades. Como todos estão tentando manter sua produtividade média em tonelada de cana por hectare, cada um faz de um modo”, aponta.

Considerando os valores centrais da amostra, o salário mensal de profissionais de uma usina ficam em torno de R$ 1.538,37 para alguém do setor de produção, R$ 2.313,15 para quem trabalha na manutenção automotiva e R$ 6.018,39 para um colaborador da área de administração e planejamento.

Automatização reduz disparidade na indústria

Na parte industrial das usinas, os valores gastos em cada setor não variam tanto entre si como ocorre dentro da área agrícola. Conforme Aimola, a indústria envolve um processo muito controlado e mais uniformes.

A área envolve, também, uma menor quantidade de pessoas em comparação com a agrícola. Além do campo demandar mais profissionais, outro fator é que a usina tem mais processos automatizados. Mas, ainda assim, há disparidades. “Tem fábricas de açúcar onde quase tudo é automatizado, mas outras têm quase tudo manual”, destaca Aimola.

Isso faz com que a quantidade de colaboradores por usina tenha variado entre menos de 61,48 e mais de 106,05 pessoas, entre as usinas mais eficientes da amostra e as menos eficientes. Cada grupo possui 25% do total de usinas participantes e o valor é referente à quantidade de funcionários a cada um milhão de toneladas de cana.

Para analisar a área industrial, a Wiabiliza realizou nove subdivisões. Dentre elas, a que depende da maior quantidade de colaboradores é manutenção industrial – menos de 14,69 a mais de 25,46 profissionais. Enquanto isso, o que depende de menos pessoal é o setor de geração e distribuição de energia, em que o valor oscilou entre menos de 0,73 e mais de 2,33 profissionais por milhão de tonelada.

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Portanto, no agrupado da área industrial, os salários ficaram entre menos de R$ 2,54/t e mais de R$ 4,26/t. O setor de geração e distribuição de energia concentrou os menores custos, entre menos de R$ 0,03/t e mais de R$ 0,07/t. Na outra ponta, os salários no segmento de manutenção industrial, variaram de menos de R$ 0,67/t a mais de R$ 1,07/t.

Além disso, compõem a área os setores de saúde, segurança e meio ambiente (SSMA); administração e planejamento; produção de etanol; utilidades; laboratórios e controle de qualidade; produção de açúcar; e recepção, preparo e extração.

Considerando uma usina com o número de funcionários e a folha de pagamentos de acordo com a mediana do estudo, o salário mensal de um funcionários da área industrial é de R$ 2.955,85. Por segmento, o valor mais baixo ficou em geração e distribuição de energia, com R$ 2.000,50. Já administração e planejamento registrou um salário mensal de R$ 5.896,12, já descontando férias e 13º pagamento.

Setor administrativo tem remunerações mais elevadas

Seguindo esta tendência, os colaboradores da área administrativa das usinas têm salários mais elevados. Na mediana do estudo, os valores estão em R$ 5.200,08 por mês. O setor mais bem pago é o jurídico, com R$ 7.966,59 ao mês. No outro extremo, os salários mais baixos seriam no setor de suprimentos, com R$ 2.339,11.

De acordo com a pesquisa da Wiabiliza, a área administrativa demandou entre 3,82 e 26,55 pessoas para cada milhão de toneladas moídas, a menor concentração dentre as três áreas analisadas. Nela, o setor de administração foi o que exigiu a menor quantidade de pessoas no quartil mais eficaz, com menos de 0,77. Porém a menor mediana e o menor valor para o quartil menos eficaz foram no setor jurídico, com 1,13 e mais de 1,53, respectivamente.

Conforme Aimola, um dos possíveis motivos da menor quantia de pessoas na área jurídica está no fato de que é um serviço usualmente terceirizado, enquanto o setor de administração é indispensável. “Todo mundo tem contas a pagar e receber, tem atividade na parte de suporte administrativo”, considera.

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Por outro lado, o maior número de colaboradores foi na área financeira, variando de menos de 5,59 a mais de 7,77 pessoas.

Quanto à remuneração por cada tonelada de cana esmagada, as usinas mais econômicas gastam menos de R$ 0,93/t com os salários da área administrativa, enquanto as menos econômicas dispendem mais de R$ 2,13/t para remunerar seus funcionários.

O setor de administração concentrou os custos mais baixos dentro desta área, indo de menos de R$ 0,05/t a mais de R$ 0,30/t. Já os gastos mais elevados na área foram com o setor financeiro, variando entre menos de R$ 0,37/t e mais de R$ 0,83/t.

