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Panorama das certificações do RenovaBio – oito usinas de etanol estão em consulta pública

Levantamento do novaCana reúne principais indicadores e projeções de rendimento de todas as unidades que já apresentaram a documentação para ingressar no programa


novaCana.com - 29 jul 2019 - 12:13 - Última atualização em: 05 set 2019 - 14:49
  1. Até o momento, 13 certificações estão em andamento, oito de etanol hidratado e cinco de etanol anidro.
  2. Há oito usinas e sete grupos com certificações em consulta pública; o único grupo com mais de uma usina é o Jalles Machado.
  3. Juntas, as usinas em processo de certificação representam, aproximadamente, 3,6% da capacidade autorizada pela ANP para a produção de etanol.
  4. A quantidade de litros necessários para a emissão de um CBio varia de 661,81 a 1.288,66.
  5. Com uma produção em plena capacidade por 180 dias (de acordo com o volume diário autorizada pela ANP), as usinas em consulta pública podem emitir cerca de 2,9 milhões de CBios por ano – o valor equivale a 10,3% da meta de 28,7 milhões de CBios estabelecida para 2020
  6. Considerando um cenário de preço do CBio a R$ 34, as usinas podem receber uma receita adicional entre 2,64 centavos e 5,14 centavos por litro de etanol produzido.
  7. No mesmo cenário de preço do CBio, as unidades em consulta pública devem receber entre R$ 2,33 e R$ 8,46 por tonelada de cana moída.
  8. Já em relação à área de canavial, a projeção é de uma receita adicional de R$ 104,95 a R$ 528,01 por hectare.
  9. Supondo que as usinas mantenham 180 dias de produção plena de etanol por safra, as receitas adicionais das unidades foram projetadas de R$ 6,1 milhões a R$ 22,8 milhões.
  10. Em um cenário otimista, com o preço do CBio a R$ 146, a usina com melhor desempenho pode obter R$ 97,9 milhões de receita adicional com o etanol hidratado.
  11. Em contrapartida, em um cenário considerado pessimista – com CBio a R$ 17 –, a unidade de pior desempenho teve uma receita adicional projetada de R$ 1,8 milhão com etanol anidro.
  12. O rendimento agrícola dos canaviais analisados varia de 44,96 t/ha a 77,49 t/ha.
  13. Todas as usinas declararam áreas queimadas; elas vão desde 106,42 ha até 29.252,92 ha.
  14. Apesar de cinco firmas inspetoras estarem cadastradas na ANP, apenas duas iniciaram consultas públicas: SGS do Brasil e Green Domus.

Se o RenovaBio começasse a funcionar a partir de amanhã, com créditos de descarbonização (CBios) sendo negociados em bolsa de valores por investidores e por distribuidoras já em busca de títulos para cumprir suas metas, nenhuma usina de etanol estaria apta a participar do programa. Afinal, a primeira unidade a entrar em consulta pública – a Vale do Paraná, do grupo Pantaleon – ainda não concluiu esta etapa da certificação, de modo que ainda não pode emitir CBios.

Ainda assim, ela e outras sete unidades já deram um importante passo para ingressar no programa. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), as usinas atualmente em consulta pública representam 3,6% da capacidade autorizada para produção de etanol no país.

Além da Vale do Paraná, também estão em consulta pública a unidade Iracema, da São Martinho; as duas unidades da Jalles Machado; a Usina Da Mata; a unidade Conquista do Pontal, da Atvos (antiga Odebrecht Agroindustrial); a usina Vista Alegre do Alto, da Nardini Agroindustrial; e a CerradinhoBio.

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Conforme os dados apresentados, elas obtiveram notas de eficiência energético-ambiental que vão de 56 gCO2/MJ – registrado pelo etanol hidratado da usina Otávio Lage, da Jalles Machado – até 68,3 gCO2/MJ, obtido pelo etanol anidro da unidade Matriz, também do grupo Jalles Machado.

