Usinas

Infinity Bio-Energy tenta protelar venda da usina Alcana


Em Tempo (MG) - 02 dez 2020 - 09:03

O Vale do Mucuri, em Minas Gerais, vive a expectativa do retorno das operações da usina Alcana arrematada em leilão judicial pelo grupo Alcon. Entretanto, a massa falida do grupo Infinity Bio-Energy, que adquiriu a planta da Alcana e de outras cinco, agora busca protelar a venda da usina apregoada em leilão. No último minuto do prazo para recursos, a massa falida entrou com embargo para protelar a venda.

A compra da Alcana pelo grupo Infinity, no início da década passada, causou expectativas positivas para a economia da região, porém produtores, fornecedores e funcionários amargaram prejuízos que ainda causam sofrimentos. A falência da Infinity criou caos social na região, com o fechamento das usinas Alcana, Cridasa e Disa; a Ibiralcool ainda opera porque foi adquirida por outro grupo.

No estado em que se encontra, a planta da Alcana precisa de reformas antes de retornar as atividades. Produtores veem na ação da Infinity, uma forma de causar prejuízos para a região. “Eles ficaram devendo a cana fornecida e agora que poderíamos amenizar os prejuízos, a Infinity quer piorar a situação. Se eles dessem a usina de graça, estariam fazendo um grande favor”, relatou um produtor de cana, que pediu anonimato.

Segundo informações, a Infinity não pagou alguns funcionários e as ações judiciais, que em sua maioria correram à revelia, ainda não foram totalmente concluídas. Inúmeras pessoas sofreram por não terem recebido as indenizações, “um verdadeiro caos social que essa empresa deixou para nós, agora não querem que voltemos ao trabalho, isso é uma injustiça”, disse um ex-funcionário, cujo processo se arrasta na Justiça do Trabalho.

Para o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Nanuque, Alessandro Ferreira, a ação pode ter consequências “irreparáveis”, já que muitos produtores apostaram no retorno da produção de etanol e açúcar.

“É muito triste, pois a Infinity paralisou a usina, não a colocou para produzir, gerando consequências na criação de empregos e renda para a população e, o que é pior, atrasou o desenvolvimento regional”, afirma e completa: “Espero que estas ações judiciais sejam logo resolvidas, pois o grupo Alcon, que adquiriu a Alcana, deverá produzir logo e alavancará o desenvolvimento de Nanuque e região”.

O presidente da Siamig – entidade que congrega o setor sucroenergético do Estado de Minas Gerais –, Mário Campos, relata que uma empresa do setor sucroenergético tem capacidade de empregar um contingente muito grande de pessoas. Ele conta que no apogeu da Alcana, época em que a destilaria chegou a moer 1,5 milhão de toneladas, a usina gerou recursos importantes para a economia não só de Nanuque, mas também do estado de Minas Gerais.

“Uma empresa, nesse cenário, gera algo em torno de mil empregos diretos. Deixando de atuar, esses empregos são desativados e o impacto na economia da cidade é incalculável”, pontua.

Segundo Campos, Minas Gerais tem mercado para a produção de etanol, sendo um grande consumidor do produto. Ele fala da satisfação que teve ao receber a notícia de que a Alcon havia adquirido a Alcana e disse esperar que a nova proprietária possa reativar o quanto antes a usina para que a economia regional entre em um ciclo de prosperidade.

“Minas Gerais, ao longo desse período de crise no setor, perdeu cerca de 11 usinas e, entre elas, a Alcana. Isso gerou grande sofrimento pela perda de milhares de empregos. Famílias inteiras perderam a qualidade de vida por conta dessa crise”, afirma, mas segue: “Porém, fizemos um trabalho que resultou, em 2020, na abertura de duas usinas no Triângulo Mineiro. Usinas que foram fechadas lá atrás, como a Alcana e que foram adquiridas em leilão, por processos semelhantes a esse que ocorreu”.

Para ele, a reativação da usina trará uma nova perspectiva para a região de Nanuque. “Mais empregos, geração de renda e tributos. A Siamig espera que tudo transcorra dentro da normalidade e que dê tudo certo para que a Alcon, importante empresa do setor no estado do Espírito Santo e que é muito sólida, possa vir para Minas e reativar essa unidade industrial”, finaliza.

O presidente da Câmara Municipal de Nanuque, Solon Ferreira da Rocha Filho (PMDB), é contundente quando se trata de promover o desenvolvimento econômico do município. Para ele, a tentativa da massa falida que representa o grupo Infinity é mais uma manobra para dificultar o leilão, que foi realizado nos trâmites judiciais.

Contudo, acredita o vereador, os prejuízos serão imensos já que o fechamento da destilaria de Nanuque promoveu “um abalo sem precedente” na região. Com a reativação da usina, diz ele, a geração de emprego trará um novo alento para nossa população.

“Às vezes fico imaginando quantos empregos a usina poderá gerar nos vales do Mucuri e Itaúnas. Partindo do pressuposto de que a Alcana, em pleno funcionamento, gerará mil empregos diretos, a quantidade dos indiretos será três ou quatro vezes maior”, afirma e relembra: “Quando o grupo Infinity comprou a Alcana, houve, por parte dos setores produtivos, uma expectativa de desenvolvimento muito grande. Mas, com a falência da Infinity, a frustração, somada com o desemprego, levou nossa economia para o buraco”.

Para Renato Louzi, assessor parlamentar do deputado estadual Carlos Pimenta, Nanuque passou por sérias dificuldades com o encerramento das atividades da Alcana. Inúmeros investimentos foram realizados em vários setores que atendiam a empresa através da venda de materiais, insumos e outras como prestação de serviços.

“Agora que a população vivencia uma nova probabilidade para o setor, a Infinity quer atrasar o processo. É preciso que haja uma grande mobilização para defender os interesses de nossa região”, pontuou Louzi. “Não podemos aguardar passivamente que tudo aconteça dentro dos interesses da requerente, a participação popular é fundamental. Nossos representantes nas esferas estadual e federal, têm de buscar meios para defender nossos interesses. Nanuque não pode mais, sofrer com essa empresa que causou tantos prejuízos para a região”.

O grupo Alcon, através de nota publicada após a compra, que serão necessários investimentos na ordem de R$ 40 milhões para colocar a planta industrial em condições de operar e outros R$ 100 milhões para aplicar no plantio de matéria prima. Isso poderá gerar cerca de 2.500 empregos diretos, fator primordial para reativar a economia.