Nível de especialização e cargos

Um dos aspectos que leva à variação salarial dentro das usinas está no nível de especialização exigido dos colaboradores. Segundo Aimola, a mão de obra da operação tende a flutuar conforme o mercado, demonstrando certa estabilidade. Enquanto isso, os níveis hierárquicos mais elevados, como coordenação e gerência, detêm maiores variações de acordo com a localidade da empresa.

Ele explica que, se uma companhia vai se instalar muito distante dos grandes centros, a preocupação em encontrar mão de obra especializada é pequena. “A empresa está mais preocupada em saber se é uma boa área e se tem cana do que se tem engenheiro ou agrônomo por perto”, detalha. Com isso, muitas vezes o profissional especializado acaba tendo que se mudar dos grandes centros para o interior, aumentando o valor na folha de pagamento.

“Ele pode morar na região de Salvador e ter que ir para o sertão da Bahia para tocar uma usina. A diferença, quanto à localização, a gente observa mais nos níveis maiores da hierarquia. Nos níveis menores, acaba sendo o pessoal da região mesmo e aí entra o valor de mercado”, conclui

Inclusive, outro aspecto observado pelo estudo da Wiabiliza foi os principais cargos, ou níveis hierárquicos, que integram as áreas administrativa, financeira e de recursos humanos.

De todas as empresas pesquisadas, 80% tinha um gerente ou gestor na área de recursos humanos. De acordo com Aimola, é importante ter um profissional de nível hierárquico mais elevado dentro do RH, pois a área demanda um profissional mais experiente, que detenha uma visão global do time. Esta pessoa também é responsável pela implementação e coordenação de programas.

Outro ponto é a preocupação com a elevada concentração de funcionários demandada pelas usinas. “Eles têm uma mão de obra intensiva e precisam de alguém para lidar com pessoas”, completa o gerente da Wiabiliza.

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Já na área administrativa, Aimola pontua que muitas usinas contam com processos mais automatizados. Logo, apenas 40% delas possuem um gerente ou gestor. Em contrapartida, 80% detêm ao menos um técnico ou analista.

“Os processos são menos complexos e as empresas já têm uma maturidade, ou seja, a mão de obra já sabe como conduzir o dia a dia de uma usina. Então eu não preciso necessariamente de um gerente, posso colocar um analista ou um coordenador”, detalha Aimola.

No setor financeiro, a figura do coordenador é importante, segundo o profissional, pois é preciso alguém experiente tanto para conter despesas quanto para fazer um bom orçamento para a empresa.

Ganho de eficiência equivale à economia

Outro demarcador de diferença nos resultados das empresas está no modelo de gestão. “As empresas que aplicam ferramentas e modelos de gerenciamento modernos, além de tecnologias, têm um desempenho melhor independentemente de onde esteja localizada. Isso varia bastante”, diz Aimola.

Ele completa, porém, que não há possiblidade de implantar um modelo de negócio moderno se a especialização da mão de obra não acompanhar o progresso. “Se eu tenho uma tecnologia diferente de manejo, mas minha mão de obra ou infraestrutura não estão preparadas, a usina verá que tem gente [concorrentes] que faz o mesmo trabalho pela metade do custo”, completa.

Aimola também defende que as unidades precisam traçar metas para melhoria de desempenho e redução de perdas. Para isso, seriam necessários planos de ação com objetivos intermediários, por exemplo.

De acordo com ele, se uma empresa faz o mesmo trabalho do que outra, mas com um menor número de funcionários, é preciso encontrar os pontos de falha. “Ou é porque ela sabe fazer melhor e mais rápido, ou porque aprendeu algo diferente que faz com que não precise de tanta gente, ou o pessoal é melhor preparado. Algo na equipe faz com que uma seja mais eficaz que a outra”, afirma.

Aimola enxerga que, normalmente, estas diferenças estão em questões relacionadas com tecnologia e automação. “Imagina uma empresa que tem uma usina velha e precisa de muita manutenção e outra com mesmo poder de moagem, mas com uma usina nova. A usina nova tem menos gente para fazer manutenção, pois ela quebra menos”, exemplifica.

Outra questão está na área agrícola, na qual o desempenho é mais eficaz com uma frota de maquinário sempre atualizada. “Se a usina pega o valor de depreciação do balanço financeiro e realmente investe em novos equipamentos, ela estará sempre mantendo o parque atualizado. A manutenção é baixíssima”, explica Aimola.

Em contrapartida, uma empresa que não tem boas administração e gestão e não investe em novos equipamentos fica com o parque mais obsoleto. Isso, por sua vez, exige mais funcionários para manter as máquinas funcionando.

Desta forma, o profissional da Wiabiliza crê que, no caso das usinas – que comercializam produtos com preços definidos pelo mercado –, a única forma de melhorar os resultados é trabalhar na redução do custo por unidade de produção.

Gabrielle Rumor Koster – novaCana.com