As notas são importantes porque elas funcionam como um fator multiplicador sobre o volume comercializado de etanol, delimitando a quantidade de CBios que uma usina pode emitir a partir da quantidade de dióxido de carbono emitido por seu processo produtivo completo, do campo aos carros. Assim, considerando uma mesma produção, usinas com notas diferentes não terão a mesma quantidade de CBios.

O diferencial está no campo – e na cogeração

Até o momento, a maior parte da disparidade das notas das usinas se dá no registro das emissões de CO2 ocorridas nos canaviais. O valor é calculado com base nos volumes aplicados de corretivos e fertilizantes, sejam eles orgânicos ou sintéticos, e dos combustíveis utilizados.

Um exemplo do peso desses dados nas notas está nos resultados das duas usinas da Jalles Machado. Enquanto a unidade Matriz obteve emissões médias de 15,7 gCO2/MJ, a Otávio Lage contabilizou 27,2 gCO2/MJ. Como resultado, as usinas também receberam a melhor e a pior notas registradas até o momento.

Conforme os documentos apresentados pela firma inspetora SGS do Brasil, a Otávio Lage optou por utilizar dados próprios de seus fornecedores para o cálculo da nota, evitando a possível penalização que aconteceria com o preenchimento por meio de dados padrões. Ainda assim, a utilização de corretivos e fertilizantes sintéticos foi um dos principais motivos para a elevação na nota.

Inclusive, se a unidade alterasse suas aplicações de fosfato monoamônico para os mesmos níveis da matriz do grupo, sua nota para o etanol hidratado subiria em 8,7 pontos, chegando a 64,7 gCO2/MJ – o que colocaria a unidade em 8º lugar no ranking atual, acima das usinas Da Mata, Vista Alegre do Alto, Cerradinho e Conquista do Pontal. Calcário dolomítico, gesso, ureia, nitrato de amônio e cloreto de potássio são outros produtos que afetaram o resultado da usina.

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Para esses dados, em alguns casos, as firmas inspetoras optaram pela realização dos cálculos por amostragem, mas há unidades que contabilizaram todos os fornecedores, como a Vista Alegre do Alto, da Nardini Agroindustrial. A consulta pública da usina apresentou dados reais de 255 produtores e dados padrão (determinados pela calculadora do programa e acima da média do mercado, caracterizando uma espécie de penalização) de outros 1.048 produtores.

Mas não foi só a fase agrícola que fez a diferença na nota das usinas. Para a CerradinhoBio, por exemplo, a fase industrial teve um peso considerável na nota – a unidade registrou as maiores emissões nessa categoria até o momento, com 3,5 gCO2/MJ.

Neste caso, os principais fatores altistas foram a utilização de cavaco de madeira e lenha para a geração de energia elétrica, como um complemento à biomassa de cana-de-açúcar. Sem esses registros, a nota da usina subiria para 64,4 gCO2/MJ, igualando seu resultado ao da usina Da Mata.

O impacto dos critérios de elegibilidade

Além disso, o volume de matéria-prima considerada elegível para o programa também terá reflexos na quantidade de CBios a serem emitidos. De acordo com as regras do RenovaBio, não podem participar áreas desmatadas após a publicação da resolução da ANP, produtores sem Cadastro Ambiental Rural (CAR) e áreas que desrespeitem o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar.

Atualmente, a unidade que possui a menor participação de área elegível é a usina Iracema, da São Martinho, com 54,85%. Em contrapartida, a CerradinhoBio, a Vale do Paraná, da Pantaleon, e a Vista Alegre do Alto, da Nardini, declararam que 100% de sua matéria-prima atende às regras do programa.

Segundo a firma inspetora Green Domus, responsável pela consulta pública da Iracema, a São Martinho entende que todas as áreas produtoras de cana são elegíveis. Porém, a variação entre a produção própria e a de terceiros, e a quantidade que realmente é computada no cálculo, indica que parte da cana processada foi previamente considerada não elegível e, portanto, não foi declarada nos documentos referentes à elegibilidade.

