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Leilão da Usina Guaxuma, de João Lyra, termina sem receber lances

Interessados terão nova possibilidade de adquirir a unidade pela metade do valor da avaliação


novaCana.com - 16 out 2018 - 14:08

Terminou hoje (16), às 14h, o leilão da Usina Guaxuma, unidade do grupo João Lyra em Coruripe (AL) e parte da massa falida da Laginha Agroindustrial. O certame não obteve lances.

Agora, os equipamentos da usina e as terras, avaliados em R$ 819,13 milhões, poderão ser vendidos em uma segunda praça, com 50% de desconto. Dessa forma, o novo lance mínimo passa a ser R$ 409,56 milhões.

Conforme material destinado a investidores, o valor poderá ser pago de forma parcelada, com entrada de 25% e o restante dividido em três pagamentos semestrais. O novo prazo para lances é o dia 30 de outubro, às 14h.

Do valor total avaliado, R$ 667,20 milhões são referentes a uma área de aproximadamente 17,15 mil hectares, dividida em 65 imóveis rurais em Coruripe e cidades próximas, como Campo Alegre, Teotônio Vilela e Junqueiro. Com o desconto de 50%, o valor dos canaviais passa a ser de R$ 333,10 milhões, o equivalente a R$ 19.450,00 por hectare.

Já os R$ 151,93 milhões restantes, por sua vez, referem-se a equipamentos industriais. De acordo com o divulgado, o parque industrial tem capacidade para moer 1,8 milhão de toneladas de cana-de-açúcar por safra e produzir 200 mil toneladas de açúcar VHP. Em relação ao etanol, a capacidade de produção é de 124,2 milhões de litros – 49,68 milhões de anidro e 74,52 milhões de hidratado.

Com o desconto, os equipamentos passam para o lance mínimo de R$ 75,96 milhões. Entretanto, há uma estimativa de valor para manutenção e reinvestimentos de R$ 22 milhões, totalizando R$ 97,96 milhões. Além disso, eles estão instalados em uma área que não faz parte das terras vendidas no leilão.

“Todos os bens móveis e equipamentos industriais deverão ser removidos e/ou transferidos para outro local”, afirma o edital do leilão. Os custos relativos à remoção, transporte e transferência desses bens, ainda segundo o documento, deverão correr por conta exclusiva do comprador.

A empresa realizadora do certame também informa que há uma ação incidental de restituição referente ao parque industrial. A princípio, a justiça indeferiu o pedido, mas existe uma apelação pendente de julgamento.

Em maio de 2014, um laudo da Valor Engenharia avaliou a usina e as terras em R$ 864,10 milhões. Em quatro anos, a desvalorização foi de R$ 44,97 milhões ou 5,2%.

Venda direta e arrendamento

Antes da aprovação do leilão, no entanto, foram realizadas diversas tentativas de venda e de arrendamento da Usina Guaxuma. Em maio de 2016, chegaram a ser iniciadas negociações com a CPM Brazil Comércio, Importação e Exportação de Commodities, que apresentou uma proposta de compra por R$ 850 milhões.

Na ocasião, mesmo com a possibilidade de venda em andamento, a justiça mantinha aberta a alternativa de arrendamento. Em setembro do mesmo ano, o Grupo João Lyra chegou a anunciar um acordo com a GranBio.

Alguns meses depois, no entanto, a Biovertis Produção Agrícola – uma das empresas da GranBio – e a Usina Coruripe, sua parceira nas negociações, declararam a impossibilidade de arcar com o contrato de arrendamento.

Na ocasião, a Usina Coruripe declarou que pretendia seguir em frente com o processo de arrendamento. Uma decisão sobre o assunto, no entanto, só foi proferida em abril de 2018, quando os juízes que atuam no processo de falência da Laginha Agroindustrial autorizaram o arrendamento da Usina Guaxuma pela Usina Coruripe e pela Impacto Energia. As empresas deveriam atuar de forma conjunta durante 11 anos.

As companhias, contudo, desistiram do arrendamento e a unidade continuou parada, motivando a decretação do atual leilão.

Usinas em crise

A atual situação da Usina Guaxuma deriva de uma trajetória de calotes relacionados ao ex-deputado federal João Lyra. Em seu auge, além de possuir cinco usinas de cana-de-açúcar e grandes extensões de terra, Lyra chegou a ser dono de diversas outras companhias, incluindo empresas de comunicação, táxi aéreo e uma fábrica de adubos.

Após perder as eleições do governo de Alagoas em 2006, ele começou a acumular dívidas, aproveitando-se de sua posição política de prestígio no estado para atrasar pagamentos. A cada entressafra de cana, ele solicitava novos empréstimos com bancos nacionais e internacionais, mas não cumpria adequadamente os contratos.

Em setembro de 2011, com uma dívida de aproximadamente R$ 2 bilhões, Lyra teve que entregar o comando de suas empresas a interventores. Na ocasião, conforme publicado em uma reportagem da Exame, as análises das contas das usinas apontavam que haveria dinheiro em caixa para cobrir as negociações judiciais dos débitos. “A situação parece bem diferente do que era passado oficialmente nas negociações. Eles vinham dando calote em todo mundo deliberadamente”, resumiu um dos credores ouvidos pela reportagem.

O processo de falência, entretanto, ainda se arrastaria por alguns anos, inclusive com afastamento de juízes envolvidos no processo. No período, muitos dos ativos sofreram deterioração e as dívidas com bancos se acumularam.

Em 2017, as duas usinas mineiras do grupo foram leiloadas, ambas pelos valores mínimos dos certames. A Usina Triálcool foi arrematada por R$ 133,83 milhões pela Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) e a Usina Vale do Paranaíba foi vendida por R$ 206,385 milhões para a CRV Industrial, do Grupo Japungu.

Renata Bossle – novaCana.com