“Nessas circunstâncias, há que se aplicar um redutor referente à diferença entre a cana adquirida elegível e a efetivamente processada”, esclarece o sócio-diretor da empresa, Felipe Bottini.

As áreas que sofreram queimada, por sua vez, impactam na nota das unidades, mas seguem elegíveis para o programa. Até o momento, todas as unidades em consulta pública declararam a existência de queimadas. Para as usinas da Jalles Machado, essas áreas representaram menos de 1% do canavial, com 106,4 ha na usina Matriz (0,3% em relação aos 33,7 mil ha totais) e 181,4 ha na Otávio Lage (0,8% dos 21,6 mil hectares totais).

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Ao mesmo tempo, a presença de queimadas chegou a 46,3% de toda a área de canavial da Vista Alegre do Alto, da Nardini – a usina declarou queima em 26,3 mil ha. Em área absoluta, por sua vez, a unidade com mais queimadas foi a Conquista do Pontal, da Atvos: foram 29,2 mil ha, ou 30,7% do total.

Expectativa de CBios a serem emitidos

Com isso, mesmo tendo notas superiores no comparativo com as outras usinas em consulta pública, a unidade Iracema é a que precisa produzir uma maior quantidade de litros para poder emitir um único CBio: 1.223,99 litros de anidro ou 1.288,66 litros de hidratado.

O valor é um pouco menor que o dobro do necessário para a usina Matriz, da Jalles Machado, que precisa comercializar 661,81 litros de anidro ou 695,89 litros de hidratado para emitir um CBio. A unidade tem as maiores notas até o momento – 68,3 gCO2/MJ e 68,0 gCO2/MJ – e 99% de sua matéria-prima é considerada elegível para o programa.

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Considerando a produção diária autorizada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e uma safra com 180 dias de operação plena, as usinas com maior capacidade de produção acabam compensando notas mais baixas.

Um exemplo é a unidade CerradinhoBio. Com uma nota de 62,3 gCO2/MJ, o etanol produzido pela usina está em 10º lugar no ranking das 13 certificações em andamento. A unidade, contudo, tem a maior capacidade de produção de etanol hidratado do país e, com isso, a estimativa é que ela emita mais de 670 mil CBios por safra.

Já a usina Matriz, da Jalles Machado, tem as melhores notas entre todas as usinas, com 68,3 gCO2/MJ para o etanol hidratado e 68 gCO2/MJ para o anidro. Ainda assim, ela tem uma capacidade de produção 64,3% menor em comparação com a CerradinhoBio. Com isso, a expectativa é que ela emita quase 264 mil CBios – 60% a menos que a unidade da Cerradinho Bioenergia.

Dessa forma, a diferença de 4,3 pontos percentuais entre esses dois índices representa a “dianteira” recebida pela usina devido a seu processo produtivo mais eficiente energética e ambientalmente.

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Somadas, todas as usinas de etanol atualmente em consulta pública devem emitir cerca de 2,94 milhões de CBios por safra. O valor equivale a apenas 10,25% da meta total estipulada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para 2020, de 28,7 milhões de títulos.

Por sua vez, as usinas de biodiesel em consulta pública devem emitir mais 1,59 milhões de CBios, totalizando 4,53 milhões de CBios por ano. O montante equivale a 15,8% da meta para 2020.

Projeção de rendimento das usinas

Esse desempenho tem um impacto direto nas projeções de receita adicional para as companhias. Em um cenário com o CBio sendo comercializado a R$ 34 – conforme projeção do Ministério de Minas e Energia (MME) –, o etanol anidro da usina Matriz, da Jalles Machado, pode render uma receita adicional de 5,14 centavos de real por litro vendido.

O valor é 84,9% maior que o rendimento adicional por litro do etanol anidro da usina Iracema, da São Martinho, que foi penalizada devido a alta participação de matéria-prima não elegível para o RenovaBio. Neste caso, a venda de CBios a R$ 34 significaria uma receita extra de 2,78 centavos por litro.

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Levando em conta a projeção de volume de etanol a ser produzido por usina, a distância entre as companhias de acordo com a capacidade de produção se intensifica. Mantendo a comparação anterior, o etanol anidro da usina Matriz da Jalles Machado pode render R$ 3,7 milhões para a usina, enquanto a Iracema deve receber em torno de R$ 5,22 milhões nas mesmas circunstâncias de preço.

Essa “virada” se deve ao fato de que a usina da Jalles Machado tem autorização da ANP para produzir 400 mil litros de etanol anidro por dia, enquanto a unidade da São Martinho pode fabricar 850 mil litros diários.

Já a CerradinhoBio – que possui a maior capacidade de produção de etanol hidratado do país, com 2,8 milhões de litros diários – tem uma projeção de receita de R$ 22,79 milhões.

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Porém, é preciso considerar que os preços de venda do CBio ainda são uma incógnita, uma vez que os títulos serão negociados em bolsa de valores. Os valores devem variar de acordo com flutuações do mercado de etanol e gasolina, com as estratégias de negociação das distribuidoras e, caso a regulação permita, com o interesse de agentes externos à cadeia de combustíveis.

O próprio MME chegou a divulgar dois outros cenários, além do que considera um valor “realista” para os preços, que seria em torno de US$ 10. Em uma projeção pessimista, com o CBio sendo negociado a R$ 17, a receita adicional da usina Matriz com etanol anidro cairia para R$ 1,85 milhões, enquanto o etanol hidratado da CerradinhoBio renderia R$ 11,4 milhões.

Um cenário otimista – com o CBio sendo vendido por R$ 146 –, por sua vez, representaria rendimentos de R$ 15,88 milhões para a usina Matriz e de R$ 97,87 milhões para a CerradinhoBio.

Produção, produtividade e receita relativa

Outros dados revelados pelas consultas públicas do RenovaBio são a área total dos canaviais e a moagem de cada uma das unidades. Com isso, é possível calcular o rendimento dos canaviais por usina – e a relação desses dados com a estimativa de número de CBios a serem emitidos.

Nas consultas públicas atualmente em andamento, o melhor resultado é o da Otávio Lage, da Jalles Machado, com 77,49 t/ha. Já o pior é o da Conquista do Pontal, da Atvos, com 44,96 t/ha.

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No caso da Conquista do Pontal, a baixa produtividade fica clara na análise da projeção de receita por tonelada de cana moída ou por hectare. O etanol hidratado da companhia já tem a segunda nota mais baixa entre todas as consultas públicas em andamento – um resultado que também deriva da baixa eficiência da unidade – e sua projeção de receita adicional é de R$ 2,33 por tonelada de cana ou R$ 104,95 por hectare (cenário considerado realista pelo MME, onde o CBio é negociado por R$ 34).

Os indicadores estão, respectivamente, 34% e 60,5% abaixo das projeções para a usina Matriz, da Jalles Machado, que ocupa a penúltima posição no ranking que relaciona a emissão de CBios com os canaviais.

Por sua vez, o melhor desempenho nesses quesitos é o da usina Vale do Paraná, do grupo Pantaleon. Conforme a projeção calculada pelo novaCana, a unidade pode receber R$ 8,46 por tonelada de cana moída ou R$ 538,01 por hectare – valores 262,6% e 403,1% superiores em relação aos da unidade Conquista do Pontal.

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Como a maior parte dos custos fixos das usinas está no campo, um bom desempenho agrícola é essencial para a redução do preço unitário do etanol. Além disso, com o RenovaBio em vigor, a produtividade é duplamente recompensada: as usinas podem negociar um número maior de CBios porque terão um maior volume de produção e uma melhor nota de eficiência energético-ambiental, ampliando o ganho adicional de receita.

Em compensação, as usinas com um desempenho ruim nos canaviais também são duplamente penalizadas, o que pode ampliar a já conhecida discrepância entre os resultados das melhores e das piores companhias do setor.

Renata Bossle – novaCana.com


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